sexta-feira, 23 de julho de 2021

Mas afinal o que é que não viste do Gus Van Sant? - Last Days (2005)


Há sempre um vidro ou uma parede neste purgatório Van Santiano. Enquanto que em Elephant (o meu favorito) erámos mochila nas costas das personagens, saltitando nos corredores, entre umas e outras, aqui somos espectros, mirones, a assistir silenciosos ao fim do mundo. Frios, como a mansão degradada de altos tectos que acolhe este organismo cambaleante. Não é que eu não fique encantado com as longas sequências, em especial com aquele delicado zoom out enquanto ele toca, a questão é queria francamente fazer parte destes últimos dias. E nunca consegui. 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

The Little Red Barn Show

Kristian Matisson, conhecido como The Tallest Man on Earth, foi daquelas companhias decisivas no confinamento. Copo de tinto cheio, monitor a meio brilho e concertinho intimista para lembrar que as sextas ainda eram dias. Soltavam-se guitarras, naquela explosão contida e inquieta, e no meio do deserto estávamos enfim juntos. Depois desses retiros, o músico decidiu regressar aos palcos, ainda o ano passado, com pequenos concertos num celeiro. Esses momentos foram capturados pelo seu amigo Rolf Nylinder que hoje os apresenta neste belíssimo documentário musical.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Tinhas de parar para ver não é?

Dez anos depois decidi voltar a casa. Àquela Murder House, cenário e título da primeira temporada de American Horror Story. Sólida proposta que rapidamente perdeu energia: vi o Asylum e o Coven mas não passei dos primeiros episódios de Freak Show. Uma salganhada visual, demasiado extensa que se perdia no seu próprio reflexo. Depois disso ainda vieram mais cinco e só não foram seis por causa do covid. É impressionante como esta saga de horror virou uma espécie de Anatomia de Grey que insiste em não ter fim. De certeza, suportada pelos seus autores e por uma legião de fãs que não pode ser pequena. Posto isto, ao dar de caras com uma espécie de spinoff meta, American Horror Stories, onde cada episódio é uma história autónoma - a antologia a parir antologias - decidi abrir a porta. Claro, que devia ter estado quieto. Primeiro, porque o susto inaugural acontece não em um, mas sim em dois episódios (batota). Segundo porque regressa à mansão assombrada do início e ao fato de borracha (cansaço). Terceiro e  último, porque continua mauzinho mauzinho (suspiro): os atores, especialmente a protagonista, não cumprem os mínimos; os truques, uma década depois, são exatamente os mesmos; a cinematografia perdeu toda a graça, toda a identidade; e a sopa de tons não nos deixa sentir o mínimo de terror/tensão/emoção. Feito. Quem sabe em 2031, volte para a terceira ronda. 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Fim de Semana com o Morto: Acorrentados

Boa malha este Till Death. Deixa de lado o enfoque nos traumas - do qual Gerald´s Game usou e abusou - e segue fresquinho para o prato principal. E que vingança mais bem trabalhada, o moço pensou mesmo em tudo. Achamos que: oh que fácil, então agora basta ela ir até à cozinha, agarrar numa faca e...então, onde é que estão as facas??? É isto, de desafio em desafio, até ao confronto final que [SPOILER ALERT] está no poster. Esta malta do design não perdoa.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Digam-me outra

Os antigos dão dia sim dia sim nos AXN e FOX movies desta vida. O mais recente (2016) está na Netflix, na HBO Portugal e no Amazon Prime. A Disney + que não se ponha a pau não.  Bem, com tanta pressão de grupo lá comecei a ver Resident Evil: The Final Chapter. Não consegui: um dia adormeci, no outro o mesmo fado e ao terceiro, estava super acordadão e desisti. Já chega. Não consigo. Edição epilética, efeitos do tempo da nossa senhora, interpretações do teatrinho de 9º ano e uma história rebuscadíssima onde nada tem a ver com nada, muito menos com zombies. Os anteriores lá fui desbravando, ao longo dos anos mas confundo-os todos, são uma massa amorfa de clones, barcos, rapel num prédio, 3D nos óculos de sol e a chavalita holograma. O primeiro é o único que sobressai, que tem alguma estrutura e eficácia. Mas mesmo assim, é impressão minha ou esta é a pior saga de sempre? A sério, digam-me outra que constantemente e de forma tão equilibrada se tenha mantido com este nível de miserabilidade? 

