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A mostrar mensagens de Fevereiro, 2017

Corre, John, Corre!

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Reduzir John Wick: Chapter 2 ao número de balas é como circunscrever Mad Max a uma perseguição. A viagem, existe viagem, existe experiência, sumo e lucro. Não é isso que vem no bilhete? Ai é: uma edição tão cuidada e delicada, aparentemente descontraída que até uma gargalhada serve de raccord . O mais irónico é que o próprio filme se tenta reformar, como a personagem, descartar do seu papel, tentar aborrecer naquela centena, mais, de crânios a rebentar. Não consegue. Não consegue porque - e aqui amigos é que John Wick assume o estatuto de lenda - existe enquanto personagem do seu próprio filme. Num plano paralelo, suspenso no real, entre as gotas dos dias, sem ninguém se meter, sem ninguém tocar: como no final que todos param, todos são espectadores à espera que o último herói de ação desapareça. Ele foge, como espécie em extinção. Nós, ainda embevecidos, gritamos: corre, John, corre!

Tempo Perdido

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Até eu, gosto de ser Mendel cinematográfico, desenhando inteligentes cruzamentos e percebendo de onde vem o tom mais arruivado daquela tal cena. Mas, em O Homem do Futuro , praticar esse desenho é inglório.  Primeiro, porque nunca mais íamos largar a caneta. E segundo porque são viagens no tempo malta, quem é que quer saber? Rezingão frustrado, volta atrás para mudar o percurso da sua vida para depois perceber que as coisas ficaram ainda pior do que já estavam. Para mim bastava o volta atrás, mas já que tem boa música, bons actores e acerta no mecanismo essencial - com o inteligente final - leva um par de beijocas extra.

Não custa nada

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Duas coisas muito boas nos dois últimos Underworld , que tive com carinho e dedicação a pôr em dia: são mais pequenos que um episódio grande, sempre abaixo da bitola fofinha dos 90 minutos, e têm fraturas expostas. Quem consegue dizer que não a pouco mais duma horita, a partir e a rasgar lobisomens ao meio?

Pauvre Lola

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Sem querer fazer muito alarido, ligando já o rádio em Gainsbourg para a festa, o primeiro episódio de Legion é a façanha mais inteligente, hábil e deliciosa do ano.

O efeito Knepper

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Estava aqui a pensar: oh T-Bag tu rebentas qualquer mitologia onde metas os calcanhares. Não é que Transporter , Hitman ou The Hunger Games tenham tido grande história sem ti mas foda-se, o Jack Reacher ? Conseguiste tornar um dos únicos bastiões, correntes, da ação inteligente num daqueles filmes políticos sonecas do domingo à tarde, com o Tom Hanks gordo ou Robert Redford com 240 anos. Não não não.

Um Underworld e dois Resident Evil

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Perguntei à minha mãe se podia ver os novos Resident Evil e Underworld . Só quando tiveres os anteriores em dia, disse de forma ríspida sem olhar para mim. Comecei a chorar e vim para o quarto, eu sei que é para o meu bem mas custa tanto. 

Literalmente na cabeça

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iBoy entra diretamente para a categoria de filmes que terminam com uma música bestial. Como eu gosto, de filmes que terminam com uma música bestial, no escurinho, a marinar nos acordes o que foi. Para além disso, é possivelmente o sci-fi mais interessante que a Netflix produziu. Sem grandes invenções, sabe dar a bofetada identitária e manter a unidade. Pequenino, de bairro, repleto de bons efeitos, aguenta-se na sua vendetta até ao clímax final, que nem John Wick bebé. E depois termina com uma música...já vos disse não disse?

À deriva

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É muito difícil explicar mas muito fácil distinguir. Emprestar o físico e ser o físico. São duas coisas diferentes e normalmente caímos na primeira, no gordinho que virou magrinho, ou na bonitinha que virou demónio, gorda sebosa, que trabalho incrível. Isto é o circo. Depois há Natalie Portman que é, ela é, com uma sobriedade arrepiante onde se ouve o todo. A fragilidade e anestesia. A anestesia, talvez a grande conquista do filme: levar-nos sem rumo para aquele flutuar e concluir com Jackie que aquela dormência, há muito que tinha acordado. 

A chamar por vocês

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É daqueles instantes, que tem tanto de lógico como de sei lá. Consigo escrever, de como o miúdo é incrível, de como todos envelhecem sem nada dizer, de como a animação nos rouba o fôlego, de como as cores nos enchem a íris ou de como o monstro se torna tão nosso. Eu consigo, mas não há base que sustente o aperto, não há experiência que certifique a ternura, o apreço e a certeza de que A Monster Calls é um dos filmes mais bonitos desta última década.

