sexta-feira, 7 de março de 2025

Enquanto Morrias

Já tinha uma dívida antiga com Josh Ruben por, no seu Werewolves Within, ter trazido os Ace of Base para os anos 20. Agora este sentimento reiki de gratidão prevalece com o seu mais recente Heart Eyes: ao contrário dos seus homólogos juvenis que se esforçam por desconstruir géneros sendo muito divertidos e muito meto-nostálgicos, este filme é uma comédia romântica. Ponto. Rapaz conhece rapariga, têm lugar uma série de tropelias e ficam juntos no fim. Sucede que, essas tropelias são matanças à bruta no Dia dos Namorados. O terror e o seu assassino mascarado cruzam-se no caminho, quase como se tivessem a estragar outra obra, sem aviso, sem travão. Resultando num festival curiosamente refrescante.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Ep. 1 - The Pope's Exorcist/The Exorcism (com Pedro Cinemaxunga)


Se o Papa tem um exorcista, nós temos um especialista em filmes onde o Papa tem um exorcista. Pedro Cinemaxunga, e sua vasta experiência em possessões cinéfilas, é chamado a intervir, exorcizando todos os demónios recorrentes de um primeiro episódio. Discute se o recente e estranho binómio The Pope´s Exorcist e The Exorcism, que não só partilha o crucifixo como também o seu protagonista: Russell Crowe, esse brutalhão que não conseguimos deixar de amar.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Salsada na savana: edição de autor

Oh Mufasa, esta confusão toda por causa duma chavala? Confusão também nestas duas horas de quem é quem leonino, que nos continuam a manter afastadas de qualquer laço ou interesse. E mesmo saltando esse muro - já presente na adaptação live action de O Rei Leão - somos presenteados com uma aventura sem jornada. É uma história nova de facto, mas será que esta malta não viu o Em Busca do Vale Encantado? Onde está o encanto? A amizade? As peripécias? A chegada? Barry Jenkins tinha a receita mas decidiu pôr tudo na Bimby. Fujam. 

segunda-feira, 3 de março de 2025

Bingo

Para além das quatro estatuetas de Sean Baker, do néon do Letterboxd, da música dos Take That, da interpretação de uma vida e do silêncio póstumo daquele final - aquele final - Anora bate outra estatística: pela primeira vez o meu filme favorito do ano passado vence o Óscar de Melhor Filme. E essa dancinha já ninguém me tira. 

domingo, 2 de março de 2025

Festinhas no trigo queimado


- Olhe Russel Crowe já não há, mas temos Paul Mescal, metade do carisma, metade do jeito mas também metade do preço. Quer levar?

E assim foi. Da horta para o Coliseu. Não sou o maior fã de O Gladiador, mas se tiver a dar uma batalha fico a ver. Reconheço o seu crescendo, a sua surpresa e a sua eficácia num género que andava moribundo. O que acontece neste regresso, à luz das novas sequelas legado, é a total vandalização desse património. Um argumento clonado que, apesar de bem intencionado nos seus jogos de poder, procura fazer demasiados malabarismos com demasiadas personagens, suportadas por um elenco francamente inferior. Falta a construção de um herói, falta aquele beco sem saída que é a vingança; Crowe tinha isso, no seu andar, na sua voz, na sua liderança. Aqui tudo isso se evapora e até as festinhas no trigo têm de ir ser resgatadas do original. Um pequeno atentado.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Bem-vindo de volta


Às vezes é preciso cinema para voltar. Para bater de novo o ferro, até moldar. O Brutalista foi essa reanimação cinemática, cíclica e necessária. Ir à sala para ser acordado, inundado de ideias, de espaços e de histórias. Com um início inesquecível e um final igualmente provocador, o filme de Brady Corbet é uma daquelas obras onde tudo existe em constante cuidado e consonância, sem nunca se expor à verdadeira luz do dia e deixando tudo o que não se vê para depois. É uma casa cheia. Às vezes é preciso cinema para percebermos o quanto gostamos de cinema. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024


 Eu, a tentar perceber se o fim de semana vai ser bom ou uma valente merda.


Twister (1996)

Introdução aos Cuculiformes

Um filme que se chama Cuckoo não precisa de ter uma cena onde o ator explica à atriz, olhando para um casual cromo de um cuco, como é que esta ave opera. Porque sabes, os cucos põe os seus ovos noutras casas - piscadela de olho para aquele espectador que esteve em criogenia desde o Cretáceo. A obra de Tilman Singer não ganha nada com este terceiro acto Shyamalanesco, onde se recapitula passo a passo tudo o que não percebemos. Aliás todo o desconforto e estranheza do arranque ordenam que o espectador se mantenha em sentido, investido: desde aquelas repetições temporais até à inteligente cinematografia da perseguição de bicicleta. Poderia dar para qualquer lado, qualquer género. E ganharia muito em deixar essas escolhas entreabertas, para que qualquer ornitólogo do terror se pudesse perder a descobri-las.

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Isto agora não sai nem com tira nódoas


No dia achei meio paradão. Fui dormir. Só que depois não dormi. Ou se dormi foi sempre com a música: um carrossel soturno e magnífico de Dominique Plante, uma marcha em círculos, em ciclos, naquelas repetições diárias, desde a espera até ao exercício físico. E depois infetou ainda mais, para a cena do tribunal, a transformação medonha em discurso directo. O resultado prático da obsessão, de um voyeurismo carnal, digital, doentio. Juliette Gariépy absolutamente viciante, num aparente jogo de tribunal que se expande, silenciosamente, para o mais assustador dos horrores.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Fim de semana e fim do mundo na Gronelândia

No espaço de uma semana vi dois filmes em que o Gerard Butler está com o matrimónio todo escangalhado. Um em que lhe raptam a mulher numa bomba de gasolina - Breakdown do Intermarché- e o outro este Greenland, onde felizmente não lhe fazem nada à mulher mas o planeta está em dificuldades. Cometa Clarke, que afinal é cometão, impacto profundo, muitos impactos profundos, extinções em massa, fim. Eu até tinha deixado passar este mas entretanto descobri que vai ter uma sequela, Greenland: Migration, e ignorar um filme é uma coisa, ignorar uma saga é outra. Então lá pus mãos à obra e este desnorte de uma família perante o final do mundo deixou-me surpreso. Há nele uma intensidade partilhada, uma aflição permanente que tanto cai no desespero (e no pior) como oferece incomuns momentos de humanidade e conexão. O tio Emmerich não aprovou, mas o tio Ferreira gostou.