Mostrar mensagens com a etiqueta Crime. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crime. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Isto agora não sai nem com tira nódoas


No dia achei meio paradão. Fui dormir. Só que depois não dormi. Ou se dormi foi sempre com a música: um carrossel soturno e magnífico de Dominique Plante, uma marcha em círculos, em ciclos, naquelas repetições diárias, desde a espera até ao exercício físico. E depois infetou ainda mais, para a cena do tribunal, a transformação medonha em discurso directo. O resultado prático da obsessão, de um voyeurismo carnal, digital, doentio. Juliette Gariépy absolutamente viciante, num aparente jogo de tribunal que se expande, silenciosamente, para o mais assustador dos horrores.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Hall 2022


O monólogo de Rebecca Hall em Resurrection arrisca-se a ser dos momentos de cinema mais inesquecíveis e impressionantes deste ano. São sete minutos de penumbra estanque, onde, num sussurro irrepreensível, de contenção e mágoa, ouvimos uma história. É o clímax, o clique. Tudo antes e tudo depois só poderá ser discutido e desconstruído porque "uma vez havia uma rapariga". Fosse este thriller de horror um dramazeco autobiográfico, com uma cantora, uma princesa ou uma vendedora de perfumes, de peruca e nariz falso, a chorar em falsete, e os prémios vinham que nem pãezinhos quentes. 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Os pregos da quarentena

[SPOILERS] Segundo filme deste ano com pistola de pregos. Mais, segundo filme deste ano com pistola de pregos onde uma jovem pequenita varre bandidagem de metro e noventa. Ainda melhor, segundo filme deste ano com pistola de pregos que eu apreciei bastante e que possivelmente irei abordar no meu top final de ano. Isto se não aparecerem mais dez filmes com pistolas de pregos e eu depois ter de escolher quais ficam e quais vão.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Os limites do rosé

Os voos picados e as piruetas da câmara levam-se bem com uma caixinha de vomidrine agora este ataque ao rosé é esticar um bocado a corda. Até eu que não sou especial fã do vinho reconheço que se calhar o Michael Bay foi longe demais

domingo, 10 de abril de 2022

O tamanho importa

Gosto bastante do primeiro Jack Reacher. Na altura nem percebi bem as queixas dos fãs. Dos fãs dos livros. Que o Tom Cruise era um caga tacos e que a personagem era grandalhona. E, agora que vi a série, sem descurar o filme, de facto, o facto de ele ser uma montanha faz toda a diferença. O fenótipo aqui é essencial na improbabilidade, ou na injustiça de não associarmos demasiado músculo a demasiada inteligência. Reacher é um brutamontes, que não passa despercebido a ninguém, mas que carrega um génio furtivo à la Sherlock. E isso acaba por ser a identidade de todo o sistema; dele, à volta dele e do mistério em si. Bem escrito, bem interpretado e com o melhor par de bofas de mão aberta de que tenho memória. Que bruto, que grande bruto*.

*posso estar enganado mas este moço dava um mimo de Terminator.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Os pecados de Harry Ambrose


A primeira temporada de The Sinner foi uma pedrada no charco. O tamanho, grau de impacto, se molhou muita gente ou não, isso debatemos depois, quando o tempo aquecer e der para ir lá para fora. Mas a verdade é que virou muito bem o bico ao prego, no mecanismo de resolução e ofereceu-nos, claro, Harry Ambrose. Um detetive em constante assombração/sofrimento, tomado de assalto por Bill Pullman. Papel de uma vida, quiçá. Era difícil manter tamanha bizarria e criatividade de acontecimentos: a segunda e (especialmente) a terceira temporadas deixaram o balão esvaziar. O "nada é o que parece" acabou por desaparecer e o interesse no crime passou a interesse solitário no protagonista. Felizmente, este último tomo, volta a trazer essa mágica inversão: uma rapariga que se suicida e a partir daí é para recuar, até montar o puzzle. Desenhado num ambiente insular e piscatório, de terra pequena, com toda uma aura de "um último trabalho", é um mistério que se constrói com mestria, onde cada episódio a faz falta na torre. Gradualmente, destapando e mantendo a nossa atenção com todos os lúmenes. Parece fácil, mas não é. Parece que há muito, mas não há. Final revigorante, até sempre Harry.

quinta-feira, 3 de março de 2022

The Batman (2022)

É o Director's Cut do Matt Reeves. Direitinho para o cinema. Tiro-lhe o chapéu, tiro sempre o chapéu a quem faz o filme que quer. Para além disso, dedo certeiro no casting - destaque para Colin Farrell - e mão segura na câmara. Alguns planos na primeira pessoa, nas sequências de ação, são fabulosos, e depois temos a chuva, sempre a chuva, a marcar o passo noir. O detetive morcego, casa adentro. De facto o início prometia algo completamente diferente, não melhor ou pior, diferente. Eu ia à procura de uma reformulação: que as personagens tivessem outra diretiva para além do passado, dos pecados, da corrupção, do crime. Mas The Batman enrola-se em repetitivos chamamentos no céu, para ir aqui, depois ali, nos mesmos espaços, vezes sem conta, sem grande criatividade. Atos também ausentes na resolução do mistério principal, demasiado gordo para um fecho tão previsível e fragmentado. Num puzzle destes queremos sempre participar, agarrar na lupa, destapar surpresas. Aqui não nos é permitido, quer pela frieza dos passos, quer pela indiferença das próprias relações. Não há nada de errado com o conjunto, não senti foi o apelo à vingança - pedia outro nível de violência - nem a adrenalina de um contrarrelógio. Um dos enigmas mais aguardados do meu ano, que se resolveu com gosto mas muito pouca emoção.