quinta-feira, 15 de julho de 2021

A caminho da revolução

[SPOILERS] Muito fã da persona Loki, dos seus cinzentos num universo de tons vivos. Grande parte desta primeira temporada foi esse regalo: uma cavalgada fantasiosa mundos afora, com desafios constantes no que toca à identidade, ao livre arbítrio, à solidão. As várias versões de uma pessoa a coexistir no mesmo espaço; o facto de nos podermos apaixonar e deslumbrar por nós próprios; ou sermos todos variantes de alguma coisa, linhas e hipóteses no meio de tantas outras. Lost, Devs, The Wizard of Oz, Planet of the Apes estão como já se disse, presentes neste final, que, à semelhança dos últimos capítulos das séries anteriores do MCU, acaba por me deixar um amargo na boca. Porém por razões diferentes. Wanda Vision e The Falcon and the Winter Soldier, apesar de terem oferecido desenlaces apressados (no primeiro caso) e pouco robustos (no segundo), conseguiram encerrar uma proposta, uma temporada: as pessoas saem da bolha e temos um novo Capitão. Aqui, apesar de existir segunda temporada, apesar de existir cliffhanger, havia lugar para uma conclusão. Meia hora de exposição para nos dizerem que o gajo por detrás da cortina quer exatamente aquilo que já sabíamos: manter a linha sagrada? Meia hora de exposição para sabermos que as várias linhas vão criar o multiverso - promovido já nos futuros What If...? e Doctor Strange in the Multiverse of Madness - e que isso vai ser uma grande rebaldaria? Meia hora de exposição para os Lokis se separarem, os personagens secundários ficarem ao pendurão e o "vilão" morrer para dar lugar a outro num futuro próximo. Nada ficou realmente e assim é inevitável este sentimento de passagem. Num dos textos que li hoje sobre o episódio comparavam o mesmo à cena do arquiteto no The Matrix Reloaded. Bem todos nós nos lembramos do que veio a seguir.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Quote - French Kiss (1995)

No, no, you are not wrong. Wine is like people. The vine takes all the influences in life all around it, it absorbs them, and it gets its personality. Here.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Teremos sempre o Taskmaster


Ai Taskmaster, muitas vibrações Darth Maulianas, da presença maligna com pinta, cheia de pinta, pontualmente a dar o corpo à coreografia. Não é preciso conversetas, é uma questão de saber ocupar o écran, e este vilão entra diretamente para o topo da lista das figuras mais interessantes deste MCU. Depois, Florence Pugh, duas horas e vinte de Florence Pugh, é sempre pouco, mas em último caso volta-se a ver o filme do wrestling. Uma cine magnetite esta moça, cheia de genica, pronta para o legado, numa versão mais fresca que a conduzida por Scarlett Johansson. Quanto ao global, apesar de ter gostado daquele do modo G.I. Joe/James Bond, a rebentar com capitais europeias, e do final meio Mission Impossible, ficou a faltar a gravidade. Nunca conseguimos verdadeiramente sentir as cruzes da protagonista e estando ela salva de qualquer dói dói nesta prequela, é muito difícil estabelecer um ponto de contacto. Eu gosto deste bioma de intriga política e conspiração, do Captain e companhia, mas, assim como aconteceu na série do The Falcon and the Winter Soldier (em toda a questão dos retornados) faltam aqui unhas para abordar a realidade deste passado e desta "família". Pedia-se mais, mais negrume, mais fidelidade a quem, em última instância, dá o nome a toda esta história.

