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A mostrar mensagens de Maio, 2017

Idiotas com armas aos tiros

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Estava a escrever e comecei logo a rir. Apetece esquecer minimamente a construção ou a repetição e cair no simplismo da dica apressada: vejam Free Fire . A rir, como os seus realizador e produtor,  Ben Wheatley e Martin Scorsese , que falam da simplicidade e do "poder cinematográfico bruto de idiotas com armas". É isso: dois gangues que vão fazer uma troca de armas num armazém. Corre bem? Não, claro que não. E daí começa tudo aos tiros. É de mestre, tirar desta cartola um filme estupendo, mas é de facto. Despachado, diálogos hilariantes, grande pinta visual e interpretações tão energéticas que, a espaços, parece daquelas obras de infância, em que um grupo de malta, que gosta muito de cinema, se junta para fazer uma coisa. John Denver e o quebrar de parede final compõe um dos grandes ramalhetes do ano.

A extinção das aranhas

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Às vezes, quando bate a saudade de um bom thriller , lembro-me de Shattered . Greta Scachi , Tom Berenger , um acidente, um gajo desfigurado. Um enleio. E talvez os apertos das prateleiras VHS lhe tenham dado um peso ainda maior, nesta minha cabecinha de puto encantado mas a verdade é que as teias se dissiparam. Onde estão estas obras simples de crime e mistério que nos davam a volta, ou que pelo menos tentavam. Onde estão? A resposta é Contratiempo , uma incrível surpresa aqui do lado, que usa o interrogatório como veículo para as histórias, confissões e suas versões. Muito com muito pouco. E pode não acertar sempre no alvo mas em toda a sua corrida emerge o desafio. Em prol do género, em prol das aranhas. 

Os riscos da dieta vegetariana

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Acho podia ficar a olhar para o poster o resto do dia. E Raw joga com isso. Com o inexplicável magnetismo da sua protagonista. Para além da cinematografia e da música, existe a carne que ela procura, nela mesma, fazendo os seus grandes olhos farol da nossa atenção. Reféns completos da figura, da sede, da fome. Incrível. Por outro lado a narrativa sofre em prol do sensorial, abdica e confunde, simplifica e atrapalha. Subtrai. E se somasse, talvez estivesse aqui das obras mais singulares de terror/transformação dos últimos anos.

O feitiço do tempo, perdido

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Ela é jovem. Ela é parva. E ela está presa no mesmo dia para sempre. Fixe. Ou melhor poderia ser, mas de facto é apenas bom engodo, o tal do peixinho guloso que afinal sabe a esferovite. Tentar dizer o que está mal com Before I Fall é quase tão inglório como tentar ensinar um aquecedor a falar. Infantil, mal editado, mal interpretado e refém de um preguiça estranha. É que já todos vimos liceus e premissas mais jovens bem fechadinhas, donas de uma simpatia natural. Aqui não, é tudo plástico, a própria narração da protagonista é desajustada à ação, é levarem-nos pela mão, mas a apertar muito. Para terminar no final mais fora de tom, e possivelmente traumático para quem estava a levar isto a sério, do ano que corre.

Descobrimentos

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Amigos da xenomorfia, o que se segue contém bolinha e spoilers . Spoilers e bolinha. Por isso se estiverem com crianças ou quiserem ver Alien: Covenant virgens da silva o melhor é irem espreitar o Hollywood, está a acabar Os Três Mosqueteiros da Disney mas deve ir dar uma malha à altura. Ora bem, em relação a este último tomo no universo Alien , começo por dizer que carbonizar o James Franco nos primeiros minutos, sem lhe dar hipótese sequer de abrir a boca, é para mim, logo, uma estrela. Era ter o Seth Rogen ao lado e aos 10 minutos já íamos com duas. Uma maravilha ao nível do Santoro enterrado vivo no Lost . Depois desta "tragédia" seguimos então para a construção, viagem, da qual conhecíamos parte mas estávamos longe de visualizar o todo. Nisso o marketing aparentemente escancarado foi inteligente, guardando o mais importante para o dia. E se Scott respondeu às críticas, também as enfiou no cu desses nervosinhos insatisfeitos: a criatura acaba por ser o pretex

Quem é esta menina?

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De quadro em quadro

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Já aqui me confessei por Stories We Tell . Não tanto pelo estilo da oratória mas sim por aquilo que ela exige de nós. São histórias, muitas histórias, que se vão amassando num agregado enorme, amorfo. E para quem fica a forma? Lá está.  Paula Rego, Secrets & Stories tem muito deste desafio, desta construção imagética que vem no bilhete, tudo a nosso cargo, de conto em conto, de ano em ano. É deste lado que se decide o quanto amar, como os seus quadros, formadores de opiniões e sentimentos. Cru, poético, indispensável.

Universos paralelos

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Aquele momento em que percebes que a Hilary Swank entrou na temporada 38 do Beverly Hills, 90210 .

