sexta-feira, 5 de junho de 2015

A Terra Depois de Amanhã

Ao dividir o filme em actos, ou atos - para estarmos de acordo - estou automaticamente a digievoluir para aparente crítico pimpão de cinema nível 7. Parabéns a mim próprio por este feito. Passando para Tomorrowland e para o aparente problema dos filmes originais: eles não são originais. É tudo papelão reciclado, que chega mesmo a cheirar a merda. Ah se dizem que o público quer coisas novas então porque é que Jupiter Ascending não vendeu? Não vendeu porque é igual ao Matrix. Ou melhor, a ideia geral não disfarça a colagem cuspida de uma série de conceitos regurgitados por uma coruja gigante que já comeu muito rato. E nós já vimos. Roubar mas transformar, não podemos deixar a inércia preguiçosa à mostra: olhem estes sucessos que roubámos e agora mudámos a forma das orelhas. Não. Tomorrowland não é assim tão mole nem tão replicado de velhos conceitos. O primeiro e o segundo atos conseguem de facto inspirar o mais blindado dos fãs, desde o pin transportador até ao segredo (inacreditável) da Torre Eiffel, não existem grandes barreiras para o sonho. Porém, quando se volta ao chão, percebemos que no espaço ficou o argumento e aí entramos numa senda pateta, apressada e desconexa, para terminar rapidamente com a mensagem pretendida. É o didáctico momento Disney, para aqui as anémonas conseguirem perceber, bem desenhado nas nossas testas: temos de salvar o planeta, esta utopia é o futuro, tenham esperança. É uma pena Bird, não tiveste patinhas para terminar, ainda assim levas uma beijoca pelo esforço. E se puderes envia-me um pin ok? Cenas minhas.

Na fila

quinta-feira, 4 de junho de 2015

SOS escarlate

Whedonistas desta vida, chega o momento em que não dá mais. A sequela de Avengers é esse virar. Como é que um carequinha tão criativo, se arrasta para a mais previsível das posições, transformações. Ou não fosse esta merda, papel químico da manobra Transformers: primeiro competente, segundo insuportável. O que vem a seguir é indescritível, e sim, um homem vai ter de levar as suas mitologias até ao fim. Não há nada de novo, de inteligente, de complementar. Nada que permita crescer numa ou outra direcção, sempre na aflição de repartir os tempos de antena, à debate televisivo. Em detrimento de duas coisas: argumento e vilão. O primeiro merece para ontem um honest trailer: la la la, vamos criar uma super inteligência artificial antes de jantar, para depois podermos ir beber umas cucas ao Bairro. Quem é que pariu o Ultron? Que de repente está zangado, e é mauzinho. E depois no final levam sempre do Hulk, como tudo não passasse de uma anedota. No fundo não passa. Salva-se a Martha Marcy May Marlene, Olsen, Olsen, do meu coração. Bruxinha de tantos suspiros, quase que perdoava o resto, quase quase.

Nota de interesse

Reparei que a Sarah Connor está com boa peida neste poster.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O melhor episódio de Game of Thrones da semana

De facto, nesta semana, foi o melhor. Mas foi o único, dizem. Vá lá, não sejam idiotas. Deixem os paus subirem rumo à fonte. Os tempos são de tal seca, que basta a escarreta do décimo andar para sentirmos a frescura da chuva. Continuo com enormes dificuldades em descobrir unidade, coerência ou memória num episódio de Game of Thrones. O que teve de tão maravilhoso Hardhome, senão uma incrível batalha gelada, na última metade? Mais nada. Chega para algum tipo de medalha? Claro que não, porque não cola: Arya, Sansa, Cersei, Tyrion, com as suas cenas, que apenas existem, não se entrelaçam. Não é uma série. E a alegria do mundo, com tão pobre teatro, continua a ser a prova de que nunca teremos um verdadeiro episódio.

sábado, 30 de maio de 2015

Tem o Eric Roberts e uma atriz porno

The Human Centipede tornou-se daqueles clássicos botecos, obrigatórios em noites pegajosas de cerveja, e outros desvios. Como a deep web, neste caso a deep filmes de merda sem grande jeito. Porém o primeiro e o segundo mantinham uma certa - certo que não muita mas estava lá - tensão e aflição. A tentativa de uma possível fuga, psicopata jeitoso asqueroso. Este terceiro deita a aura centopeia por terra, ao tentar celebrar e amplificar, confundindo o horror com o over e bad acting. Chega a ser insuportável tal gritaria, sem nada que flua ou exista sem o descabido propósito do nojo. Acaba a gritar, claro, na certeza evidente que o Tom Six morreu no Three.

