domingo, 16 de julho de 2017

E durante todo este tempo era o macaco que tinha a chave


Afinal era tão fácil. Bastava virar a câmara. Mudar de sujeito, objeto, foco. Esquecer, finalmente, os James Francos, Freidas Pintos, Jason Clarkes e Keris Russells desta vida, pôr de lado a pastelice humana e apagar a fé. Admitir e finalmente circunscrever um protagonista, o protagonista: Caesar. E começando no que poderia ser uma perna mais curta, uma falta de orgânica, os efeitos especiais que dão vida a esta malta estão absolutamente maravilhosos. Não me lembro de recentemente ter ficado tão absorto e convencido pelo digital e pelo fabricado. Apoiados por cenários muito inteligentes e austeros, levando-nos rapidamente ao segundo ponto. O argumento. Leva o debate, o cruzamento, do que é ou não humano, pensante, digno e verdadeiro para outro nível. Baralha os olhares e no meio da luta quer realmente deixar algo, muito cinzento. Para além disso, o material promocional foi macaco - foda-se que trocadilho - e escondeu o filme, dando apenas pistas. Resultando então naquele que é sem dúvida o blockbuster mais interessante do ano.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ela existe


Aquele artifício esperado, das renováveis hollywoodescas, é aos poucos substituído por uma ambição fóssil. À medida que nos embrenhamos na selva - ou nele próprio - vamos tirando o plástico; não que isso implique tirar a poesia, nunca, as imagens estão lá, apenas e sempre para nos trazer a história. O compromisso, os laços. O que perdemos e queremos encontrar, está ali, existe. Belo filme.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Também me lembrei do miúdo dos auscultadores no Face/Off


A cena é de facto muito parva. Mas se virarmos a câmara, mudarmos o ângulo, num filme absolutamente anónimo, idiota e mecânico, um bebé com auscultadores aos trambolhões de um lado para o outro acaba por ser refresco. Como a pimenta no cu dos outros. Um desvario digno das comédias infantis dos anos 90 e a mais que merecida homenagem a essa enorme e inconfundível obra de negligência parental Agarrem Esse Bebé

domingo, 2 de julho de 2017

A mãe da galinha dos ovos de ouro


Até quando é que as comédias americanas vão recorrer à temática paternidade/maternidade para as suas sequelas? Então como é que enchemos mais 120 minutos disto? Podíamos trazer os pais, podíamos trazer as mães. Mas a história é igual não é? É é, a mesma merda. Pronto, então vamos lá. Um filme, que eu nem sabia que existia, com o Ferrell e o Wahlberg, tem agora continuação com os respectivos progenitores Lithgow e Gibson, Daddys Home 2. Quase tão abjecto como A Bad Moms Christmas, que para além de usar a do natal usa a carta mamãs das mamãs. E assim em surdina lá se vai enchendo o rabiosque, mais uma volta. 

Então mas hoje não sai nenhum filme com o Nicolas Cage?

Ah espera. Sai sim.


quinta-feira, 29 de junho de 2017

Um minuto de silêncio


Hoje saiu o tal trailer do tal recenas do Jumanji. Cor, CGI, palermice, o The Rock, mais cor, mais CGI e mais palermice. É pior ainda. Mas o momento é de dor. Respeito por aqueles que já foram felizes no tabuleiro. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Ainda assim, se alguém quiser abrir o debate aqui estarei


Neste género de desafios, em que muitas peças são montadas no pós-filme, por ti, têm que ser cumpridos certos requisitos. Mínimos, para se passar, à justa ou não, mas para se passar. Vá anda lá, já tens um metro e meio, podes seguir no miolo deste cavalheiro atraente. Podes ficar a levitar mas tem de haver faísca para voltares à cama, sofá, chão, de tecla em tecla. À procura de resposta, de troca, de conversa. Buster's Mal Heart é um filme bonitinho, uma desconstrução solitária do eu, do final dos dias, assente num sempre competente Rami Malek. Mas no final, o que sobra em suposto engenho escasseia em suposta curiosidade. É preciso fazermos alguma coisa de facto, mas também é preciso o ímpeto. Que ficou lá, no meio de conspirações e inversões. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

