sábado, 21 de março de 2026

Não há estrelas no céu


[SPOILERS] Não li o livro. Mas, ao sair, senti falta das páginas. Inédito aqui, este luto não lido. Em concreto pelas páginas de detalhe, onde podemos mergulhar no passado, nos sonhos, nas intenções. Nas pessoas de um planeta à beira da extinção. O filme mostra-nos isso em algumas erupções, como na cena da sala de aula, no karaoke de Sandra Huller ou num Gosling que não está pronto para morrer. Podem contra-argumentar que Project Hail Mary é sobre algo diferente, com o coração no primeiro contacto. Certo, mas para mim é aqui que o filme se desorienta. Vimos de um primeiro acto robusto, com um mistério de flashbacks que mostram aos poucos quem é aquele professor, porque está ali, qual é a sua missão. Este pingue-pongue resulta numa primeira hora hábil, bailinho de escrita e edição, com todos os conceitos a entrarem-nos na corrente sanguínea: desde os astrofagos, até à linha de Petrova, os testes, as provas. Todo este causa efeito acaba por se diluir depois de Rocky. Abdicamos do jargão, da complexidade e do drama, para entrar naquela que parece quase uma aventura diferente. Um tom tão díspar que nos desligamos de casa e depois, quando somos confrontados com algo tão negro como a entrada dele à força na missão, já não existem mãos ou capacidade para lidar com isso. É inegável que estamos perante um megaevento, uma vénia ao artesanato da ficção científica, um banquete de efeitos, fotografia e música. Porém é também um devorador de vários sóis, sem escolher propriamente aquele que deve contar. E salvar.

terça-feira, 17 de março de 2026

Ep.18 - Coherence/+1


Cometa no céu. Jantarada lá em casa. Miguel rapidamente percebe que o Sérgio e a Susana que bateram à porta com uma colheita tardia e uma vienetta de pistacho não são o Sérgio e a Susana deste universo (que apareceriam com uma garrafa de Papa Figos e um queijo de Nisa). Porém nada disso impede o caloroso debate sobre a gentrificação do multiverso, com direito a filmes de culto, exterminadores implacáveis, versões mais porreiras de nós próprios e, claro, obras com músicas dos Aqua.

Episódio disponível aqui.

terça-feira, 3 de março de 2026

Não sei o que se passou aqui

Fãs da saga: antes de adquirirem o bilhete, vão a uma feira, agarrem naquele martelo do jogo dos bêbados e espetem o prego na mão direita. Umas marteladas valentes de forma a que fiquem pregados ao tronco de eucalipto. Assim já não conseguem ir ao cinema e simultaneamente tiveram um momento menos doloroso do que se tivessem ido. Confiem.

A verdade verdadinha é que quando saiu o trailer, todos sentimos que algo não estava bem em Woodsboro. As mesmas fugas uma e outra vez, setenta vezes a cena das facadas na parede, ruas sem ninguém, tudo escuro, ausência de escala, de narrativa. Mas calma, calma que vão regressar os antigos, calma, que isto é tudo um truque, mostram apenas uns momentos escolhidos a dedo para não nos estragarem a experiência. Calma que o filme vai ser outra coisa: um new nightmare, um regresso às origens com o flashback da mãe da Sidney, o Stu realmente vivo, a irmã do Stu a vingar-se, o primo do ex-marido da irmã Stu também a vingar-se, estas e outras teorias a alimentar o borralho entusiasta. Tronco a tronco. Estava tudo em aberto. E goste-se menos ou mais do que foi feito depois da obra-prima de 1996, a verdade é que todos os Gritos (especialmente os do Craven) mantêm as suas notas trágicas. No meio do comentário meta e da comédia pop, no meio das bonecas russas e das decisões idiotas, existiu sempre um negrume, uma espécie de nevoeiro fatídico que nunca larga. Até hoje. Até a calma se dissipar e dar lugar a um esboço de filme. 

Afinal o trailer não enganou ninguém, não há um espaço nem um cordão umbilical com o passado. Não temos esquadras, não temos escolas, nem conseguimos ter um estúdio de televisão credível. Parece que tudo é feito para gastar o menos possível, esquecer o enredo; saltar as perseguições, saltar a tensão, passar para ação atrás de ação, entremeada com diálogos escritos pelo copilot (versão gratuita) e personagens que são tão pouco que nunca chegam realmente a ser suspeitas. A revelação final é o detonar de uma série que sempre teve algo a dizer mas que perde aqui a sua voz. Williamson - à semelhança do que o Koepp fez com Jurassic World Rebirth - tenta corrigir o rumo caindo nas armadilhas destes dias, não as trapaças da inteligência, mas as rasteiras da artificialidade.