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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Chimpazé cujo nome é Ben


Cena inicial. Eu a pensar: pronto agora agarra o veterinário para dentro da jaula, fica escuro, gritos, maiores de 12, ia começar a puxar a mantinha e encostar-me na almofada quando de repente a câmara volta e...caras arrancadas com a mão, foda-se, o quê? Sentei-me logo bem. Que chimpanzé tão malino. É escalpe, é maxilar, vai tudo à frente. Primate é aquele directo ao assunto, cruzando o subgénero de pessoas atacadas por um animal/criatura com o subgénero de pessoas que ficam presas num sítio meio idiota às portas da morte e não têm como fugir. Tensão no sítio certo, cenas criativas - especialmente as que jogam com o som - e gore para encher a barriga de qualquer fã. Boa surpresa.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A estrada fora da parentalidade

2025 encontrou o seu Caddo Lake. Thriller na contenção, terror na suposição, Hallow Road chega de mansinho para nos levar na mais escura das estradas. E há não cagaço mais eficaz este ano que a voz daquela senhora, do outro lado da linha. Bela surpresa.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Onde estão as bolhas nos pés?

Boa sessão dupla com o Fátima. Apesar de eu preferir os terrores de João Canijo aos dissabores de Francis Lawrence. A cena de apresentação do Mark Hamill, o grande vilão do filme, trouxe-me logo aqueles arrepios passados de tarefeiro: atabalhoada, com grandes planos reveladores, sem inspiração ou tensão. O resto é infetado por um realizador que não tem uma única ideia de cinema, apostando tudo na violência gráfica e esquecendo a implementação de um mundo. Nada rodeia aquele conjunto de rapazes que são obrigados a caminhar uma vida inteira. Ficamos a navegar sem contexto, numa repetição constante de situações que ao fim da primeira hora já fecharam a caderneta das possibilidades. O duo de protagonistas é de facto bastante sólido, com carisma e vitalidade, caindo num final negro e ambíguo. Mas não chega para ferir e chegamos ao final da caminhada com os pezinhos do início, sem uma única bolha.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Sei o que fumaste no Verão passado

[SPOILERS] Confesso que gostei da piada das Bahamas. Tenho de reconhecer também alguma coragem na resolução do mistério. Não é comum - aliás não me lembro de outro exemplo - uma personagem legado, herói dos dois primeiros filmes, passar a vilão. Fala-se deste fado para a Sidney do Scream há anos mas nunca aconteceu. E por alguma razão foi: uma reviravolta destas implica uma construção de personagem robusta, dedicada e que entrelace as costuras de quase 30 anos de ausência. Não é agarrar nesta imagem que temos de moço dedicado, que passou as passas do Algarve para salvar a sua chavala de um pescador doidinho, e agora simplesmente dizer que ele é mau. Teve muito tempo ao Sol. É uma traição a quem vem de trás e um ponto de interrogação para quem chegou agora. Um twist sem sentido nenhum, mal construído que fecha um filme aborrecidíssimo, onde as mortes - quando aparecem no écran - são frouxas, sem tempo, sem suspense. O original tinha aquela maresia de terra pequena, piscatória, com os seus elementos e personagens absortos num mistério credível. Esta sequela perde todo esse charme, atirando para primeira linha um grupo de gente gira e com potencial mas que vê todas as suas texturas, sombras, de interesse serem levadas pelas vagas orientadoras de 2025. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

A indignação é uma arma

Fui pedir o dinheiro de volta, claro. Mas o que é esta merda? Um filme que faz tudo bem? Uma obra viciante, com uma narrativa fragmentada e vibrante, sem truques de twists ou enganos que afinal não? Um puzzle de personagens com um elenco imprevisível e no topo da sua forma? Um mistério de verdadeiros sustos, frames icónicos e um monstro que entra direto para o panteão do horror? Mas o que é esta merda? É que se a moda pega começamos a sair da sala com aquela energia de ter vivido algo verdadeiramente único. 