All that she wants


Muita coisa para ver, escrever e derreter no calor de The Bad Batch. Por isso temos que ser práticos, abotoados no essencial. Sem números, um dois três, o filme envolve e revolve. Nos primeiros minutos já estamos lá dentro, a caminho de nenhures, cheios de pó e desorientados. Depois de estabelecidos, movemos-nos ao sabor das batidas - Ace of Base, que delícia - numa espécie de disco do Apocalipse. De final esquecido e improvável. Numa estética tão pintas, tão cheia de estilo e identidade que apetece colar todos os planos daqueles calções na parede da sala. Já. E por último o elenco, um irónico encontro de náufragos. Uma festa-exílio, de esquecidos e mal tratados, liderada por uma novata, como se fosse ela luz de algum tipo de redenção. Como se fosse necessário salvar alguma coisa nesta pequena maravilha. 

domingo, 25 de junho de 2017

Os dois is


É sempre arriscado dizer que a terceira temporada de Fargo foi a minha favorita. Foi a minha favorita. Sendo então redundante estar aqui de mapa na mão, com longas indicações de poesia e genialidade. O início do episódio 4, Pedro e o Lobo, por exemplo. Ou o diálogo final, o frente a frente que cai na nossa própria resolução. Mas não queria ir embora sem dizer que esta série é a única que consegue - aqui nos ombros da inesquecível Carrie Coon - ilustrar a imbecilidade e a invisibilidade. Uma, consequência da outra. A solidão, a fechar o ramalhete, como desespero, como grito bem encarnado no meio daquele infinito imaculado. Viver rodeado de imbecis, incompetentes, intolerantes torna o ser desperto invisível. Fargo filma isso como mais ninguém.

Para todos os "time loopers" desta vida


Oh tempo volta pra trás. Sim senhor. E lá regressamos aos time loopers, aqueles eternos prazeres, com muito doce e pouca culpa. Blood Punch na calha, descoberto entre amigos, dá cá um conselho e a seguir dá outro. Nunca o tinha visto mais sangrento e que bela surpresa. Praticamente só com três atores, três desconhecidos, estabelece-se rapidamente na multidão, utilizando a falta de ferramentas sempre a seu favor. Elaborando um tom, nunca arriscando em demasia - podia nalguns momentos ter tentado - e sendo sempre fiel ao género dentro do género, às suas regras dentro das suas leis. Hilariante, violento e surpreendente, este pequenito vem do nada e fica na lista malta, fica de imediato na lista. 

Crítica aos últimos 5 minutos de "Fintar o Amor"


Apanhei os últimos 5 minutos de Fintar o Amor. Gostei muito. Primeiro porque foram só 5 minutos e segundo porque, lá está, foram só 5 minutos. Se apostarmos neste tipo de visionamentos, neste tipo de comédias romantolas, conseguimos sentir algum bem estar. O Gerald Butler está com cabelo à João Manzarra 2017. Estaciona, sai do caro e diz a uma criança, que deve ser o seu filho, que agora voltou de vez. Prometes? Diz o petiz. Sim, responde o canastrão. Entretanto aparece a Jessica Biel, que anuncia: afinal já não me vou casar (com outro gajo qualquer). Ai ai, andavam chateados não é? Mas onde é que o menino andou a enfiar a pilinha? Já está tudo bem. Riem muito os dois e a câmara pendurada no drone levanta. Ficam os três a brincar na relva e eu mudo de canal. Assim vale a pena.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Mas nós não interessamos nada


Falta-lhe porcaria. Baldes com esterco. Humidade. O desequilíbrio dá-lhe uma certa graça sim, um toque genuíno de série B. Para aqueles dias em que ser trapalhão até pode ser uma mais valia. Tudo muito claro e fácil, mas com um certo charme de espaço, de velho castelo assombrado. Mas falta esse âmago de violência suja, dos sentidos. É muito pipi, muito arranjadinho, plástico e plástico, a pensar em nós e nosso bem-estar. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

E pus de parte toda a nostalgia


Raccord muito bom, logo ao início, quando transita dos milhões de anos para o há bocadinho. E aparece a vaca. A própria câmara parece querer dizer alguma coisa. Melhor, o próprio filme atrasa-se na tentativa, no tear narrativo das personagens. Forçado, teenager, levezinho. Claro. Mas ao menos há aqui uma brisa paterna, ou materna, que nos tenta levar. E a Ranger rosa, sim senhora. Go go, que o próximo já vejo no cinema. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Feiticeiro que é Oz


