quarta-feira, 28 de maio de 2008

Hot-Crazy scale

Personagens - Benjamin Linus

Benjamin Linus é das personagens mais interessantes, dúbias e complexas que a televisão já viu. Consegue criar no espectador sentimentos tão antagónicos e distintos que se torna quase impossível defini-lo e colocá-lo num dos lados da barricada.
Entrando apenas a meio da segunda temporada rapidamente agarrou o leme e é agora um dos maiores pontos de interesse da história, roubando toda a luz sempre que nos dá a honra de aparecer. Pequenino, com o seu corpo frágil, esconde uma inteligência acima da média e uma espantosa capacidade de manipular os outros. Os seus sorrisos irónicos de vitória, os seus olhares de espanto, as suas feições e atitudes, entre tantos outros pormenores, constituem um incrível trabalho de actor por parte de Michael Emerson, relativamente desconhecido até então e que carimba aqui um papel inesquecível. Vamos continuar a vê-lo (infelizmente só até quinta) sempre a espera que nos surpreenda, aguardando a próxima cartada e nunca percebendo se estamos a ouvir a verdade ou a mentira.

Cenas à chuva - 1

Como bom presságio e fazendo um apelo à tímida Primavera, acabamos aqui com a chuva. E de todas as cenas escolhidas esta é aquela que não podia de modo algum ficar de fora. Já referido aqui algumas vezes este é para mim o momento chave de Garden State, de toda uma geração indefinida e confusa que grita os seus medos e fantasmas para um enorme vazio. Parte de um todo por mim adorado, monta na perfeição o sítio onde me encontro, um tempo desiludido de uma juventude cansada, uma procura de um lugar certo numa sociedade esquecida de nos ver. A chuva espelha a liberdade e a vontade de continuar a luta, caindo sobre os sacos de plástico ao som de The only living boy in New York. Então, no refrão, chove um beijo e nesse momento todos gritamos, todos desejamos uns aos outros Good luck exploring the infinite abyss!

sábado, 24 de maio de 2008

O take mais longo

Uma das (poucas) coisas boas que Expiação me deu foi aquele fabuloso plano-sequência na praia. Deixou-me realmente rendido ao espectáculo e à perfeição de uns cinco minutos em contínuo movimento, sem interrupções. Como fã deste tipo de cenas fui investigar nos meandros da rede e deparei-me com esta lista bem jeitosa carregada com mais de duas dezenas de momentos, uns que conhecia, outros que já não me lembrava e por fim, as novidades absolutas. Agarrem então na câmara e deixem a filmar...sem cortes.

Olha quem ele é

Vi-o pela primeira vez à saída da sala de cinema mas pelos vistos ele já andava na minha vida há muito tempo.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull

Ao rever uma aventura qualquer dos oitentas, ou mesmo dos noventas, chego à conclusão, já muito concluída, que o cinema mudou. Já não temos o privilégio de ver a densidade e a espessura que caracterizavam antigas obras, já não pomos os olhos em ambientes fechados e personagens completas. O mercado mudou, as grandes empresas ditam as regras e criatividade está amarrada, sufocada, sem espaço para nadar sujeitando-se a novos conceitos mais abertos e vendo-se obrigada a agradar à pipoca. Cada vez mais temos heróis ocos e vilões de plástico. Tenho saudades do velho cinema, onde os filmes eram feitos para mim, recheados de guloseimas e pormenores, tenho saudades de uma época que infelizmente já não volta.

Isto para dizer que o Indiana de hoje nunca poderia seria o Indiana de 1981. Em parte por esta transformação global da indústria e por outro lado devido à idade do nosso herói, que envelheceu e evoluiu. As comparações com o passado são porém inevitáveis, o selo da saga está lá estampado (para o bem e para o mal), temos sempre um termo de comparação obrigatório que nos leva a dizer que sim, é o mais fraco dos quatro e que sim, não tem a magia latente nos seus irmãos. Então o que restou de Indiana no ano 2008?

Começando pelas coisas boas, tem um início magnifico, levando-nos de imediato para os anos 50, You aint nothin but a hound dog, toca num carro de um grupo de adolescentes cheios de vida que desafiam um dos carros carrancudos do exército para uma corrida. Os seus caminhos separam-se e depressa somos apresentados aos vilões de serviço, russos mal dispostos, que tiram da mala um velho Dr. Jones, que admite imediatamente que não vai ser tão fácil como era...E está dado o mote para a acção, que aqui arranca em grande estilo (seguindo-se uma fantástica cena com um frigorífico) e se prolonga por duas horas de aventura. Aqui o filme não desilude, Spielberg consegue oferecer-nos das melhores cenas de aventura que vi nos últimos anos, desde a perseguição da mota até à perseguição da selva (soberba mesmo!), passando pelas formigas, tudo é feito como só o mestre sabe, aliando a velocidade à gargalhada. Por outro lado, em todo este reboliço a idade de Ford não é escondida, ela está presente na história desde o início e essa auto-consciência é ponto chave no desenrolar dos acontecimentos, no admitir que os tempos mudaram. E é ele que nos dá sem dúvida os melhores momentos e a melhor actuação, com situações hilariantes como a da cobra ou a da biblioteca. A juntar-se à festa das boas interpretações temos também Shia LaBeouf que, e contrariando as minhas expectativas, tem uma prestação muito mais sóbria do que o normal, introduzindo a melhor personagem nova da saga. Em relação ao argumento, goste-se ou não do lado ET da coisa, acho que se conseguiu manter uma ingenuidade e inconsequência características dos anteriores e aqui neste ponto sentimos o cheiro da nostalgia e vemos as vontades de um cinema que já não se pratica. Recheando tudo isto temos as inúmeras piscadelas de olho ao passado que me deram um enorme gozo identificar.

Passando aos defeitos, há uma enorme falha na construção da maioria dos personagens: Cate Blanchett é uma vilã que nunca chega a aquecer nem a assustar; Karen Allen está uma Marion anestesiada e sem qualquer tipo de reacção; todos os outros russos não convencem e mesmo Jim Broadbent e John Hurt estão muito mal aproveitados. Aliado a isto existe também um sentimento de que nada de verdadeiramente novo foi adicionado, sentindo por inúmeras vezes a repetição e o lugar comum. Apesar de toda a aventura falta também suspense e tensão às cenas, não existe palpitações e acelerações dos batimentos, nada está realmente por um fio que nos faça espremer a esponja dos assentos e vibrar de nervosismo.

Concluindo Indiana Jones and the Kingdom of the Cristal Skull é um excelente filme de aventuras, com óptimos momentos de acção e comédia, trazendo ao de cima memórias de um outro tempo impossível de superar. No fim a juventude tenta pôr o seu chapéu mas Ford tira-o e sorri como quem diz o chapeu ainda é meu, e não é que é mesmo!
(+) É um Indiana Jones.Ponto final.
(-) Algumas personagens vazias e uma acentuada falta de suspense.

How happy is the blameless vestal's lot!

The world forgetting, by the world forgot
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd.

Alexander Pope

Os estranhos

Tanto um como outro estão na minha lista de bizarrias a ver este ano. Se um vem da mente do autor de Fight Club, o outro é definido como um casamento entre o Garden State e o Crash de Cronenberg. Choke tem um homem que se engasga propositadamente e repetidamente, fazendo disso o seu modo de vida. Qui Pro Quo tem um locutor de rádio paraplégico que inicia uma investigação sobre pessoas que têm prazer na amputação dos seus próprios membros. Qual dos dois o mais impróprio? Não sei, mas para mim quanto mais estranho melhor!