[SPOILERS] Não li o livro. Mas, ao sair, senti falta das páginas. Inédito aqui, este luto não lido. Em concreto pelas páginas de detalhe, onde podemos mergulhar no passado, nos sonhos, nas intenções. Nas pessoas de um planeta à beira da extinção. O filme mostra-nos isso em algumas erupções, como na cena da sala de aula, no karaoke de Sandra Huller ou num Gosling que não está pronto para morrer. Podem contra-argumentar que Project Hail Mary é sobre algo diferente, com o coração no primeiro contacto. Certo, mas para mim é aqui que o filme se desorienta. Vimos de um primeiro acto robusto, com um mistério de flashbacks que mostram aos poucos quem é aquele professor, porque está ali, qual é a sua missão. Este pingue-pongue resulta numa primeira hora hábil, bailinho de escrita e edição, com todos os conceitos a entrarem-nos na corrente sanguínea: desde os astrofagos, até à linha de Petrova, os testes, as provas. Todo este causa efeito acaba por se diluir depois de Rocky. Abdicamos do jargão, da complexidade e do drama, para entrar naquela que parece quase uma aventura diferente. Um tom tão díspar que nos desligamos de casa e depois, quando somos confrontados com algo tão negro como a entrada dele à força na missão, já não existem mãos ou capacidade para lidar com isso. É inegável que estamos perante um megaevento, uma vénia ao artesanato da ficção científica, um banquete de efeitos, fotografia e música. Porém é também um devorador de vários sóis, sem escolher propriamente aquele que deve contar. E salvar.
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