Andou aos trambolhões, mudou de nome, mudou de pasta, foi apagado, foi readquirido e finalmente foi devorado. Mil desculpas, para The Blackcoat´s Daughter, uma das pequenas maravilhas do ano. Para ficar sentado nos créditos, a preto e ao som, como em Personal Shopper. E se aqui não temos a liberdade nem o espaço para reinventar, somos por outro lado surpreendidos por uma eficácia gélida e prática. Uma desconstrução da mais simples das histórias, da amargura, que de outra forma não existiria mas que assim nos mantém sempre atrás, à distância, à procura de uma referência. Afinal era isso, bolas, sim senhor. Muito bem feitinho senhor Oz Perkins

Se já não estiver lá liguem que eu mando


Gostava muito de ter estes bonecos do Los Parecidos. Isto sim, mercadoria à antiga, para encontrar daqui a 50 anos numa venda de garagem. E quem ainda não viu, pode parar de ler e fazer-se à estrada. Ah mas não há em lado nenhum. Certo. Quer dizer, errado, Netflix, lá mesmo para o fundo, bem abaixo do outro refugo. Ele e seu irmão El Incidente, as duas gemas do retorcido e revigorante universo de Isaac Ezban.

Ninguém respeita os penteados


Se cruzarmos a Lei de Roberts - que diz que qualquer filme com a Julia em modo piruca ruiva de caracóis não pode ser alvo de reboot - com a Lei de Bacon - que diz que qualquer filme do Kevin com cabelo à Bon Jovi não pode ser alvo de reboot - com a Lei de Sutherland - que diz que qualquer filme do Kiefer com o cabelo um bocadinho menos redneck que no The Lost Boys mas ainda não normal não pode ser alvo de reboot - com a Lei de Baldwin - que diz que qualquer filme com o William, incluindo o Presa Fácil, não pode ser alvo de reboot - chegamos à conclusão que esta parvoíce é um enorme crime. Atentado. Morreste? Ai e tal agora vou eu, ai ai, e depois vou eu. Mas o que é isto? Um saltitão num festival de verão? Tenham respeito e vergonha, Flatliners, 1990, VHS, cabelos fodidos. O resto é dor de cabeça e fogo de artifício.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Se eu te tivesse visto


Não vi. Mas se por acaso tivesse visto We Are the Flesh chamar-lhe-ia instalação de arte. Como a própria construção, que se vai colando e juntando, caverna. Como me contaram, que eu não vi. Não ia estragar o meu domingo, com grandes planos de escrotos, orgias, canibalismo e cortes psicadélicos. Explícito, agri agri, sem um sentido de obra; o que se vai erguendo sucede e não conclui. Instalação, lá está. O meu amigo que viu, diz que o final é a gracinha, a piscar à crítica social, ao estado a que chegaram, ao México. Diz que é isso mas não chega, não cola. O meu amigo que viu ficou fodido. Ufa, safei-me de boa.

sábado, 10 de junho de 2017

Gadot no País das Maravilhas


Vamos começar pelas coisinhas boas? FIM. Estou a brincar. Ai que grande brincalhão eu, tonto. O grande ponto positivo de Wonder Woman é de facto Gal Gadot. Verdade que a maioria dos castings para estas ramboiadas de super-heróis acertam no ou na protagonista, mas aqui há quase uma aptidão nata. Uma orgânica, não só no facto de ela ser mesmo muito bonita - e o filme usa bem esse frame - mas de ter uma sinceridade e vontade contagiantes, como aquela gargalhada a subir a torre. Diverte-se, e isso ajuda a existir. Para além disso o filme consegue ter uma narrativa, contar uma história de forma regrada e estruturada. O que para estes orçamentos é missão cada vez mais escorregadia. Poucos buracos. Boas cenas de luta. E é isso. O resto é aquela leveza infantil de quem está a explicar o que faz no seu trabalho a uma criança de 5 anos. Assim devagar, a gesticular muito o maxilar, especialmente no início, digno das grandes produções novelescas da TVI. A Hipólita, a Antílope, tiros, lágrimas, vingança. O próprio vilão é daqueles truques que se vê cá de fora da sala, eu estava a jantar e já sabia quem era. A própria senda dela, a questão deus versus homem, que eu gostei, poderia e deveria ter sido rematada com outro ponto, e não com CGI, remédio santo para todas as dores. E isso tira vida. Por exemplo, as roupas das Amazonas cheiram a plástico no meio de todo aquele chroma key. Onde estão aqueles riachos e aquele crepitar das grandes fantasias? Perdidos, por aí. No final, sem cena escondida - obrigado! - fica o travo de um quase lá.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A melhor série de televisão da década


Nunca antes se provaram tamanhas façanhas, tão elevados riscos. Em prol da criação, mais ou menos cristalina, mais ou menos sincera. Muita, muita coisa, a sair, agora, enquanto conversamos. Não podemos virar a cara ao laboratório vivo que hoje se instalou no pequeno écran. E dele, não devemos nunca esquecer The Leftovers. Projetar e perceber o seu impacto, as suas futuras lições nos quadros da escola, é um exercício apetecível mas inútil. Voltar a elogiá-lo, o mesmo, o mesmo. Resta aquele descabelado obrigado, com tudo na mão e os pássaros num frenesim. Estamos aqui, estamos aqui. 