domingo, 11 de julho de 2021

Então estamos sós enfim


Bem Bom consegue superar o seu maior desafio: retratar a banda, não só enquanto Doce, mas enquanto Lena, Teresa, Laura e Fátima. Não escolhe ninguém em particular, não Freddie Mercuryza a obra em prol de uma narrativa mais fácil ou pipoqueira. A voz é delas, de cada uma delas. Quatro jovens atrizes que se atiram de cabeça, em personagens cheias, repletas de energia e identidade. Há esse olhar, esse esperar por cada uma, de forma a entrelaçar todos estes feitios em pequenos feitos, como aquele delicioso momento musical numa bomba da Galp. Por outro lado a belíssima cinematografia - destaque para o uso da contraluz - do pessoal, das formas, das roupas, não consegue esconder algumas limitações no que diz respeito à escassez de recursos. As atuações ao vivo acabam por ser repetitivas, pouco criativas e sem escala. Ficamos a pensar de como seria interessante explorar o cinema por detrás dum festival da canção, os artistas, o burburinho, a pontuação, aquele vai não vai de saber quem ganhou. Nada que aleije o trautear contagiante, enquanto descemos bem dispostos as escadas da saída.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Filmar o tempo

Sai do carro. Primeiro, distrai-se com um avião a cruzar o céu, rasgando a traço branco o fundo azul. Depois vai apanhar algumas flores, num monte de folhagem seca que ali repousa. Ao retirar a última, uma lata adormecida cai para a estrada. O homem olha para ela e, reguila, dá-lhe o toque. Lá vai ela rua abaixo, primeiro para a direita e depois curva suavemente à esquerda até bater no passeio. E nós podemos assistir a tudo. Close-Up, o meu primeiro Kiarostami, é um inteligente e intrincado docudrama sobre uma pessoa que se faz passar por outra, recriado e interpretado pelos intervenientes reais, num jogo de espelhos que desafia formatos e convenções. Porém, é este compromisso com o tempo, com a espera - enquanto lá dentro tudo acontece - que me faz querer ver mais, saber mais e olhar mais.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Dos grandes finais


Look, I know you're gonna be goin' places with your singin' and stuff. And... I'm not the kinda guy to be carryin' your guitars around for you. But if you ever need me for somethin'... I'll be there.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

As outras crónicas de gelo e fogo

É uma obra despachada, seca, com aquele embrenhar país adentro que Taylor Sheridan (e eu) tanto gosta. Aqui a floresta e o fogo, a substituir o deserto e a neve. Porém  Those Who Wish Me Dead esquece dois aspectos fundamentais do canto anterior (o belíssimo Wind River): primeiro a desolação e o desalento da gente esquecida, de um cosmos onde ninguém salva ninguém; e segundo, a metamorfose da protagonista, nos seus dilemas e redenções. Jolie entrega-se, apanha porrada, mas não sentimos aquelas queimaduras e cicatrizes da Emily Blunt em Sicario. Ficou a faltar a ideia de que, apesar de a justiça ter sido feita, o mundo continua pesado, triste e assombrado.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A mesma guerra

[SPOILERS] As criaturas estão um mimo. A premissa de ir recrutar ao passado para combater no futuro é também muito apetitosa. E o filme até estabelece bem as suas regras e dinâmicas, usando aquele salto temporal de um ano. Agora o que me irrita nestes mastodontes de fábrica é que caem sempre nos truques mais velhos, mais cansativos e mais gastos. Desistiram de nós, desistiram de pensar um guião que não te diga - Estás a ver este aluno? A falar de vulcões, assim do nada, com a turma toda a reforçar? Estás a ver? Estás também a ver o amigo por conveniência que é Engenheiro Geotérmico? Pronto ainda bem, é que no final do filme vai estar aqui a chave do problema. É tão de caras, é tão de caras que ele vai encontrar a filha - graças a deus que não foi o Eça a escrever isto senão podia ficar esquisito - que vai haver um sacrifício e que ele terá de resolver tudo no presente. Não dá para ser inocente. A falta de química entre toda e qualquer personagem também não ajuda, mas vá lá, vamos dar algum descanso ao molde e resolver as coisas com novas ferramentas, pode ser?