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Boots-boots-boots-boots

Aquele primeiro (e fabuloso) trailer já nos tinha deixado desnorteados. Boots-boots-boots-boots-movin' up and down again. E essa mestria, em localizar mas não expor, transpôs-se para uma experiência cinemática que nos apanha de facto na curva: uma história de família, fechadinha, na transição e crescimento do protagonista, que por acaso existe num espaço em quarentena, infetado. Mão firme no que se quer contar, no que se quer mostrar, no encontro renascido do verde Garland com o punk Boyle. Lindo de morrer, gore até dizer farta, tudo parece novo, por descobrir. Talvez o terceiro acto merecesse mais espaço - mais Ralph Fiennes laranja - e o final - igualmente laranja (mecânica) - outro tipo de tratamento, mas são pequenas coxas num festim que nos vai encher a mesa durante os próximos tempos. Bela surpresa.

Finais Freeze-Frame

The Ugly Stepsister (2025)

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Ep.13 - The Beast Within/Wolf Man (com Pedro Cinemaxunga)

Exposto a uma Super Lua, que transforma qualquer simpático podcaster no mais vil lobisomem, Miguel pede ajuda ao maior especialista nacional em licantropia, Pedro Cinemaxunga. Como seria de esperar o velho mestre tem a solução: tomarem banho com o sabonete da Sydney Sweeney. Protegidos com esta saponificação milagrosa enfrentam juntos uma noite longa e cheia de perigos, com múltiplos Jon Snows e cunhados malandrecos.

Episódio disponível aqui.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Final Destination 2 (2003)

Já não me lembrava que tinha a mocita do Mentes Criminosas. Também já não me lembrava que tinha um conjunto de interpretações e diálogos que "oh valha-me deus, então, mas por favor". Qualquer um daqueles barrotes de madeira tem mais carisma que esta grupeta. Porém, é inegável que esta é a obra que dita as regras e esculpe o molde da saga. A tensão dá lugar ao espalhafato, desde o icónico arranque na autoestrada até às mortes mais mirabolantes e sangrentas. É também um capítulo de real continuidade com o antecessor, trancando a única sessão dupla do conjunto; oferecendo mais, melhor e maior, com expansão da mitologia numa sequência ao contrário e com a possibilidade se poder de facto enganar a morte. Como? Morrendo, claro está.

Melhores mortes: Mãe e filho, ou filho e mãe se quisermos seguir a ordem da nossa amiga.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

Não são precisos gritos nem galinhas

A sala estava composta. Antevia-se, pela sondagem mental à boca dos trailers, que poderia haver ruído. Mas com o ocaso e suas primeiras notas, a sala entrou num vácuo vibrante e hipnótico, numa experiência coletiva onde a cada novo género surgia uma nova oração. Em silêncio. Sinners é um filme de corpo cheio, com tudo e mais alguma coisa, mas arrumando as maravilhas, o que me deixa francamente vivo é esta energia cinemática que corre na derme de uma sessão das 21h. Ao alcance de apenas alguns.

terça-feira, 25 de março de 2025

O último é sempre o primeiro?

É desta que faço a minha lista das melhores mortes da saga. Isto porque ainda só existem 39808 tops em inglês, 24089 em mandarim, 8705 em português, 92 em mirandês e 13 em minderico. Falta claramente este que vai muito diferente mas no fim ganha a moça da ginástica artística à mesma. Melhor início? Troncos. Melhor morte? Ginástica. Sempre. Pode ser também desta que aconteça um episódio especialíssimo sobre esta pentalogia da morte certa. Os meus companheiros das Nalgas continuam a enganar-me, que nem amante com homem casado: sim sim um dia deixo a família e gravo contigo. Porém os meus comparsas do VHS já me prometeram um porto seguro para desabafo e passeios de montanha-russa. É o trailer do Final Destination Bloodlines amigos. Maio aí ao virar da esquina.

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Introdução aos Cuculiformes

Um filme que se chama Cuckoo não precisa de ter uma cena onde o ator explica à atriz, olhando para um casual cromo de um cuco, como é que esta ave opera. Porque sabes, os cucos põe os seus ovos noutras casas - piscadela de olho para aquele espectador que esteve em criogenia desde o Cretáceo. A obra de Tilman Singer não ganha nada com este terceiro acto Shyamalanesco, onde se recapitula passo a passo tudo o que não percebemos. Aliás todo o desconforto e estranheza do arranque ordenam que o espectador se mantenha em sentido, investido: desde aquelas repetições temporais até à inteligente cinematografia da perseguição de bicicleta. Poderia dar para qualquer lado, qualquer género. E ganharia muito em deixar essas escolhas entreabertas, para que qualquer ornitólogo do terror se pudesse perder a descobri-las.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Perna curta para tanto caminho