Até ao fim


- Ontem vi este - nunca tinha ouvido falar dele. Nunca o tinha visto mais gordo, e o meu irmão lá o tirou da cartola, do colar infinito de pérolas. Sugestão atrás de sugestão. Especialista na matéria, conhecedor do género, agitei, cheirei e bochechei. Comprei a garrafa. Investimento seguro, sólido e sem grandes avarias. Não quer inventar, porém reinventando e rompendo, especialmente no campo da interpretação. Que dupla amigos. Relativamente desconhecidos, dirigidos por um estreante, emprestam, dão, vendem, morrem e renascem, vezes e vezes sem conta; uma espécie de prova a representar outra. Dois terços da fé, são eles. O que sobra somos nós, nossos lutos e anjos da guarda. Uma bela surpresinha.

sábado, 3 de junho de 2017

Reboots comigo


O Créditos Finais, anunciou, na passada quinta-feira, a produção de uma série de reboots portugueses de obras estrangeiras, com o intuito de dar visibilidade, não só à blogosfera, mas também a mim. Por isso é que são todos comigo.

Personal Blogger
Sou um Personal Blogger, escrevo os posts de malta famosa que não tem tempo para ter um blogue. Entretanto o blogue do meu irmão gémeo desaparece e eu começo a ver blogues que já foram apagados.

Mission: Impossible - Rogue Blogosphere
Sou um agente da blogosfera que tem de lutar contra uma instituição de sites que roubaram uma lista com o nome de todos os bloggers de cinema no ativo. Que obviamente ninguém sabe quem são.

Alien: Bloguenant
Uma nave só com bloggers deixa a terra para ir colonizar outro planeta que tem as condições ideais para a sobrevivência da blogosfera. Só que entretanto recebem um pedido de ajuda de um antigo blogue de arte urbana e vão ver o que se passa. Dá merda, Facemorfos e Sitemorfos com fartura.

Beauty and the Blogger
Mais uma vez, eu, amaldiçoado por pensar que o meu blogue é muito bom e fazer troça do Facebook. O tempo começa a contar e se não encontrar uma blogger de moda de unhas de gel e gelinho que leia um post meu, de livre vontade, fico para sempre aprisionado no Cinema SAPO Mag.

John Blogger: Chapter 2
Há uma sociedade secreta de bloggers cinéfilos que opera nas sombras. Nela o mais temido de todos, John Blogger. Desta vez não lhe apagam um post, pior, rebentam-lhe com o blogue todo. Alguém vai ter de pagar.  


quinta-feira, 1 de junho de 2017

Qual o ator criança que mais detestam?


Ou detestaram. Ou detestaram e ainda detestam. Não vale dizer Elijah Wood, demasiado fácil, e também não vamos chatear as 345 miúdas que fizeram de Annie. Eu, para despachar isto meto já aqui o elenco inteiro de The Little Rascals. Ah mas são crianças e eram os 90 e, pois está bem, levem lá com um bocadinho e depois não precisam de voltar a pedir desculpa.


domingo, 28 de maio de 2017

Idiotas com armas aos tiros


Estava a escrever e comecei logo a rir. Apetece esquecer minimamente a construção ou a repetição e cair no simplismo da dica apressada: vejam Free Fire. A rir, como os seus realizador e produtor, Ben Wheatley e Martin Scorsese, que falam da simplicidade e do "poder cinematográfico bruto de idiotas com armas". É isso: dois gangues que vão fazer uma troca de armas num armazém. Corre bem? Não, claro que não. E daí começa tudo aos tiros. É de mestre, tirar desta cartola um filme estupendo, mas é de facto. Despachado, diálogos hilariantes, grande pinta visual e interpretações tão energéticas que, a espaços, parece daquelas obras de infância, em que um grupo de malta, que gosta muito de cinema, se junta para fazer uma coisa. John Denver e o quebrar de parede final compõe um dos grandes ramalhetes do ano.

