terça-feira, 31 de agosto de 2021

Os três is

 
Ainda se procuram respostas. Como pode uma experiência tão desoladora, à qual não quero voltar, deixar tamanho vazio? Saudades de uma Seattle que já não vai ser percorrida, e agora, como se dorme? Last of Us Part II é esta obsessão: a vingança que fica aqui, naquele pingar excruciante das perspetivas, de não podermos culpar nem simplificar. Incrível, inesquecível, irrepetível. 

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Abrir as prendas em agosto


[SPOILERS] Ver o John Cena a lutar com o Joel Kinnaman no reflexo de um capacete é tirar o cinto, abrir uma mini e esticar as pernas. Um filme de ideias. Pode nem sempre acertar nos tempos, nas piadas, algumas interações são forçadas, mas caraças, The Suicide Squad é Gunn a falar sem legendas. É dele, aquela Harley Quinn no olho de um equinoderme gigante, ladeada por centenas de ratos, é dele esse quadro. Esse e tantos outros, num desafiante esquema narrativo, que não só vai e vem como nos mostra os bastidores das operações, nas apostas e rebeliões. A atar tudo isto, um coração enorme, naquele núcleo duro de personagens, com uma música - enorme John Murphy - que nos leva às grandes fantasias, cheias de outros, cheias de Burton, cheias de natal.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Sexta-Feira 13 - Parte 3

 
[SPOILERS] Sempre aquele sentimento exclusivo, da primeira fila, quando se assiste a um momento chave de uma saga. Neste caso, é aqui, Friday the 13th Part III, que o nosso menino mete a máscara de hóquei, para não mais a largar. Rouba-a a outro mocito que andava sempre a pregar partidas às pessoas. Quanto ao resto, o filme mantém uma câmara criativa e uma série de mortes à altura do seu nome: destaque para a rapariga que leva com um arpão no olho e para o cavalheiro que andava ao brincar ao pino e é catanado ao meio, também quem é que anda a brincar ao pino em casa foda-se, estava a pedi-las. O que mais me desiludiu foi o esvaziar das linhas que poderiam dar alguma novidade ao capítulo, como os motoqueiros maus ou aquele flashback da protagonista. Os primeiros apanham como os outros e as memórias da heroína (o seu passado com o Jason) nunca são explicadas. Porque o que interessa é matar, matar, matar. Venha o próximo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Ao fechar a pestana

[SPOILERS] Eu até costumo ter um sexto sentido - ui que boa referência - para estas coisas. Mas aqui nada. Estava a estranhar um pouco a inércia da Isabela Merced. Tendo ela tido treino, estar ali apenas a olhar enquanto o pai distribuía papo secos a torto e a direito não fazia muito sentido, não casava bem. Mas pronto, podia não estar preparada para o confronto na vida real. Qual quê, quando um gajo já estava quase a fechar a pestana, pimba twist Shiamané. O que por si só já é um twist, este Sweet Girl ter um twist é um twist. Gostei da surpresa, claro, é sempre bom não anteveres a intriga e dizeres "o quê?!", o problema é que o filme é muito esquivo e esburacado para conseguir depois tirar esse coelho da cartola. Já tarde, já sem grandes alicerces. Seja como for o Momoa entra assim para o restrito Clube dos Cavalheiros que Parecem Vivos Mas Afinal Estão Mortos. 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

A rodar

A banda sonora de Flag Day é uma espécie de tornado a quatro vozes - Eddie Vedder, Glen Hansard, Cat Power e Olivia Vedder - que nos leva de novo a casa. Que coisa bonita.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Aquele verão em Miami


Com que então este Reminiscense e o Waterworld têm lugar no mesmo universo? Não sei. Inventei agora, a ver se o boato pega. Faz sentido, podermos ver a água a subir, as cidades ainda alagadas, com muros a circundar os novos guetos. Há aqui força e detalhe nesta Miami. Mitologia que se vai expandindo em relatos vários: da guerra, do tráfico, das zonas secas, das memórias. Elas, o foco da narrativa, que empurram inventivas transições, colocando-nos sempre na dúvida, bonecas russas naquele suspenso amniótico - que saudades tinha eu de um bom tanque, à la Fringe ou Minority Report. Poderá faltar intensidade ao romance ou economia no mistério chave, mas o filme segura muito bem a sua obsessão. Aliás passa-a subtilmente para as nossas mãos e deixa-nos a deambular com o seu corajoso final: afinal quem assombra quem?

