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sexta-feira, 20 de junho de 2025

Boots-boots-boots-boots

Aquele primeiro (e fabuloso) trailer já nos tinha deixado desnorteados. Boots-boots-boots-boots-movin' up and down again. E essa mestria, em localizar mas não expor, transpôs-se para uma experiência cinemática que nos apanha de facto na curva: uma história de família, fechadinha, na transição e crescimento do protagonista, que por acaso existe num espaço em quarentena, infetado. Mão firme no que se quer contar, no que se quer mostrar, no encontro renascido do verde Garland com o punk Boyle. Lindo de morrer, gore até dizer farta, tudo parece novo, por descobrir. Talvez o terceiro acto merecesse mais espaço - mais Ralph Fiennes laranja - e o final - igualmente laranja (mecânica) - outro tipo de tratamento, mas são pequenas coxas num festim que nos vai encher a mesa durante os próximos tempos. Bela surpresa.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

De luva branca


Eu e o meu mau feitio, logo a refilar: "Ela nos tempos de juventude não tinha problemas em mostrar as maminhas", acho que na altura até fui rude e disse mamas. Passados uns minutos, tufas, toma lá com um nu frontal que é só para ver se sossegas. Desculpa Rosario, nunca mais, juro, nunca mais. Quanto ao filme, pequena extravagância de um Boyle divertido e dedicado, que se delicia a cruzar e trocar. Um thriller, daquela estirpe que surge de tempos a tempos sem dever nada a ninguém e com uma eficácia assassina. Cor, estilo, ritmo e pop. Aquele montar frenético que aqui encontra uma casa e descansa inocentemente em paz. Para que nós espectadores não tenhamos nenhuma. Agradável surpresa.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Slumdog Millionaire


Queria começar com uma questão e deixar quatro hipóteses de resposta. O problema é que não encontro a questão e muito menos percebo as respostas. Dou com o facto de que Slumdog Millionaire é o filme sensação da época. Aquele que começou pequeno e foi crescendo, que nem jogador da bola, ou que nem o próprio protagonista, da lama até à fortuna.

Danny Boyle é um realizador colorido e heterogéneo, o que dificulta a previsão do seu próximo passo. Já apalpou quase todos os terrenos, com quase todos os resultados possíveis, deixando em aberto a aproximação que se segue. Aqui o cenário escolhido foi a Índia e a história é aquela que todos já sabem: Jamal, um miúdo oriundo dos bairros da lata encontra no seu passado as respostas para o concurso Quem quer ser milionário. O seu grande objectivo não é o dinheiro mas sim encontrar o seu amor perdido, Latika.

A obra divide-se em duas partes, tanto pela cronologia, como pela qualidade, residindo nesta distinção a sua maior força e a sua maior fraqueza. A primeira conta-nos as peripécias da infância, num país pobre e sobrepovoado. Com uma fotografia incrível, somos apresentados à dualidade latente na vida de dois irmãos, ao inferno num cenário idílico. De cena em cena passamos por excelentes sequências sempre à espera da pista para a resposta seguinte, sempre na expectativa e na dúvida do próximo desafio. O drama implícito no conto de fadas resulta e os flashbacks encaixam na perfeição no interrogatório policial. Balançamos numa linha ténue, entre duas notas, no tom que é o certo.

A partir do momento em que a dupla de irmãos se separa e a infância acaba, o filme cai da corda. Ficamos sem as odisseias mirabolantes e ganhamos uma história de amor mal arranjada. Vem ao de cima a fragilidade interpretativa do casal protagonista e os buracos do argumento. O destino ganha contornos demasiado forçados: o reencontro com o irmão, o reencontro com Latika, a pergunta final, tudo é pouco natural, tudo impede a narrativa de fluir normalmente, caindo em absoluto no campo da lamechice (e por vezes do ridículo). Tal como Ícaro, arriscaram demais e o que podia ter sido um voo pleno acabou numa viagem interrompida por um final pouco satisfatório.

Esta perda de orientação e de balanço não tira ao filme todo o seu brilho, toda a força da sua história, toda a originalidade e vontade. Deixa-o apenas na casa errada. Longe do brilhantismo, longe daqueles pequeninos que ficam para sempre na nossa memória.
(+) A grande odisseia da infância.
(-) Não conseguir manter o tom equilibrado durante todo o filme.