A extinção das aranhas


Às vezes, quando bate a saudade de um bom thriller, lembro-me de Shattered. Greta Scachi, Tom Berenger, um acidente, um gajo desfigurado. Um enleio. E talvez os apertos das prateleiras VHS lhe tenham dado um peso ainda maior, nesta minha cabecinha de puto encantado mas a verdade é que as teias se dissiparam. Onde estão estas obras simples de crime e mistério que nos davam a volta, ou que pelo menos tentavam. Onde estão? A resposta é Contratiempo, uma incrível surpresa aqui do lado, que usa o interrogatório como veículo para as histórias, confissões e suas versões. Muito com muito pouco. E pode não acertar sempre no alvo mas em toda a sua corrida emerge o desafio. Em prol do género, em prol das aranhas. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Os riscos da dieta vegetariana


Acho podia ficar a olhar para o poster o resto do dia. E Raw joga com isso. Com o inexplicável magnetismo da sua protagonista. Para além da cinematografia e da música, existe a carne que ela procura, nela mesma, fazendo os seus grandes olhos farol da nossa atenção. Reféns completos da figura, da sede, da fome. Incrível. Por outro lado a narrativa sofre em prol do sensorial, abdica e confunde, simplifica e atrapalha. Subtrai. E se somasse, talvez estivesse aqui das obras mais singulares de terror/transformação dos últimos anos.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O feitiço do tempo, perdido


Ela é jovem. Ela é parva. E ela está presa no mesmo dia para sempre. Fixe. Ou melhor poderia ser, mas de facto é apenas bom engodo, o tal do peixinho guloso que afinal sabe a esferovite. Tentar dizer o que está mal com Before I Fall é quase tão inglório como tentar ensinar um aquecedor a falar. Infantil, mal editado, mal interpretado e refém de um preguiça estranha. É que já todos vimos liceus e premissas mais jovens bem fechadinhas, donas de uma simpatia natural. Aqui não, é tudo plástico, a própria narração da protagonista é desajustada à ação, é levarem-nos pela mão, mas a apertar muito. Para terminar no final mais fora de tom, e possivelmente traumático para quem estava a levar isto a sério, do ano que corre.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Descobrimentos


Amigos da xenomorfia, o que se segue contém bolinha e spoilers. Spoilers e bolinha. Por isso se estiverem com crianças ou quiserem ver Alien: Covenant virgens da silva o melhor é irem espreitar o Hollywood, está a acabar Os Três Mosqueteiros da Disney mas deve ir dar uma malha à altura. Ora bem, em relação a este último tomo no universo Alien, começo por dizer que carbonizar o James Franco nos primeiros minutos, sem lhe dar hipótese sequer de abrir a boca, é para mim, logo, uma estrela. Era ter o Seth Rogen ao lado e aos 10 minutos já íamos com duas. Uma maravilha ao nível do Santoro enterrado vivo no Lost. Depois desta "tragédia" seguimos então para a construção, viagem, da qual conhecíamos parte mas estávamos longe de visualizar o todo. Nisso o marketing aparentemente escancarado foi inteligente, guardando o mais importante para o dia. E se Scott respondeu às críticas, também as enfiou no cu desses nervosinhos insatisfeitos: a criatura acaba por ser o pretexto, o veículo da história de um outro "ser". Ele, a tentar ser, ele a ser o verdadeiro protagonista desta nova saga. David. É terror, ficção científica a todo o vapor, com todas as suas ferramentas para dizer e passar outra coisa. Sangue, tripas, queixos a voar, foda-se em qualquer outro lado já estávamos a levar com um Maiores de 12 há muito tempo. Eu não gostei do Prometheus mas reconheci a audácia e caí de beiços pela mitologia. Covenant corrige alguns problemas - ritmo, interpretações - conquistando outros claro, mas no final é um entretenimento que cumpre. Que tem uma ideia, e melhor, tem uma ideia que não era a nossa. Mostra-nos, para o bem e para o mal, uma oportunidade, um mundo novo, e nestes descobrimentos ganhamos sempre todos. 

