domingo, 11 de julho de 2021

Então estamos sós enfim


Bem Bom consegue superar o seu maior desafio: retratar a banda, não só enquanto Doce, mas enquanto Lena, Teresa, Laura e Fátima. Não escolhe ninguém em particular, não Freddie Mercuryza a obra em prol de uma narrativa mais fácil ou pipoqueira. A voz é delas, de cada uma delas. Quatro jovens atrizes que se atiram de cabeça, em personagens cheias, repletas de energia e identidade. Há esse olhar, esse esperar por cada uma, de forma a entrelaçar todos estes feitios em pequenos feitos, como aquele delicioso momento musical numa bomba da Galp. Por outro lado a belíssima cinematografia - destaque para o uso da contraluz - do pessoal, das formas, das roupas, não consegue esconder algumas limitações no que diz respeito à escassez de recursos. As atuações ao vivo acabam por ser repetitivas, pouco criativas e sem escala. Ficamos a pensar de como seria interessante explorar o cinema por detrás dum festival da canção, os artistas, o burburinho, a pontuação, aquele vai não vai de saber quem ganhou. Nada que aleije o trautear contagiante, enquanto descemos bem dispostos as escadas da saída.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Filmar o tempo

Sai do carro. Primeiro, distrai-se com um avião a cruzar o céu, rasgando a traço branco o fundo azul. Depois vai apanhar algumas flores, num monte de folhagem seca que ali repousa. Ao retirar a última, uma lata adormecida cai para a estrada. O homem olha para ela e, reguila, dá-lhe o toque. Lá vai ela rua abaixo, primeiro para a direita e depois curva suavemente à esquerda até bater no passeio. E nós podemos assistir a tudo. Close-Up, o meu primeiro Kiarostami, é um inteligente e intrincado docudrama sobre uma pessoa que se faz passar por outra, recriado e interpretado pelos intervenientes reais, num jogo de espelhos que desafia formatos e convenções. Porém, é este compromisso com o tempo, com a espera - enquanto lá dentro tudo acontece - que me faz querer ver mais, saber mais e olhar mais.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Dos grandes finais


Look, I know you're gonna be goin' places with your singin' and stuff. And... I'm not the kinda guy to be carryin' your guitars around for you. But if you ever need me for somethin'... I'll be there.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

As outras crónicas de gelo e fogo

É uma obra despachada, seca, com aquele embrenhar país adentro que Taylor Sheridan (e eu) tanto gosta. Aqui a floresta e o fogo, a substituir o deserto e a neve. Porém  Those Who Wish Me Dead esquece dois aspectos fundamentais do canto anterior (o belíssimo Wind River): primeiro a desolação e o desalento da gente esquecida, de um cosmos onde ninguém salva ninguém; e segundo, a metamorfose da protagonista, nos seus dilemas e redenções. Jolie entrega-se, apanha porrada, mas não sentimos aquelas queimaduras e cicatrizes da Emily Blunt em Sicario. Ficou a faltar a ideia de que, apesar de a justiça ter sido feita, o mundo continua pesado, triste e assombrado.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

A mesma guerra

[SPOILERS] As criaturas estão um mimo. A premissa de ir recrutar ao passado para combater no futuro é também muito apetitosa. E o filme até estabelece bem as suas regras e dinâmicas, usando aquele salto temporal de um ano. Agora o que me irrita nestes mastodontes de fábrica é que caem sempre nos truques mais velhos, mais cansativos e mais gastos. Desistiram de nós, desistiram de pensar um guião que não te diga - Estás a ver este aluno? A falar de vulcões, assim do nada, com a turma toda a reforçar? Estás a ver? Estás também a ver o amigo por conveniência que é Engenheiro Geotérmico? Pronto ainda bem, é que no final do filme vai estar aqui a chave do problema. É tão de caras, é tão de caras que ele vai encontrar a filha - graças a deus que não foi o Eça a escrever isto senão podia ficar esquisito - que vai haver um sacrifício e que ele terá de resolver tudo no presente. Não dá para ser inocente. A falta de química entre toda e qualquer personagem também não ajuda, mas vá lá, vamos dar algum descanso ao molde e resolver as coisas com novas ferramentas, pode ser?

