sexta-feira, 4 de abril de 2025

Uma chaga p'ra lembrar que há um fim

Vale pela cidade. Pela total dedicação à cidade. Ela é o ventre, desde aquele travelling nas monumentais, até ao olhar rasgado no final. Há uma gestação silenciosa, em todos os espaços que o filme celebra; visceral, brutal e desoladora. Infelizmente, os diálogos inverosímeis e a narrativa espartilhada, não acompanham este belíssimo postal. É esperar que o monstro volte a precisar de amigos e porque nós precisamos de Coimbra.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

Maré baixa


Estava eu a passear no armazém dos sci-fizinhos perdidos quando, na prateleira das gravações automáticas, AMC, dez da noite, encontro este The Colony. Também conhecido como Tides, com estreia em sala em 2021. Passou-me ao lado mas já cá estou: Terra desolada pelas alterações climáticas obriga o pessoal a fugir para Kepler-209, que, apesar de dar condições de sobrevivência, não assegura a fertilidade; o chamado planeta preservativo. Assim: we have to go back Kate. E uma missão de reconhecimento volta para tentar perceber se já há habitabilidade neste berlinde azul. Sem contar nada de propriamente novo, nem arriscar muito, o filme consegue usar os seus escassos recursos de forma eficaz e imersiva. O que podia ser um passeio pelo estuário do Sado em janeiro ganha reais contornos de um espaço inundado, imundo e irremediável. Os barcos, o nevoeiro, as tribos. E depois Nora ArnezederSarah-Sofie Boussnina, uma dupla surpresa, ao estilo Furiosa, que nos deixa a pedir mais deste mundo inundado.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

Ep.3 - The Truman Show/EDtv


Já está a gravar. Miguel aventura-se a solo e no solo, rumo às profundezas do seu reality show. Na viagem, revisita dois clássicos da adolescência, um que adora e outro que afinal até gosta um pouco. Encontra o McConaughey de cabelo curto, o Hoji Fortuna e mais um ator de bóina, que não é o Dennis Hopper. Mas atenção: podia ter sido.

segunda-feira, 31 de março de 2025

É preciso dar um jeito, meu amigo

Porquê? Porque é um filme de toda a gente. Na infância, nas fotografias, no verão. Na casa cheia, na confusão. Fernanda Torres navega nesta simplicidade com uma mestria rara, de um corpo molhado, quebrado, que perante o vazio insiste em rir; nós vamos rir, diz para o jornal. A gestão discreta da câmara - fundamental em momentos chave como a partida de carro - e o ambiente de época - encrustado em todas as cores - fazem de Ainda Estou Aqui um filme fundamental naquilo que são as memórias. Naquilo que é, a memória.

quarta-feira, 26 de março de 2025

Assaltos low-cost

[SPOILERS] Uma hora? Uma hora para a Rey entrar no edifício? E, assim que entra, manda duas lamparinas, um rotativo e o filme acaba. O que se passou aqui? Orçamento? Edição? Cleaner é bastante bem intencionado: um filme de assalto, com mensagem ecológica, onde a heroína limpa janelas, tem um irmão autista e o mau é seu ex-amigo (006). Mau mas mau, até mata outro mau. Todas estas dinâmicas, quer da luta de ideais dentro dos assaltantes, quer a entrada dela no edifício e contacto com o exterior/interior, mereciam mais calma, mais tempo, mais construção. Há ideias, há Martin Campbell, mas tudo sempre a olhar para o relógio, para ver se ainda dá tempo de ir jantar a casa. 

terça-feira, 25 de março de 2025

O último é sempre o primeiro?

É desta que faço a minha lista das melhores mortes da saga. Isto porque ainda só existem 39808 tops em inglês, 24089 em mandarim, 8705 em português, 92 em mirandês e 13 em minderico. Falta claramente este que vai muito diferente mas no fim ganha a moça da ginástica artística à mesma. Melhor início? Troncos. Melhor morte? Ginástica. Sempre. Pode ser também desta que aconteça um episódio especialíssimo sobre esta pentalogia da morte certa. Os meus companheiros das Nalgas continuam a enganar-me, que nem amante com homem casado: sim sim um dia deixo a família e gravo contigo. Porém os meus comparsas do VHS já me prometeram um porto seguro para desabafo e passeios de montanha-russa. É o trailer do Final Destination Bloodlines amigos. Maio aí ao virar da esquina.

sábado, 22 de março de 2025

Bridget Jones: Sem Tempo Para Entreter

Mais valia uma prequela. Bridget Jones em nova, antes de se tornar, hmm, Bridget Jones? Na universidade, aos trambolhões, se calhar com a Sidney Sweeney e outros jovens extremamente atraentes. Estilo Mamma Mia dois. Ou então, foda-se sou tão previsível, Bridget Jones no espaço. Robozinho cordial, Robozinho safado, gosta dos dois mas depois no final, sob a luz de uma chuva de estrelas, escolhe o primeiro. 