Quem é esta menina?


terça-feira, 16 de maio de 2017

De quadro em quadro


Já aqui me confessei por Stories We Tell. Não tanto pelo estilo da oratória mas sim por aquilo que ela exige de nós. São histórias, muitas histórias, que se vão amassando num agregado enorme, amorfo. E para quem fica a forma? Lá está. Paula Rego, Secrets & Stories tem muito deste desafio, desta construção imagética que vem no bilhete, tudo a nosso cargo, de conto em conto, de ano em ano. É deste lado que se decide o quanto amar, como os seus quadros, formadores de opiniões e sentimentos. Cru, poético, indispensável.

domingo, 14 de maio de 2017

Universos paralelos


Aquele momento em que percebes que a Hilary Swank entrou na temporada 38 do Beverly Hills, 90210.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Docinhos


Ainda não vi The Loved Ones. Se calhar vou ver hoje. Não vou nada, nem se calhar, nem ver, como se alguma vez, a esta altura da tarde não tivesse já a noite programada com rigor e intransigência. É um calendário complicado, mas para a semana prometo. Isto porque o mais recente de Sean Byrne - o segundo, ele só tem dois -  ao contrário deste, já foi. The Devil´s Candy é terrorzinho despachado, sem truques nem artefactos, utilizando in extremis a música e o seu vilão. Com volume, força e eficácia. Foda-se, quem nunca teve medo do Pruitt Taylor Vince que atire a primeira pedra.

Ele é o rei


Um bocado estranho, que tamanhas unhas de edição não consigam abrir conteúdo algum. Descolar qualquer sinal, de qualquer personagem. E uma coisa não engole a outra, pelo contrário, deveriam e poderiam ser parceiras. A montagem tem uma vontade fresca, arisca, de arriscar, requintada por uma cor e uns efeitos bestiais. Com frames no ponto, quase da pintura, como ele com a máscara e a espada. Mas depois, não há bate que bate, baque baque, são nomes de cartão que saltitam de um nenúfar para o outro, fugindo. E nós, assim, vamos também indo, desistindo.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Eu sou o Dune


Jodorowsky´s Dune é de facto definitivo. Achava exagerado, venderem-no como o derradeiro que nunca foi feito. Mas a questão é que foi. O seu Dune está todo ali, nos esboços, nos gestos, nas histórias. No entusiasmo, acima de tudo, o entusiasmo e o amor, aquele batuque, a agressividade a falar da devoção, de como se deve procurar o êxtase e de como a arte nos tem de - e pode - levar lá. É uma história, uma janela de ideias para um legado inacreditável que todos deviam procurar e abrir.

sábado, 6 de maio de 2017

10 anos


Calma malta, um de cada vez. Há beijinhos, bacalhaus e apertos de sobra. A própria cidade não se contém. Festa redonda, como o número de primaveras deste maroto, dez. Dez anos no bucho e lendo as efemérides passadas, não existe nada de verdadeiramente novo a ser dito. Vocês já sabem tudo, já aqui disse tudo e aqui continuarei a deixar tudo. À hora marcada, a entrar no carro e a voltar; um tempo à procura de outro. Os eus, constantemente às turras, na senda de consenso, sentido. O último episódio Nas Nalgas do Mandarim não podia vir em melhor altura porque nele habitam as mais sinceras raízes deste estaminé: as histórias, as histórias de cinema e o cinema das histórias. Contá-las, sempre. Obrigado companheiros.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Vamos lá colocar os óculos


Não devemos escravizar Dimension 404 com as correntes de Black Mirror. Até porque, parece-me depois de despachados dois episódios, que a série não quer esse fardo: pensar, projectar, não. É mais um batido levezinho daquelas garrafas e rótulos de eterna felicidade. Tudo misturado, bem referenciado, com as devidas vénias e inconsistências da juventude. Mesmo que essa narina se franza, basta cheirar a sinopse para abrir os braços. Eu li a do terceiro, um gajo qualquer, as pessoas esqueceram-se dos seus programas favoritos de televisão e depois há um viajante do tempo. Preciso pouco mais que isto para ser feliz, a caminho!

terça-feira, 2 de maio de 2017

Vamos falar daquele final?


Ficar nos créditos, naquela levitação, descompressão, de quem pensa encontrar no tecto qualquer abrigo, é, normalmente bom sinal. Aqui com uma música inacreditável, que te leva pela mão enquanto suspiras. Belíssima viagem, este Personal Shopper. Um conto de espectros, fantasmas e luto. Tão inspirador como desolador, tão para lá como cá, no corpo frágil de Stewart, que se entrega e se massacra, se veste à procura de paz. Entre as compras, as luzes e os comboios. Um simulacro do real resto, isto é se realmente restar algum real.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Até já há o "Get Out" Challenge