The past doesn't haunt us. Wouldn't even recognize us. If there are ghosts to be found, it's us who haunt the past. We haunt it, so we can look again. See the people we miss, and the things we missed about them.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O momento Transformer

Aconteceu-me a meio de uma das sequelas da saga Transformer, talvez a terceira, não sei ao certo: estava a assistir à luta, metal com metal, pim pim pim, amálgama de placas, chapas, barulho e de repente olhei para o tecto. Distraído. Houve um clique de abandono, onde o filme se esquece dele mesmo e nós nos lembramos que é hora. O mesmo agora com F9. Sempre fui com agrado ao cinema ver esta malta e tenho especial carinho pela loucura frenética do quinto capítulo. Elenco colorido, vivo, com arrojo na procura de novas acrobacias - como nos Mission Impossible. Porém, esta vontade de espantar, do maior, das naves, dos submarinos, foi consumindo aos poucos o nervo da estrada e o sex appeal das corridas. O calor, a adrenalina, foram dando lugar ao irrealismo computorizado. A família, tantas vezes invocada, passou a ser de plástico. E se por lado existe essa autoconsciência, na interrogação "queres ver que somos mesmo super-heróis?", por outro perde-se a vontade de pôr o cinto. No início deste filme é claro, já não há um argumento, uma intriga, eles juntam-se para combater alguém que no fim virá para o lado deles, para no próximo filme estar do lado certo a combater outro alguém que depois, bem já perceberam. Até que uma carrinha anda ad aeternum  com uns ímanes a puxar carros, carros, carros, e tu, tu olhas para o tecto. É hora.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Três coisas que odeio em ti

Primeiro, chateia-me estarem sempre a mudar os Manhãzitos de sítio no Continente. É bolachas, é chocolates, é ao pé do pão, orientem-se. Segundo, fodido por ninguém me ter avisado que a Netflix tinha feito um remake do Ela é Demais com o puto do Cobra Kai, a Rachael Leigh Cook a fazer de mãe e um remix duvidoso do Kiss Me. Não tínhamos já feito um pacto de sinceridade depois daquele novo Namorada Aluga-se? Terceiro e último: mas porque raio vou eu ver isto? Porquê? Maldito sejas Miguel nostálgico do futuro.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Ah e tem a Carrie Coon


É claro que fiquei entusiasmadão/excitadão/cabelo em pé/chavalito histérico com o mais recente trailer do Ghostbusters:Afterlife. Egon came out here for a reason, diz a sua neta, algures no destapar da velha carripana. É esse propósito que não senti com o filme do Paul Feig. Faltava-lhe deslumbre, legado. Ondas que estremecem e abalam cada frame desta nova vida, não só pelo puto Reitman - que pega no obra prima do pai - mas por todos os outros putos - nós e eles. Aconteça o que acontecer, o estágio já começou: regresso a 1984 e primeiro filme revisto. Continua bom, sempre com novos recantos (ou cabelos brancos deste aqui): então não é que já não me lembrava que o polícia que os tira da prisão é o amigalhaço do McClane (Reginald VelJohnson)? Ando a brincar com a vida. 

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

De, com e para toda a família


Quando me sentei, senti falta daquele charme britânico. Dos locais e das colinas, apertadas nas gentes e nos sotaques. Procurei essa humidade, esse sal, mas rapidamente percebi: é domingo à tarde caraças, alivia. CODA não tem esse detalhe amargurado, mas segura em crescendo uma família de belíssimas interpretações e intenções. Há muita ternura nestes toques, na rede de afetos, seja no momento do silêncio seja na derradeira versão da Joni Mitchell

domingo, 1 de agosto de 2021

Repetições e petições

Vai ao Parlamento na próxima semana uma proposta de Lei que visa regulamentar os filmes com time loop. Em causa está uma petição, que conta já com mais de 300 mil assinaturas, contra The Map of Tiny Perfect Things, um filme que está a ser vendido em português como Uma Repetição Perfeita mas acaba por ser é uma xaropada rochosa, com cenas bué da bonitas e com dois atores bué da bonitos também. O documento defende que se deixe o género time loop para a comédia, ação e ficção científica e que esta malta nova se vá amassar para outro lado.