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sábado, 12 de junho de 2021

Esqueci-me do que ia escrever neste título

 
Epá eu até aquela prequela manhosa do Game of Thrones estou a pensar ver. Aquela dos mocitos loiros, avós da Sarah Connor dos 300. Tudo porque tem a Olivia Cooke, uma das minhas mais que tudo no cineverso. E este Little Fish, coloca-a lado a lado com outro ator que gosto muito, Jack O´Connel, num desesperado contrarrelógio. Uma pandemia mundial devora aos poucos as nossas memórias e enquanto a sociedade colapsa, um casal tenta salvar-se. Chad Hartigan oferece um olhar muito fechado, muito delicado sobre aquilo que nos forma enquanto pares e as ameaças que enfrentamos enquanto companheiros; com a erosão do tempo, as perceções, as medidas, as cores que se mutam e que criam diferentes frames. Há um tom tão inevitável mas simultaneamente tão otimista - a remeter para outros despertares - que nos esquecemos rapidamente porque é que estávamos sisudos. 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

Os vampiros lá da terra

Desencabeçar um pouco dos lobisomens que isto a vida não é só lua cheia. Boys from County Hell limpa o palato ao apresentar um vampiro muuuuiiitooooo antigo. O primeiro dos primeiros, que inspirou os escritos e os contos, sediado por debaixo dum estranho monte de pedras, numa pequena aldeia irlandesa. O regressar a um (desconhecido) ponto de partida acaba por ser a parte mais aliciante da proposta; reformular com genica o sangue, a transformação, o sol. Então mas afinal? Pergunta um grupo de locais pouco afetuoso que tenta em simultâneo sarar feridas e estreitar laços. Apesar da secura eficaz do horror, senti falta da comédia, daqueles perlimpimpins de, lá voltamos ao mesmo, Um Lobisomem Americano em Londres.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Piscina dos graúdos

Shiva Baby não consegue descolar da sua apertada pista, de curta-metragem. O que entusiasma ao início - o figurino desorientado, deslocado e destravado da protagonista - acaba por fatigar ao fim da primeira meia hora. Os pais, a ex, o daddy, os pais, a ex, o daddy, a esposa do daddy, os pais, a ex. Aquele caos Baumbachiano (aqui empolado no som) nunca dá o salto, nunca evolui para outras rotas, deixando no ar um terceiro acto que nunca chega. 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

De todos


Os momentos mais difíceis acabam por ser aqueles discretos intervalos, em que Hopkins, em pleno controlo do seu corpo/carreira, vira as costas e segue caminho para o quarto. Esse balançar, sapatear do tempo, é o que torna este The Father tão universal, tão dono dos nossos reflexos e tão impulsivo nas nossas ternuras. Belíssimo filme.

[Magnífico poster caseiro do amigo Edgar Ascensão]
 

terça-feira, 30 de março de 2021

E nem vou falar daquele início


O Chris Stuckmann, a determinada altura do seu vídeo, destaca o facto de uma das cenas ser de facto uma cena. Uma peça, desenhada, pensada e montada como tal. Com espaço, para o medo mas também para nós. E The Empty Man é essa capela. Confesso que se não fosse este alerta, tinha seguido com a minha a vida, evitando o que parecia ser mais um Boogeyman ou Slender Man desta vida, com aquela pequenita do Truth or Dare e uma maldição que no primeiro dia ficas com caganeira, no segundo careca e no terceiro já gostas da filmografia do Rob Schneider. O poster não ajuda e acho que o trailer também é batoteiro. O que temos na realidade é um thriller policial sobrenatural, como The Outsider ou Fallen. Um ex-polícia de luto à procura de respostas - e salvação - para uma série de ocorrências bizarras, diretamente ligadas ao seu círculo de conhecidos. Para saber mais é entrar nesta inesperada toca de coelho: uma cinematografia belíssima, cheia de detalhe, detalhe que passa para as transições (como a do mapa!), para a estranheza, para o suspense, ali certinho no beiral da cadeira, até ao final. Até percebermos a dimensão do arrojo e do obrigatório passa a palavra.

terça-feira, 23 de março de 2021

O urso no blogue

Tinha acabado de arrumar o quadro de cortiça, todo embrulhadinho por causa da humidade. Pior, estava sem pioneses nem novelos de lã vermelhos em casa. Foi tudo ao ar na decoração de natal. E cai-me assim no colo este Black Bear. Lá fui á pressa desembrulhar, comprar e estou agora a olhar para esta complexa rede de acontecimentos, teorias e personagens. Caixas dentro de caixas, que podemos usar, trocar e mudar de sítio. Devíamos ter um assim por semana, para andarmos arrebitados, desafiados, com aquela vontade de conversar. Ainda por cima o filme não se fecha no puzzle, expande-se sim numa Aubrey Plaza fora de série e no impiedoso vórtice do processo criativo. A arte como sacrifício, rascunho e rascunho, de algo que nunca está bem fechado.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Criaturas em extinção

Há um instante em Nomadland onde Frances McDormand encara um gigante dinossauro. Como se estivesse a partilhar a sua extinção, a conectar o seu tempo com outro que também já não existe. Um belíssimo interior, um dos muitos que se fazem sentir na vastidão. Numa obra que, se nos ganha pela proximidade da gente real e das ruínas, nos perde na total imersão da viagem, do processo. Na ideia de um conto que ainda se procura a ele mesmo.