Empurrando para a borda do prato todo o arroz publicitário, o grande problema de desonestidade é do filme para com ele próprio. Conduzido por uma estética irrepreensível e uma angústia viciante da protagonista, Longlegs usa os seus capítulos como forma de preencher os vazios. Esquecendo-se do que é e do que tem de oferecer: como policial precisamos de um vilão e seus métodos, precisamos de motivações, precisamos de jogo, gato e rato; o filme dá, para nos tirar logo de seguida. Como thriller sobrenatural precisamos de pistas, de contexto, de ligações; o filme dá isso numa bofetada confusa e ainda nos martela tudo mais uma vez na cena final. Não é uma questão de falta de exposição, é um problema de identidade, de sabermos escolher os nossos monstros. E com muita pena minha Osgood Perkins não soube.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Sou teu amigo sim

O grande feito de Oddity é a ilusão de escala. Parece grande. Meia dúzia de caras, uma casa e um bonecão de madeira, fazem-nos passar com facilidade a barreira do exercício. Coisa que por exemplo, You'll Never Find Me - outro bombom indie recente - não consegue. Há um mundo a orbitar naqueles objetos, naquelas habilidades, naquela investigação. Em cima disso uma história simples mas inesperada, a transbordar bizarrice - desde os maluquinhos até às campainhas - cumprindo tudo o que promete num último acto certeiro e aterrador. Tivesse Damian Mc Carthy um elenco mais encorpado e experiente e estava aqui um cagaço para as calendas.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

É ela que me mata a mim

[SPOILERS] É irónico, mas o melhor segmento de Alien: Romulus não tem nenhum alien. Somos atirados de início para uma colónia mineira, num recanto da galáxia; penumbra, pó, populaça e o sonho de uma vida melhor. É neste ímpeto de fuga que chegamos a uma estação à deriva e de novo todos aqueles tempos certos da ficção científica. A música e a calma com que vemos as naves a manobrar, a acoplar, como o Verhoeven tão bem fazia no seu Starship Troopers. O mergulho é real e continua numa estação abandonada - escura e claustrofóbica - dividida em duas metades, Romulus e Remus. Irmãos, como a dupla protagonista Rain e Andy. E é nesta complexa relação que reside o tema mais interessante do filme: a irmã que preserva no andróide, seu irmão, as memórias (e as piadas) do seu pai. Como se fosse o último reduto analógico de alguém que partiu, como uma fotografia, e da qual tudo faremos para proteger.

Porém, como diz o Miguel Araújo, "se eu não mato a saudade, é ela que me mata a mim".

E Fede Alvarez entra então em modo greatest hits com um caderno de encargos mais extenso que a fronteira entre o Cazaquistão e a Rússia. Aliens aos magotes, armas de marine, andróide mau e afasta-te dela seu sacaninha. Até tocou aquela "Dei à luz um Engenheiro", numa crise grave de Regresso do Reitivite, em que o filme acaba só que afinal não porque ainda falta a 17ª homenagem/colagem às obras anteriores. Um assalto tenso e fechado, com temáticas humanas e cenas de ação inventivas, torna-se num festival demorado de músicas de outrora. 

terça-feira, 14 de maio de 2024

Vampiros e bandidos tenrinhos

 
Descobri agora que o Ballerina, spin-off do John Wick, é do Len Wiseman. O artista daquele Total Recall de 2012, sobre o qual combinámos todos, juramento de mindinho, nunca mais dizer uma palavra. Já fomos. Mas não são os bailados da Ana de Armas que nos juntam aqui hoje, hoje mordemos o mais recente filme da dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett. Depois de ressuscitarem o Ghostface, que nem relâmpago (mais ou menos certeiro) no cemitério do slasher, agarram na sua protagonista acabadinha de ser despedida e fazem lhe uma avença simpática neste Abigail. É um filme de vampiros, mas é também um filme em que um grupo de desconhecidos é reunido numa casa por motivos que normalmente só aparecem no terceiro acto. É uma obra redondinha, onde se nota a presença de um argumentista, em prol, quiçá, de um catering sem folhadinhos de salsicha. Saímos a ganhar, com vários inícios - abertos até de madrugada - e várias reviravoltas. O sangue, as tripas, as regras e as desregras compensam alguns tiros ao lado no humor e nos diálogos.  

Gosto destes comboios sem muito alarido; onde uma tropa curiosa, mais ou menos batida no género, vai criando um universo logo ali abaixo da crosta.