sábado, 3 de julho de 2021

Remakes Remax


Pior que as adaptações "ao vivo" da Disney estão as...quer dizer, pior pior, não há nada pior aquele novo Rei Leão. Logo a seguir vá, vêm os remakes que só mudam o elenco e a língua, como aquele filme dos telemóveis à mesa, que contou com 72 versões papel químico. Ainda à espera claro da versão portuguesa, andas a dormir Diogo Morgado! Acontece muito americanizar um produto estrangeiro, como fizeram com o meu querido Nueve Reinas, com o Abre los ojos, com o El secreto de sus ojos ou com o Spoorloos, que teve aquela versão com a Sandra Bullock e um happy ending. Não esse final feliz, malandragem, acaba é de uma forma mais simpática e menos negra que o seu original. Este último caso conduz-nos exatamente à praça central deste texto: o que leva um realizador a recriar quase tintim por tintim uma obra sua? Um filme que resultou, que foi bem recebido, que enche de orgulho a família inteira - inclusive o tio que era contra ele ir para artes - para quê voltar a encenar tudo de novo? Porquê? Foi isto que aconteceu a Erik Van Looy que em 2008 realizou o thriller belga Loft, sobre cinco amigos, bem sucedidos, casados, que decidem compartilhar um loft. Nesse espaço de convívio podem então em segredo, mandar umas facadinhas e fazer chichi fora do penico à vontade. Claro que dá merda e numa bela manhã de Primavera um deles descobre uma rapariga morta no espaço, presa à cama com algemas e começa então um jogo de "foste tu não fui eu". Ao jeito dos policias do Oriol Paulo, a intriga dá voltas e contravoltas, vai destapando o passado de surpresa em surpresa, e se conseguirmos passar aquela barreira do rebuscado, a coisa resulta bastante bem. 


Em 2010 aparece o primeiro remake, diretamente dos Países Baixos. Outro realizador, que entretanto leva com uma andaime em cima e é substituído provisoriamente por Van Looy. Já o remake americano, em 2014, foi realizado na íntegra, de novo, por ele. Oh moço, isto é que está aqui uma bela panca. Tem malta conhecida: o Scofield a na personagem do mais feinho/tímido e o Dredd como o mais safado dos cinco. O Cameron do Modern Family e o Teddy do Westworld. Ah e o cavalheiro belga a interpretar exatamente o mesmo papel. Não vi, mas fui picando assim aos saltos só para confirmar que era tudo igual: cena a cena, fala a fala, resolução e final. Pronto, agora uma sabática, para depois atirar mãos à obra aos remakes filipino, chinês e argentino.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Nova porta de entrada


Estava na altura. Talvez entusiasmado com o meu próprio regresso, talvez por querer deixar uma capa que um dia guarde todos estes trabalhos. Era hora. Os cabeçalhos toscos do início ficaram para trás no turbilhão de planos para uma ilustração novinha em folha. Agarrei no Alvin, no seu corta-relvas enquanto símbolo de persistência, mas também da última viagem, do final de dia, do crédito final. Atrelado a ele os seus víveres cinemáticos, as memórias que percorrem a estrada à procura de novas histórias, outros filmes. O conceito era este, na minha cabeça. Posto isto, lancei o desafio à melhor das melhores, à incansável, talentosa, extraordinária Carla Rodrigues. Reunimos, expliquei a minha ideia e passei-lhe a caneta. O resultado final é este, a superar todos os esquissos mentais, a equilibrar de forma tão serena os tons, os objetos, as viagens. Era isto, é isto. Que quadro tão bonito amiga, obrigado. Agora sim, todo pimpão para dizer: sigam-me em CRÉDITOS FINAIS. Irei estar por aqui, diariamente, num desabafo complexo ou, olhando para cima, numa história simples.