terça-feira, 18 de março de 2025

Lobisomens do Século XXI - Werewolves


Quando saiu o primeiro The Purge não fiquei fã. Pareceu-me escuro, fechado, repetitivo. Até me vou citar a mim próprio só por causa das coisas:

"Conhecem aquele momento em que alguém está quase quase a falecer e mesmo no último instante algo acontece. Pois bem The Purge é isto vezes 30, do início ao fim (...) (Miguel Ferreira, 2013)"

A crítica continua. Fui bruto na altura. Muito bruto. Mas isto para dizer que as vezes uma obra não nos encanta logo mas temos de sempre de a calcular na grande ordem dos tabuleiros futuros. Como se o resto do mapa estivesse ainda escuro, por explorar. A purga cresceu, expandiu a sua mitologia, veio o Anarchy e o Election Year, óptimos jogos de possibilidades, levando a fuga para a rua, crescendo do povo para as esferas do poder, e mantendo o seu protagonista: o meu querido Frank Grillo. É por ele que vos estou a espetar este secão sobre a saga The Purge - que depois arriscou numa prequela e numa incursão mexicana que preferimos esquecer - uma vez que este meninão entra numa espécie de purga com lobisomens, intitulada Werewolves: uma vez por ano, uma super lua transforma qualquer transeunte num cruel lobisomem. Por isso, de um lado temos a população a fechar-se, bem mas bem, em casa durante essa noite e depois temos o Grillo que para além de ser ex-militar - óbvio - é também microbiológo - twist - a tentar resolver esta embrulhada. A narrativa é previsível, os lobisomens são meio farsolas e espetam-nos com lens flare minuto sim minuto sim. Porém, gosto de pensar neste filme como um laboratório de uma mitologia que poderá crescer e explorar todos esses jardins proibidos da licantropia. 

sexta-feira, 14 de março de 2025

Ep.2 - Dante´s Peak/Volcano (com Carlos Reis)

O chão é lava. Miguel, de chinelos, pede ajuda ao seu cinéfilo da proteção civil favorito: Carlos Reis. Juntos, efusiva e explosivamente, percorrem a atribulada estrada da vulcanologia. Depois de piroclastos, cinzas, cães que saltam à última da hora para o jipe, lagoas ácidas, bóinas, tampas de esgoto voadoras e estupendas lições de humanismo chegam finalmente ao seu destino. Lugar de onde nunca deviam ter saído: os anos 90.

Ouvir episódio.

quinta-feira, 13 de março de 2025

Hey, Mickey!

Não vou comparar Mickey 17 a uma obra de 2009, com nome de satélite natural, porque não sou chibão como vocês. Para quem não viu o filme, ao ler essa comparação vai ter automaticamente o prato azedado, por isso sigam as minha pegadas e comecem assim: a televisão recente tem utilizado com bastante mestria o múltiplo de eu, quer seja o eu em vários invólucros - o corpo como um fato em Altered Carbon - o eu em várias realidades - o multiverso deprimente de Dark Matter - ou o eu trabalho/casa - a inesperada batalha interna de Severance. O cinema também não se tem deixado ficar e em 2023 o Cronenberg Junior encantou-nos com o seu Infinity Pool - o outro eu enquanto cruz de todos os pecados. O filme de Bong Joon Ho vai buscar este sadismo como ponto de partida: um descartável, uma pessoa que se sujeita às mais horríficas mortes em prol da ciência e da colonização humana de um inóspito planeta. Gosto muito como esse lado negro se imiscua no noir, com a narração que nos leva a mil e uma histórias da viagem, e no melodrama, através do improvável e belíssimo piano de Jung Jaeli. Esse lado da identidade, onde cada número se traduz num humor, se por um lado é o coração da intriga por outro acaba por confinar o filme a uma teia de corredores e enredos secundários com pouco interesse. Senti falta, especialmente na segunda metade, de espaço, de aventura. O ar fresco - muito fresco neste caso - faz bem e o Mickey volta a ter a mira afinada no final, resultando numa irresistível e obrigatória bizarria do género que devemos mimar como um filho: a ficção científica.

terça-feira, 11 de março de 2025

Quem és tu miúdo?


