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sábado, 18 de maio de 2024

Os segundos dois minutos

Depois do filme andei ali, no turismo dos tristes, de seta em seta no Google Maps à procura dos sítios. E enquanto o amigo Daniel Louro - do The World is a Set - não vai a Quioto temos de nos contentar com este link farsola. River, antes de ser fantasia é um espaço, uma estalagem real que recobre o filme de autenticidade. É ela que impõe o sentido de repetição: quão monótono pode ser aquele trabalho? Quão fechado é aquele microcosmos? É ela também que reformula o género ao apresentar o time loop de dois minutos - o segundo na filmografia de Junta Yamaguchi - como um problema local, estilo corte de luz ou falta de água, que tem de ser resolvido para bem estar dos hóspedes. Se a obra anterior funcionava em plano sequência entre dois andares e dois monitores, esta eleva a fasquia ao fazer um reiniciar geral à beira rio a cada dois minutos; mecanismo muito difícil de manter mas que se segura com uma criatividade, fotografia e um painel de personagens invejáveis. Cada volta é única. E eu a contar os minutos para a próxima.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

O frio chegou e veio para ficar

Três coisas que me congelaram o ânimo neste Ghostbusters: Frozen Empire. Primeiro, voltar à cidade voltando as costas à mesma. É surreal regressarmos a Nova Iorque e estarmos enfiados em salas e salecas. Com exceção da cena de abertura - melhor sequência do filme - mais nenhum momento usa a metrópole como personagem, como energia primordial dos Caça-Fantasmas; as pessoas, as multidões, a festa. Desapareceu tudo. Em segundo, a praga de humanizar todo e qualquer antagonista. Neste caso os fantasmas, com um arco à la Casper (1995), que tem tanto de desnecessário como de profundamente infantil. Os fantasmas são os fantasmas foda-se, monstros que podem ser familiares, mas que são bizarros, descontrolados e assustadores. Por isso é que são caçados. Era carregar no potencial do vilão e explorar toda a (interessante) mitologia dos cavalheiros do fogo. Em terceiro e último lugar, a velha guarda de papelão. É desolador ver Venkman, Stantz e Zeddemore transformados em bibelôs de uma nova geração sem tempo cómico, sem vida e sem diálogos de jeito. O primeiro quarteto vivia das diferenças, das peripécias e da amizade. Não lhes dar a devida digestão e dimensão dos 40 anos depois, torna tudo num enorme quartel, gelado e vazio.

terça-feira, 27 de setembro de 2022

O bom, o mau e o twistzão


Este Samaritan é bem-intencionado. Mitologia no lugar, com raízes coloridas a oferecer uma árvore um pouco diferente do resto da floresta. Porém, se há coisa que me irrita, é ainda não ter ligado a televisão e já ter percebido tudo. Foda-se, não há o mínimo de esforço ou desafio naquele que é o volte face mais importante da narrativa. É estar ali, a bater minutos à espera que nos façam a grande revelação. Até a prestação do ator criança passa, agora tomarem-nos por pepinos do mar é que não.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Asgard Pelos Ares

O Russel Crowe bem pergunta, no finalzinho, cena escondida: quando é que os deuses passaram a ser uma anedota? De facto. Qual foi a curva onde o nosso Thor virou paródia de si mesmo? Chegamos aquele ponto de marinbanço total pela personagem, onde a tragédia e a impossibilidade dos dois primeiros filmes (meu querido The Dark World foda-se) são desperdiçadas num caldeirão exausto de sketches, cabras e rock'n roll. Novos mínimos na casa do tio Feige.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

It's Raining Men

 
Há um episódio, da recém cancelada The Time Traveler's Wife*, em que o protagonista se diverte consigo mesmo. Não, não é assim. Vou explicar melhor: ele viaja involuntariamente no tempo, para outras alturas da sua vida, de modo que, num mesmo evento podem estar duas, três, quatro versões dele próprio. É denso. Mas o Henry adolescente quando se apanhou com outro Henry adolescente decidiu avançar para aquilo que só Marilyn Manson conseguiu, o auto felácio. Esta história toda para ilustrar um pouco o que acontece a estes Garlands e Asters desta vida depois de levarem demasiadas festinhas. Ficam tão entesados com eles próprios que nos oferecem estas sessões de auto bobó, com pouco prazer para quem vê. Men é lindo de morrer, com cenas arrojadas e inesquecíveis. O grande problema é que toda esta copa frondosa e colorida não assenta propriamente em nada. Faltaram-me raízes para tentar resolver, a par com a (sempre incrível) Jessie Buckley, o mistério e o trauma. É tudo estranhamente evidente sem nunca respeitar os tempos da loucura. Acabamos por ter uma escalada sem nunca sair da base.