Em 2025 ficamos com este episódio de televisão, profundamente desinspirado - especialmente no que toca ao humor - e cronicamente medricas - especialmente no modo como foge a todo e qualquer tema de interesse. É uma dança fora do seu tempo, como aqueles especiais constrangedores do nariz vermelho, só aqui em duas intermináveis horas. 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Cada geração tem o Wild Wild West que merece

Pois é juventude, isto não não pode ser só o Chalamet a conduzir vermes de areia na carreira das 17h15 para o Barreiro, têm de gramar também com estes pastelões-evento diretinhos para a TV. E enterrando logo a inexplicável peruca do Star-Lord, a conclusão a que eu chego com este The Electric State é que os Irmãos Russo não sabem brincar: têm os bonecos, têm os veículos, têm os castelos, têm os edifícios, mas não sabem o que fazer com eles. Chocam apenas, plástico contra plástico. 320 milhões arbitrariamente atirados ao ar, que se refletem em efeitos espantosos mas que engolem qualquer desígnio da escrita, da ação e da escala. Acabamos a salvar o mundo no jardim da Alameda. Tudo isto quando ainda o ano passado tivemos uma lição de pós apocalipse com Fallout, ou, em 2020, do mesmo autor, a belíssima Tales From the Loop. E se a cauboiada steampunk de 1999 tinha aquela ginga do Will Smith para abanar o rabo esta só nos deixa mesmo a abanar a cabeça.

quarta-feira, 19 de março de 2025

Regresso ao Flutuo

[SPOILERS ] A chamada narrativa flutuante. Vaguear com a câmara, à escuta, à procura de fragmentos e pedaços de conversa. Soderbergh é aquele velho amigo que vai misturando e experimentando, como um  bar de cerveja certinho que tem sempre coisas boas na ardósia; e essa perspectiva é de facto um bom refresco, fazendo uma parelha curiosa com o A Violent Nature, também do ano passado. Porém se este lado voyeur me viciou, o argumento de um fantasminha viajante no tempo já não me deixou em completa paz. Estou na dúvida se era preciso mais subtileza ou mais informação para que esse twist funcionasse; até porque qualquer assombração que se preze queria era evitar a própria morte ou não? 

terça-feira, 18 de março de 2025

Lobisomens do Século XXI - Werewolves


Quando saiu o primeiro The Purge não fiquei fã. Pareceu-me escuro, fechado, repetitivo. Até me vou citar a mim próprio só por causa das coisas:

"Conhecem aquele momento em que alguém está quase quase a falecer e mesmo no último instante algo acontece. Pois bem The Purge é isto vezes 30, do início ao fim (...) (Miguel Ferreira, 2013)"

A crítica continua. Fui bruto na altura. Muito bruto. Mas isto para dizer que as vezes uma obra não nos encanta logo mas temos de sempre de a calcular na grande ordem dos tabuleiros futuros. Como se o resto do mapa estivesse ainda escuro, por explorar. A purga cresceu, expandiu a sua mitologia, veio o Anarchy e o Election Year, óptimos jogos de possibilidades, levando a fuga para a rua, crescendo do povo para as esferas do poder, e mantendo o seu protagonista: o meu querido Frank Grillo. É por ele que vos estou a espetar este secão sobre a saga The Purge - que depois arriscou numa prequela e numa incursão mexicana que preferimos esquecer - uma vez que este meninão entra numa espécie de purga com lobisomens, intitulada Werewolves: uma vez por ano, uma super lua transforma qualquer transeunte num cruel lobisomem. Por isso, de um lado temos a população a fechar-se, bem mas bem, em casa durante essa noite e depois temos o Grillo que para além de ser ex-militar - óbvio - é também microbiológo - twist - a tentar resolver esta embrulhada. A narrativa é previsível, os lobisomens são meio farsolas e espetam-nos com lens flare minuto sim minuto sim. Porém, gosto de pensar neste filme como um laboratório de uma mitologia que poderá crescer e explorar todos esses jardins proibidos da licantropia.