Escolaridade obrigatória

Calma que já lá estou, já lá estou.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O desamor

Enorme banhada. Ainda por cima armei-me em certinho, betinho, estúpido, idiota, aluguei. Como se carregar na merda de um botão fosse alugar, mas pronto: Rio, Eu Te Amo. Tenho de ter as minhas mitologias em dia, e a saga Cidades do Amor é uma delas. Das muitas. Então, depois do fracasso amoroso nova-iorquino, conseguiram ainda piorar mais o desgosto. Como se os cacos não fossem já fragmentos de uma enorme derrota. Desconexo, mal interpretado, e acima de tudo vazio dos espaços. Querem-se celebrações da cidade enquanto organismo vivo e não notas de autor de um local anónimo. Gostei da curta do Meirelles, pela gracinha. O resto esqueçam e sigam, Shanghai a seguir. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

Cinema Animal - Cão

Blogosfera, três ilustres, um animal, poucas regras. Ah, esqueci-me, cinema, em força, do jeito que cada um bem quer e respira. Hoje foi o cão. Vamos ver que dentadas daqui saíram.

Nuno Reis

Antestreia
Quando este convite/desafio que muito agradeço me surgiu, queria algo marcante. Podia ter ido para “Cães Danados” ou ter brincado com as palavras e ir rever “Dogma”. Não adiantava pensar em filmes com cães que eram todos demasiado fofos. Queria algo sobre o lado animal do homem, mas que fosse selvagem e cru. Portanto, algo que não fosse sobre cães domesticados. A sorte de ter um cão no título foi pretexto para voltar a falar sobre um dos meus “filmes favoritos que não vejo vezes suficientes”: “Alpha Dog”, um filme sobre as matilhas que se formam entre os jovens que, tal como cães vadios, são deixados ao abandono, sem rumo, por progenitores que trabalham para lhes darem o melhor que o dinheiro pode comprar, esquecendo-se de estar lá para falar e ouvir quando eles mais precisam.

O cão é o animal mais próximo dos humanos. Acaba por ser quem está sempre por perto para nos ouvir e animar, nunca criticando, sempre dedicado e fiel. Não admira que seja considerado o melhor amigo do homem. O contrário não é dito com a mesma facilidade. O homem nem sempre tem paciência com o animal. Maltrata-o, abandona-o, zanga-se, usa-o. Os cães não merecem isso.

Inspirado na vida de Jesse James Hollywood, “Alpha Dog” narra como os nervos e inexperiência da juventude podem empolar as pequenas coisas e os pequenos imprevistos em algo terrível. Como o elemento alfa leva os outros a fazerem o que sabem ser errado, pagando todos em consciência - e por toda a vida - pelo que é simplesmente um momento, uma decisão precipitada, uma pessoa com a cabeça quente. Em especial entre os jovens, quando uns procuram orientação e outros se querem impor como líderes sem ter juízo para isso.

Na altura em que o filme chegou a Portugal, sabia que tinha Bruce Willis e Sharon Stone envelhecidos e uma cambada de gente jovem. Fui ver confiando plenamente no realizador e acabei por descobrir toda uma geração de estrelas como Anton Yelchin, Olivia Wilde, Amanda Seyfried, Amber Heard, Ben Foster e Justin Timberlake. Tirando Emile Hirsch que tinha visto em “The Girl Next Door”, era a primeira vez que via toda aquela gente em papéis de algum relevo. Na altura parecia uma passagem de testemunho de cães velhos que ainda sabem truques, para uma nova geração de cachorrinhos. O tempo encarregou-se de demonstrar que os velhos continuam por cá e os novos continuam a construir as suas lendas, mas ainda espero por um casting tão certeiro como este no que diz respeito a jovens talentos. Não é todos os dias que se consegue projectar o elenco de um filme uma década para o futuro e dizer que todos eles se tornaram figuras relevantes da nossa cultura.