Quando o entusiasmo se concretiza, o chamado hype, só me apetece abraçá-lo, fazer-lhe festinhas e pedir-lhe desculpa. Enquanto aqueço um galão e volto a pôr as torradas para baixo. Get Out é real, muito longe das tusas do ano passado com Don´t Breathe, e muito perto do cagação. E lavados os pratos isso é que nos interessa. Obviamente, que o filme respira de uma inteligência técnica, na sua edição, e narrativa, no modo como conduz a crítica social, racial e política. Americana. Está tudo lá - talvez não fosse preciso estar tudo tão escancaradamente lá - mas para além do seu texto, vive um intenso e estupendo conto de horror. Com as pausas e tempos certinhos, resolução limpinha, mitologia semi-fresquinha, falta de ar quando nos afundamos e bolsas de oxigénio no arco cómico do seu amigo - que resulta surpreendentemente bem. Não fujam, este é à confiança, pago eu.

American Gods, Fuller, hoje, já


Muito se vai escrever. Expectativas, sangue, sexo, deuses. Nós. Muito se vai escrever mas o que interessa agora é que Fuller voltou. Aquele incrível que vai fazer do écran seu desenho, encher-nos das suas ideias e bombardear-nos com os seus pesadelos. Vital existir, como criativo, provocador e visionário. Ano vencedor portanto.

domingo, 30 de abril de 2017

Colossal


Podia estar aqui o resto da tarde, a bater com os meus dedos de batata frita nesta tecla e na outra, que não iria fechar a equação. Colossal é o meu filme, os da categoria do coração ou do adoro muito tanto. Sem haver minuciosa demonstração. E o mais engraçado é que os números estão aí. Os posters são deliciosos. Os trailers assumiram de forma inteligente o rastilho, sem nunca queimar cartucho. O argumento, é uma construção hábil de um regresso à infância com uma simultânea dose - negra - das responsabilidades da vida adulta. Das transformações, aquele virar. Quase que não damos por ele, o némesis, e por os outros tons que de repente se apropriam da comédia. Assumindo-se sempre como um sci-fi original, como uma parque infantil a explorar. Como aquele nosso filme que nunca dá bem para explicar.

Guardiões da Guláxia


Ao olharmos para Ayesha, a vilã de Guardians of the Galaxy 2 Vol. 2, assaltam-nos logo imagens de Prince Nuada, o vilão de Hellboy II: The Golden Army. Ambos dourados, pintados, servindo de motor à comparação. Necessária, para não trazer o quadro e o giz. Para não levar tau tau no final da sessão. É que o filme de Del Toro tem essa presença, essa voz, para que todos se lembrem; existem aquelas criaturas, aqueles ambientes. Personagens, os sítios são criados com personagens, que nos acolhem e constroem. Gunn faz tudo ao contrário, acrescenta peças que não interessam - para quê o arco da Nebula? - e retira-as onde elas deviam existir - as cenas no planeta de Ego por exemplo, são bacocas, carregadas de CGI e desprovidas de odor ou sabor. Os grandes recantos sci-fi encontram-se a espaços, especialmente nas cenas com a trupe do Yondu, mas não chegam. Não chegam para dar ritmo a um filme que se enche dele próprio, que se faz refém do seu brilho, agora tique, agora demasiado repetido e mastigado: como a música, até quando temos de ver planos da cassete? Já sabemos que é a remistura fantástica 2 e que possivelmente está à venda. Já sabemos das câmaras lentas. Já sabemos que o Baby Groot é super fofo. Já sabemos, agora repetir tudo em larga escala deixa de ser mais e passa a ser mais do mesmo. E eu gosto destes protagonistas, talvez os meus predilectos neste universo cinemático da Marvel, conseguem fazer-me rir, bons diálogos e referências hilariantes, daí ser um pouco revoltante esta gula da meia hora a mais. Esta fome de carregar o ato final de efeitos e explosões, até cansar, até se perderem os elos. Até pedir, como canta o Tiago Bettencourt, que nos devolvam os laços. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Esta Hollywood portuguesa não perdoa


Alguém me explica, em duas linhas que filme é este do Sérgio Graciano - produção Leonel Vieira - e porque é que ele é cópia a papel químico do Open Water 2: Adrift? É mesmo remake à tuga? É isso? O que vem a seguir? A Descida com um grupo de espeleólogos na Arrábida ou o Rio Selvagem no Paiva?