Vou ser sincero. Não é fácil. Primeiro, entrar na cadência. Depois, saber respirá-la, olhá-la. A espaços senti cansaço na exploração, no querer aproveitar ao máximo as possibilidades; o segundo acto sofre um pouco com isso. Porém, factos são factos: Nickel Boys é um feito cinemático inacreditável, inventivo e inspirador. A perspectiva usa esse lado íntimo - como o Perfect Days - da luz, dos frutos, de uma composição perfeita até nos sítios mais contaminados. Para além disso manipula habilmente um jogo de espelhos, de identidades, de afinidades, desaguando num final comum e agregador. Muito curioso para o próximo take de RaMell Ross.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Aquiles, dancinhas e jacarés

Gosto sempre de uma boa macacada nos créditos finais. Desde o Bring It On que criei este laço com pessoas embriagadas a fazer uma série de dancinhas, com mais ou menos piada, utilizando uma canção estandarte do filme. Este You're Cordially Invited faz isso com Islands in the Stream, o clássico de Dolly Parton e Kenny Rogers. Para além disso, tem jacarés, outra fraqueza aqui da casa. É um tronco a boiar? Nope, é o cabrão dum jacaré porque esse bracinho não se arranca sozinho, e atenção que o The Bayou já aí anda. Somando estrela com estrela, temos então esta categoria única e irresistível de "Filmes com jacarés e dancinha no final" que poderá evoluir um dia para "Filmes com jacarés a fazer dancinha no final".

sexta-feira, 7 de março de 2025

Enquanto Morrias

Já tinha uma dívida antiga com Josh Ruben por, no seu Werewolves Within, ter trazido os Ace of Base para os anos 20. Agora este sentimento reiki de gratidão prevalece com o seu mais recente Heart Eyes: ao contrário dos seus homólogos juvenis que se esforçam por desconstruir géneros sendo muito divertidos e muito meto-nostálgicos, este filme é uma comédia romântica. Ponto. Rapaz conhece rapariga, têm lugar uma série de tropelias e ficam juntos no fim. Sucede que, essas tropelias são matanças à bruta no Dia dos Namorados. O terror e o seu assassino mascarado cruzam-se no caminho, quase como se tivessem a estragar outra obra, sem aviso, sem travão. Resultando num festival curiosamente refrescante.

quinta-feira, 6 de março de 2025

Ep. 1 - The Pope's Exorcist/The Exorcism (com Pedro Cinemaxunga)


Se o Papa tem um exorcista, nós temos um especialista em filmes onde o Papa tem um exorcista. Pedro Cinemaxunga, e sua vasta experiência em possessões cinéfilas, é chamado a intervir, exorcizando todos os demónios recorrentes de um primeiro episódio. Discute se o recente e estranho binómio The Pope´s Exorcist e The Exorcism, que não só partilha o crucifixo como também o seu protagonista: Russell Crowe, esse brutalhão que não conseguimos deixar de amar.

quarta-feira, 5 de março de 2025

Salsada na savana: edição de autor

Oh Mufasa, esta confusão toda por causa duma chavala? Confusão também nestas duas horas de quem é quem leonino, que nos continuam a manter afastadas de qualquer laço ou interesse. E mesmo saltando esse muro - já presente na adaptação live action de O Rei Leão - somos presenteados com uma aventura sem jornada. É uma história nova de facto, mas será que esta malta não viu o Em Busca do Vale Encantado? Onde está o encanto? A amizade? As peripécias? A chegada? Barry Jenkins tinha a receita mas decidiu pôr tudo na Bimby. Fujam. 

segunda-feira, 3 de março de 2025

Bingo

Para além das quatro estatuetas de Sean Baker, do néon do Letterboxd, da música dos Take That, da interpretação de uma vida e do silêncio póstumo daquele final - aquele final - Anora bate outra estatística: pela primeira vez o meu filme favorito do ano passado vence o Óscar de Melhor Filme. E essa dancinha já ninguém me tira. 

domingo, 2 de março de 2025

Festinhas no trigo queimado


- Olhe Russel Crowe já não há, mas temos Paul Mescal, metade do carisma, metade do jeito mas também metade do preço. Quer levar?

E assim foi. Da horta para o Coliseu. Não sou o maior fã de O Gladiador, mas se tiver a dar uma batalha fico a ver. Reconheço o seu crescendo, a sua surpresa e a sua eficácia num género que andava moribundo. O que acontece neste regresso, à luz das novas sequelas legado, é a total vandalização desse património. Um argumento clonado que, apesar de bem intencionado nos seus jogos de poder, procura fazer demasiados malabarismos com demasiadas personagens, suportadas por um elenco francamente inferior. Falta a construção de um herói, falta aquele beco sem saída que é a vingança; Crowe tinha isso, no seu andar, na sua voz, na sua liderança. Aqui tudo isso se evapora e até as festinhas no trigo têm de ir ser resgatadas do original. Um pequeno atentado.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Bem-vindo de volta


Às vezes é preciso cinema para voltar. Para bater de novo o ferro, até moldar. O Brutalista foi essa reanimação cinemática, cíclica e necessária. Ir à sala para ser acordado, inundado de ideias, de espaços e de histórias. Com um início inesquecível e um final igualmente provocador, o filme de Brady Corbet é uma daquelas obras onde tudo existe em constante cuidado e consonância, sem nunca se expor à verdadeira luz do dia e deixando tudo o que não se vê para depois. É uma casa cheia. Às vezes é preciso cinema para percebermos o quanto gostamos de cinema.