The Expanse voltou

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É que não são só as novas personagens - especialmente ela - a lembrar-nos porque nos perdemos de tal forma pelo género. São as coreografias, a trama bordada numa noção plena do espectáculo. Do espaço, das grandes óperas, e dos momentos singulares. E, como se não bastasse tal euforia, está tudo a acontecer agora , em directo, mesmo por debaixo das nossas estrelas. 

Também tu?

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Split faz batota. Eu vi Split fazer batota. Gritei, ao croupier , mas ele não ligou. Mandou-me sair, e que não voltasse. Eu vou voltar, porque desde pirralho que sigo o Shyamalan . Sigo e gosto, na saúde e na doença. Mas depois da gema,  The Visit , não há como esconder a desilusão de um filme que quer ser outra coisa. Em vez de se fechar na sua sólida premissa, com o seu sólido elenco, nas suas sólidas paredes, parte para uma resolução trapalhona que culmina no gancho mais idiota e fora de tom da história dos cruzamentos, crossovers ou como a Marvel gosta de lhe chamar "mais um dia no escritório". E não vale a pena dizer que é pós o que quer que seja uma vez que a música do outro entra bem antes. Perde-se tudo o que existia, em prol de algo que ainda nem existe. 

Promete tudo

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Parece estar na moda dizer que está na moda não gostar do dito cinema comercial. Confundindo a pipoca com a estatueta, a discussão com a opressão, as palmas com as palas. O que é importante reter é que o cinema óscar é um microcosmos criado por uma dezena de interesses, uma dúzia de outros prémios e dois ou três favores sexuais, com o propósito de não magoar ninguém. Cinema esse que premeia - segundo a história da última década - obras menores, inócuas, que saltam para cima da mesa e que toda a gente quer ver. E depois esquecer, porque não há marca, não há murro, não há cuspo. Cinema comercial é Marvel , Star Wars , isto é outra coisa. Um aborrecimento que não deveria aborrecer ninguém, cada um com o seu cinema. E se há aqueles que discordam de tudo o que aqui apontei, excelente, podemos falar disso ou também podemos virar costas, agora não me fodam é com modas e clubismos. E assim La La Land . Que, começando por onde se deve, tem aquele que é dos inícios mais fulgurantes, in

À noite é que são elas

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Somos tão enfrascados com o conceito novelesco e gritado da interpretação nacional que nos esquecemos, que à noite, esses mesmos corpos de revista, são super-heróis. Filha da Lei é a prova disso: interpretações contidas, cinzentas, cruas e estupendas. Os mesmos, mas agora dirigidos, conduzidos e sem formas. Anabela Moreira , ela, mas também o colega novato, o colega bruto, o jornalista, que rapidamente se podiam fechar no estereótipo mas que se entregam, pelo contrário, à trama. A filha, que nos leva a outra vitória: o corpo e a tensão sexual. É ou não incrível a cena, do segundo episódio, em que ela chega à esquadra? O pecado, o lascivo, conduzido pelas ruas mortas da cidade. Lembra The Killing nos seus modos escuros e húmidos de retratar os espaços e obssessões. Lembra também que andávamos esquecidos destes dias. Pois bem, não tem nada que saber: terça-feira, 22h15, RTP. 

Quando os filmes eram uma festa

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O que a Disney faz com este trailer – e um pouco com todo o material promocional – é de uma inteligência valente. Um peito aberto onde a hipocrisia e a sinceridade se baralham, se misturam e voltam a dar. Muito surpreendido com The Jungle Book , não posso com Beauty and the Beast fugir ao azedume da linha Cinderella , uma pastelada epiléptica, papel químico do desenho animado, aborrecidíssimo, sem um único plano diferenciador e autêntico. A somar, Bill Condon , que já deu ao mundo dois Twilights e o Dreamgirls , que nunca vi mas sei que tem umas mamalhudas e o Eddie Murphy grisalho. Até me arrepiei. Por último é a jogada segura, de ir sacar milhões e milhões, com um produto de outrora, para adolescentes apaixonadas e pimpões precoces. Toca a faturar meninos.  Porém, e aqui entra o clique, não está o trailer , ao mostrar que é exatamente a transposição do original, a ser o mais sincero possível? É isto, passo a passo, o mesmo filme, as mesmas canções, feito hoje, querem? N