* bem melhor que o filme.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Aborrecimento fantástico e onde encontrá-lo

Não seria mais interessante, atribuir cada uma destas novas aventuras do universo Potter a um realizador diferente? Como fizeram, assim assim, até ao Cálice de Fogo. É que feitas as contas já vamos em sete filmes do David Yates. Sete. E se há coisas que eu gosto (como o primeiro Fantastic Beast) há outras que considero puras obras de encomenda (como os dois Deathly Hallows). Este capítulo com os segredos de Dumbledore, é o derradeiro apeadeiro dessa máquina sem condutor. É surreal como um universo tão rico e colorido possa ser convertido numa "aventura" tão inerte. Não há movimento. Não há movimento nem argumento. O plano dispersa-se por inúmeros personagens sem espaço para mais do que as suas linhas de diálogo. No final quase que conseguimos descolar numa ideia, naquela sequência das malas. Mas são suspiros de uma empreitada muito pouco digna da Fantasia.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Ó Raimi, ó que lindo Raimi


[SPOILERS] É estranho mas não começa bem. Exige logo bagagem pesada dos filmes e séries anteriores, sem tentar o mínimo de construção ou preparação. A própria edição é abrutalhada (veja-se a cena do casamento), levando-nos aos tropeções até uma personagem nova. E aqui, outro problema: America Chavez, sem a experiência nem o carisma para conduzir este primeiro arco buddy avenger. Possivelmente o primeiro grande erro de casting do MCU. Assim que a câmara vira, assim que o Sam Raimi se ambienta, tudo muda: passamos a ter o terror da perseguição, apertada e sanguinária, uma Wanda em modo Carrie, a levar tudo a frente e um Doctor Strange a percorrer-se. A questionar-se. É o coração do filme a aparecer aos poucos, como o sol por cima das nuvens. Na recta final então, já estamos todos lá: nas notas musicais de um duelo ou nos demónios à volta de um zombie. Eficiente, inteligente e delicioso. As páginas soltas do arranque vão-se encontrando e agregando na ideia de uma escolha, de um caminho, de um autor. Não é o desvario que ia à espera mas pode muito bem ser a loucura necessária para abanar um pouco o jogo. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Eternamente curto


O arranjinho aqui tinha de ser para uma trilogia de raíz, onde a grande escala fosse trabalhada e procurada. Todo aquele (medonho) cgi grita por grandes viagens e detalhados cenários. Vento que seja vento. Ou então, uma série de televisão vá, onde cada personagem pudesse ter o seu episódio, o seu flashback. 7000 anos têm de ser pesados, processados e transitados para aqueles nomes. É demasiado, tanto, muito, ao trambolhão e empurrão. Mas pronto, pode ser que no dia em que a Marvel faça trilogias ou séries de televisão as coisas sejam diferentes.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Spider-Man: No Way Home (2021)

 

[SPOILERS] Ninguém cantou a música do Pingo Doce nos anúncios iniciais. Mas houve palmas. Quando a sala aterrou em segurança. Não se pode ter tudo. Ganhamos umas, perdemos outras. Quem venceu decerto foram os moços que acharam boa ideia apagar digitalmente duas personagens dum trailer. Com 148 minutos de filme alguém decidiu que se devia colocar aquele conjunto de frames e depois apagar parte, com uma borracha da rotring. Para manter a surpresa. E acima de tudo a idiotice. Porque, ora deixa ver, havia tantas outras cenas para pôr foda-se. É preciso adulterar o filme? Estar a mexer à padeiro para depois ser descoberto passados escassos minutos pela mais frenética e faminta base de fãs do mundo? Filmes e séries a mais num só ano dá neste engolir do detalhe.

Já este terceiro capítulo é uma aventura que passa a correr, tendo em Holland, Zendaya e Batalon um núcleo quase indestrutível. De facto faz toda a diferença: quando eles se abraçam já perto do final, o coração está lá, no meio. Com humor e sinceridade. Sempre foi algo que gostei nestas propostas do Watts, uma certa inocência dos afetos, um amenizar das dores de crescimento. Visão mais fresca e revigorante que os anteriores: amarrados ao fado, às responsabilidades, às tragédias. Mas, e é aqui que a coisa fica interessante, este filme consegue não só apanhar essa onda do passado mas também fazer as pazes com o mesmo. Existe em Spider-Man: No Way Home todo um lado Last Action Hero que me deixou a pensar. Tenho tendência em classificar, "ah não sei quê este ator é uma merda a trepar paredes", mas o que aqui nos é apresentado, é que para além de vários Peter Parkers de vários universos, nós temos várias personagens de vários filmes. É o mesmo, mas não é. Todos eles têm o seu lugar, o seu tempo, as suas batalhas, e mais importante, o seu valor. Colocá-los em sintonia, lado a lado, é ter a noção do caminho, do cinema e do que é ser o Homem-Aranha. Falhas e marcas à parte, este respeito por si próprio já ninguém lhe tira.