Regresso ao futuro


1923, quando eu escrevia crónicas de cinema para o jornal local e não sabia escolher fotografias.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Muita atenção


Chama-se Riley Keough. É a pedra estacionária de American Honey. É também neta do Elvis. E este ano vai rebentar em força, apertem os cintos.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O amor não acontece


Como já aqui tinha referido, não existia convite mais claro e mais honesto. Um gajo só cai porque quer. Porque quer e porque o rómance é uma coisa linda. E lá está, plano a plano. Nem é bem uma adaptação para carne e osso, é mais daquelas reconstituições foleiras dos documentários criminais, com não atores a darem vida ao crime. É isso, pessoas a recriar algo que aconteceu, sem acontecer. Depois cantam, minuto sim, minuto sim, cantam muito e parece num suspiro que nunca mais acaba. Quando acabou bateram palmas. Claro.

domingo, 16 de abril de 2017

Outro texto


Este texto nem sempre foi este texto. Ao início era só um convite para discutirmos o final de Another Earth. Uma pergunta, proposta, até podiam não estar para aí virados. Depois rapidamente passou para o efeito Brit Marling e o seu uso das histórias. Do storytelling como ferramenta fundamental para o imaginário do próprio percurso. Poucos têm esta habilidade de usurpar as nossas referências e usá-las em prol de uma narrativa - a cena do cosmonauta. Entretanto apaguei, e já só aqui tinha uma imagem, como se o espanto desta intimidade espacial não pudesse nunca ser explicado.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Achei mal ele partir a máscara, há aí muito bom vilão a precisar duma


O Luke diz que é tempo dos Jedis acabarem. Vem cá a Portugal tentar fechar atividade nas finanças e logo vês se continuas com essa ideia. Ninguém acaba com ninguém, vamos mas é ver o trailer mais 20 vezes, especular outras tantas e esperar que em agosto não seja tudo refilmadinho.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Tranquilidade Harrelsoniana


Eu acredito francamente que enquanto tivermos Woody Allen e Woody Harrelson tudo fica bem. O primeiro já aqui levou mimo, o segundo nem por isso. Aliás, o segundo é daquelas peças que de repente nos explode na cara: foda-se, que maravilha, andava adormecido, eu. Ele, liberta aquela presença magnética, embebida - ironicamente - numa naturalidade e contenção, como se fosse o vizinho do lado. Atabalhoado, com os seus problemas e palavrões. Assim em The Edge of Seventeen, a comédia bonitinha a quem ele decidiu roubar todos os momentos e oferecer a razão que faltava. É o maior.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Que se come frio mas frio


Só por si, isolar a ira no elenco, já é de homem. Percebemos que não foi só fogo de título, que ela existe e vai andar, caminhar, atuar, que nem gente. Mas é que para além disso, Tarde para la ira - a estreia bruta de Raúl Arévalo - usa o substantivo como elemento de subtração, do resto que foi sendo anteriormente apresentado. Todos os outros nomes sucumbem e desaparecem no olhar vazio, na fúria, na raiva, na cólera. Sem ter que cair em facilitismos de novela ou hesitações.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

E o José Raposo meus amigos?


Há uma cena - para mim uma das mais incríveis e violentas cenas deste ano - em que vemos pai e filho, à distância, num parque de estacionamento. O mesmo plano, os mesmos metros, como se fossemos obrigados a assistir sem vidro mas com cinto. A estar longe mas dentro, impotentes. E nisso São Jorge não tem dó: os grandes e desolados espaços, intercalados com a confusão apertada do movimento, o balanço a acompanhar o corpo, a arrastar-nos. Ouvem-se as correntes, sentimos um sabor pesado na boca. Não é apenas obrigatório como pedaço de história. Como sirene. Como exemplo de um ator que se apropria e deixa apropriar, no seu todo. É vital como filme, como uma magnífica estocada de cinema.

sábado, 8 de abril de 2017

Nova vida, nova carne


Vi-o hoje, no primeiro dia do festival "Fim-de-semana fantástico em minha casa". Não estava muita gente. Aliás estava só eu, o que não tirou magia ao ambiente. The Void vem aquela imagética fatal dos anos 80, do terror material, da carne pela carne, Carpenter e Cronenberg. Belíssimo no modo como se promove e se vende, não há como dizer que não. A história é simples, um polícia e mais uma malta bem estereotipada, ficam presos no interior de um hospital a braços com uma criatura que não lhes quer bem nenhum. E se este arranque é o certeiro, falta um embrulho mais coeso e fechado para se conseguir desenhar uma mitologia. Porque se os atores não ajudam, a dispersão e confusão do terceiro ato tornam tudo ainda pior, pouco sólido. Não há uma aura, um local, como por exemplo Siren criou tão bem. O final claramente tenta ser a ponte para um compromisso que infelizmente não chegou.