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

A meta cenoura


Atenção que depois da praga "filmes de romance teenager com time loop" está a aparecer muito nestas casas mais novas a infestação "filmes de terror meta com viagens no tempo ou universos paralelos". No fundo são obras que aplicam aquelas temáticas irrecusáveis, um assassino com uma máscara supimpa e sangue com fartura, para nos ludibriar em propostas preguiçosas e infantis. Uma coisa que estes terrorzecos tiktok nao percebem é que ser auto consciente, com meia dúzia de referências, não significa ser consistente. E é muito a isso que estes filmes se agarram: a uma aparente descontração divertida que se traduz num vazio sisudo e mecânico. Caso sejam apanhados pelo Jigsaw e este vos obrigue a escolher entre as duas propostas mais recentes do género, It´s a Wonderful Knife e Totally Killer, sob ameaça de vos barrar as nádegas com cola quente, escolham o segundo. Caso não sejam apanhados, vejam mas é o filminho do Eli Roth, logo ali no post de baixo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

As saudades de uma boa jantarada

Estava a sair do Thanksgiving quando olhei para a sala do Killers of the Flower Moon. Ainda ia a meio. Aquelas pessoas ainda tinham mais uma hora e quarenta de "Aonde É que Pára o FBI?". Alguém tinha de fazer alguma coisa. Agarrei na nota que tinha no bolso, recrutei meia dúzia de escuteiros de Tábua que estavam no Pizza Hut, e fomos distribuir águas, bolachinhas de canela e pacotinhos de fruta. Os espectadores, alguns já muito desidratados/desmaiados, agradeceram imenso, lágrimas e abraços apertados. São estes pequenos gestos que fazem a diferença no interminável cinema dos dias que correm.

Este texto ia terminar no último ponto final. Era só humor. Mas alguém me perguntou: então e essa jantarada do Eli Roth? Opá sim, parecei que estava de novo nos 90, a saber o que tinha feito na estação passada, numa terreola pequena cheia de jovens giros que nos fazem lembrar outros jovens giros. As gavetas estão todas lá, do início ao fim, e Roth vai percorrendo este mobiliário slasher com aquele nervo desgarrado de uma boa machadada. É refrescante perder a subtileza e ter aqui um conjunto de mortes inventivas, fodidas e que de alguma forma preenchem a lacuna deixado pelo meu muito querido Último Destino. Para além disso cozinha a sua história de um modo focado, sem aquelas revelações que afinal era o enfermeiro que tinha aparecido 5 segundos em segundo plano na cena do bar e que se queria vingar por lhe terem puxado as cuecas em 1978. Aqui temos um evento chave - melhor início do género que vi em anos, a expetativa foda-se, é assim que se faz - que vai determinar os eventos que têm lugar no ano seguinte. Podia ser um bocado mais pequeno e não necessitar tanto da nossa boa vontade em alguns momentos. Mas soube bem voltar a um slasher sem entulho meta, só matar, matar e matar.

domingo, 25 de setembro de 2022

Evitar lagos e cabanas, sempre

Diretamente para as prateleiras "super desconfortável" e "nunca mais ver na vida". Ao lado de tesourinhos como Eden Lake. Aqui com uma irritação ainda mais profunda, com o desespero a dar lugar à apatia, com a sobrevivência a resignar-se nas normas e diferenças culturais. Estranho. Terrível. Muito eficaz.

terça-feira, 26 de abril de 2022

O X marca o lugar

Obcecado por este filme. Por todo e cada frame desta incursão ao slasher sulista. Vendida como homenagem, a verdade é que X de ontem só tem mesmo as medidas: Ti West apanha boleia de um verão quente para virar rapidamente à esquerda e fazer o seu próprio tempo. Há algo de muito surpreendente, original e vibrante nestes campos, sempre à espreita. Prático mas intrigante. Personagens que não precisam de causas ou traumas martelados - sim Massacre no Texas e Gritos 2022 estou a falar convosco - construções que existem nos detalhes, nas pausas. Erguendo sem nos avisar a mitologia de terror mais interessante dos últimos anos. É o grito de Jenna Ortega, é aquele olhar submerso de Mia Goth, é a Mia Goth em tudo o resto, é o filme no filme, é o Oui Oui Marie, é a prequela que aí vem, apetece falar e voltar, sem vírgulas nem pontos finais. Caraças, que bela surpresa.