Docinhos

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Ainda não vi The Loved Ones . Se calhar vou ver hoje. Não vou nada, nem se calhar, nem ver, como se alguma vez, a esta altura da tarde não tivesse já a noite programada com rigor e intransigência. É um calendário complicado, mas para a semana prometo. Isto porque o mais recente de Sean Byrne - o segundo, ele só tem dois -  ao contrário deste, já foi. The Devil´s Candy é terrorzinho despachado, sem truques nem artefactos, utilizando in extremis a música e o seu vilão. Com volume, força e eficácia. Foda-se, quem nunca teve medo do Pruitt Taylor Vince que atire a primeira pedra.

Ele é o rei

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Um bocado estranho , que tamanhas unhas de edição não consigam abrir conteúdo algum. Descolar qualquer sinal, de qualquer personagem. E uma coisa não engole a outra, pelo contrário, deveriam e poderiam ser parceiras. A montagem tem uma vontade fresca, arisca, de arriscar, requintada por uma cor e uns efeitos bestiais. Com frames no ponto, quase da pintura, como ele com a máscara e a espada. Mas depois, não há bate que bate, baque baque, são nomes de cartão que saltitam de um nenúfar para o outro, fugindo. E nós, assim, vamos também indo, desistindo.

Eu sou o Dune

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Jodorowsky´s Dune é de facto definitivo. Achava exagerado, venderem-no como o derradeiro que nunca foi feito. Mas a questão é que foi. O seu Dune está todo ali, nos esboços, nos gestos, nas histórias. No entusiasmo, acima de tudo, o entusiasmo e o amor, aquele batuque, a agressividade a falar da devoção, de como se deve procurar o êxtase e de como a arte nos tem de - e pode - levar lá. É uma história, uma janela de ideias para um legado inacreditável que todos deviam procurar e abrir.

10 anos

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Calma malta, um de cada vez. Há beijinhos, bacalhaus e apertos de sobra. A própria cidade não se contém. Festa redonda, como o número de primaveras deste maroto, dez. Dez anos no bucho e lendo as efemérides passadas, não existe nada de verdadeiramente novo a ser dito. Vocês já sabem tudo, já aqui disse tudo e aqui continuarei a deixar tudo. À hora marcada, a entrar no carro e a voltar; um tempo à procura de outro. Os eus, constantemente às turras, na senda de consenso, sentido. O último episódio Nas Nalgas do Mandarim não podia vir em melhor altura porque nele habitam as mais sinceras raízes deste estaminé: as histórias, as histórias de cinema e o cinema das histórias. Contá-las, sempre. Obrigado companheiros.

Vamos lá colocar os óculos

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Não devemos escravizar Dimension 404 com as correntes de Black Mirror . Até porque, parece-me depois de despachados dois episódios, que a série não quer esse fardo: pensar, projectar, não. É mais um batido levezinho daquelas garrafas e rótulos de eterna felicidade. Tudo misturado, bem referenciado, com as devidas vénias e inconsistências da juventude. Mesmo que essa narina se franza, basta cheirar a sinopse para abrir os braços. Eu li a do terceiro, um gajo qualquer, as pessoas esqueceram-se dos seus programas favoritos de televisão e depois há um viajante do tempo. Preciso pouco mais que isto para ser feliz, a caminho!

Vamos falar daquele final?

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Ficar nos créditos, naquela levitação, descompressão, de quem pensa encontrar no tecto qualquer abrigo, é, normalmente bom sinal. Aqui com uma música inacreditável , que te leva pela mão enquanto suspiras. Belíssima viagem, este Personal Shopper . Um conto de espectros, fantasmas e luto. Tão inspirador como desolador, tão para lá como cá, no corpo frágil de Stewart , que se entrega e se massacra, se veste à procura de paz. Entre as compras, as luzes e os comboios. Um simulacro do real resto, isto é se realmente restar algum real.

Até já há o "Get Out" Challenge

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Quando o entusiasmo se concretiza, o chamado hype , só me apetece abraçá-lo, fazer-lhe festinhas e pedir-lhe desculpa. Enquanto aqueço um galão e volto a pôr as torradas para baixo. Get Out é real, muito longe das tusas do ano passado com Don´t Breathe , e muito perto do cagação. E lavados os pratos isso é que nos interessa. Obviamente, que o filme respira de uma inteligência técnica, na sua edição, e narrativa, no modo como conduz a crítica social, racial e política. Americana. Está tudo lá - talvez não fosse preciso estar tudo tão escancaradamente lá - mas para além do seu texto, vive um intenso e estupendo conto de horror. Com as pausas e tempos certinhos, resolução limpinha, mitologia semi-fresquinha, falta de ar quando nos afundamos e bolsas de oxigénio no arco cómico do seu amigo - que resulta surpreendentemente bem. Não fujam, este é à confiança, pago eu.

American Gods, Fuller, hoje, já

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Muito se vai escrever. Expectativas, sangue, sexo, deuses. Nós. Muito se vai escrever mas o que interessa agora é que Fuller voltou . Aquele incrível que vai fazer do écran seu desenho, encher-nos das suas ideias e bombardear-nos com os seus pesadelos. Vital existir, como criativo, provocador e visionário. Ano vencedor portanto.