Quanto ao filme, por vezes cai em facilitismos. Muita gente o terá já esquecido. Mas várias cenas e situações perturbadoras serão recordadas e esta tão inverosímil e semi-verídica história causa enorme impacto no seu todo. No final, mesmo não sendo dita ipsis verbis “Basta um cão raivoso para contaminar os dóceis” é a mensagem que fica.

João Lameira

 O cão no cinema costuma ser uma figura simpática, o melhor amigo do herói, às vezes seu parceiro na luta contra o crime, como naqueles filmes dos anos 80 em que era detective da polícia e tudo (anunciando os futuros inspectores Rex e Max). Por vezes, o cão é o próprio herói da história, pense-se na Lassie e no Rin Tin Tin. Até da vida real, não tivesse sido uma cadela a primeira astronauta lançada para a órbita da Terra. Quando não têm outra utilidade, servem de comic relief ou cute relief, tão adoráveis são. No entanto, quando são os “maus da fita”, os cães são mesmo maus.

Se, em The Omen/Génio do Mal, Damien é o Anti-Cristo e Mrs. Baylock é pavorosa (não só como ama mas como pessoa), o que mete mais medo são os “hounds of hell”, a aparecer por todo o lado num cemitério e a guardar furiosamente a criança dos infernos. Mais do que os humanos, eles são a verdadeira manifestação do Mal absoluto, pelo qual têm uma fidelidade canina. Carnívoros, raivosos, sanguinários, imparáveis, indestrutíveis, são outra encarnação da Besta. Os cães de The Omen são os piores inimigos do Homem.

David José Martins

Tive que consultar o Google para descobrir o nome da criatura indestrutível do "Dia da Independência" de 1996: Boomer, um Labrador Retriever. Parece haver uma regra não escrita nos filmes mainstream em que o ecrã pode exibir pessoas e cidades inteiras vaporizadas ou massacradas sem pudor, mas as criaturas peludas de quatro patas são intocáveis. E nesse guilty-pleasure da minha juventude foi a primeira vez que me apercebi desse fenómeno. Provavelmente pelo cena totalmente descarada em que o animal escapa por uma fracção de segundo a uma explosão que no mundo real o teria transformado num hot-dog, literalmente. A minha escolha não é a mais intelectual ou pertinente, mas a outra alternativa era uma memória mais antiga de um canídeo acometido de flatulências num filme que não fixei...

O Falcão Ataca e é Novo

É caso para moderar a tusa. Nem salvar nem destruir. Acrescentar, no seu sítio, à sua hora. A provocação e a criatividade, são, obviamente, enormes pontos a favor. Há ali muita ideia, muito fabrico delicioso, complementado por aquele que é possivelmente dos melhores cameos que já vi em vida. Do outro lado, temos apenas uma espécie de Austin Powers Tuga, que se revolve nos tiques e gritos - chega a saturar - utilizando o sumo do universo em detrimento do sumo da história. É capitão sim senhor. Se há tesão para ser meu, isso já são outros cinco tostões.

domingo, 24 de maio de 2015

A máquina não parou

Costumo escrever o texto, depois o título. Hoje foi ao contrário, talvez pela evidência clara da fotografia. Ontem reencontrei a máquina, que durante anos a fio me ofereceu filmes. Foi nela que vi o drácula, o mãos de tesoura, esta loura mata-me, o titanic, o olha quem fala ou o corte de cabelo. Foi nela que  fugi de prisões, travei as minhas guerras. Lá me ia endireitando, num auditório minúsculo, projectado num lençol enquanto a fita corria. Vi um star wars, o último grande herói, o quinto elemento, foda-se, a máquina sou eu, a minha vida de cinema, no cinema, para o cinema. Ali resumida num conjunto de peças metálicas que circulam em canais, até à luz. Com os meus. E vê-la é um encolher de ombros, um sorriso, um desabafo, um desentender entendido da saudade: a máquina não parou.