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terça-feira, 26 de maio de 2015

Cinema Animal - Cão

Blogosfera, três ilustres, um animal, poucas regras. Ah, esqueci-me, cinema, em força, do jeito que cada um bem quer e respira. Hoje foi o cão. Vamos ver que dentadas daqui saíram.

Nuno Reis

Antestreia
Quando este convite/desafio que muito agradeço me surgiu, queria algo marcante. Podia ter ido para “Cães Danados” ou ter brincado com as palavras e ir rever “Dogma”. Não adiantava pensar em filmes com cães que eram todos demasiado fofos. Queria algo sobre o lado animal do homem, mas que fosse selvagem e cru. Portanto, algo que não fosse sobre cães domesticados. A sorte de ter um cão no título foi pretexto para voltar a falar sobre um dos meus “filmes favoritos que não vejo vezes suficientes”: “Alpha Dog”, um filme sobre as matilhas que se formam entre os jovens que, tal como cães vadios, são deixados ao abandono, sem rumo, por progenitores que trabalham para lhes darem o melhor que o dinheiro pode comprar, esquecendo-se de estar lá para falar e ouvir quando eles mais precisam.

O cão é o animal mais próximo dos humanos. Acaba por ser quem está sempre por perto para nos ouvir e animar, nunca criticando, sempre dedicado e fiel. Não admira que seja considerado o melhor amigo do homem. O contrário não é dito com a mesma facilidade. O homem nem sempre tem paciência com o animal. Maltrata-o, abandona-o, zanga-se, usa-o. Os cães não merecem isso.

Inspirado na vida de Jesse James Hollywood, “Alpha Dog” narra como os nervos e inexperiência da juventude podem empolar as pequenas coisas e os pequenos imprevistos em algo terrível. Como o elemento alfa leva os outros a fazerem o que sabem ser errado, pagando todos em consciência - e por toda a vida - pelo que é simplesmente um momento, uma decisão precipitada, uma pessoa com a cabeça quente. Em especial entre os jovens, quando uns procuram orientação e outros se querem impor como líderes sem ter juízo para isso.

Na altura em que o filme chegou a Portugal, sabia que tinha Bruce Willis e Sharon Stone envelhecidos e uma cambada de gente jovem. Fui ver confiando plenamente no realizador e acabei por descobrir toda uma geração de estrelas como Anton Yelchin, Olivia Wilde, Amanda Seyfried, Amber Heard, Ben Foster e Justin Timberlake. Tirando Emile Hirsch que tinha visto em “The Girl Next Door”, era a primeira vez que via toda aquela gente em papéis de algum relevo. Na altura parecia uma passagem de testemunho de cães velhos que ainda sabem truques, para uma nova geração de cachorrinhos. O tempo encarregou-se de demonstrar que os velhos continuam por cá e os novos continuam a construir as suas lendas, mas ainda espero por um casting tão certeiro como este no que diz respeito a jovens talentos. Não é todos os dias que se consegue projectar o elenco de um filme uma década para o futuro e dizer que todos eles se tornaram figuras relevantes da nossa cultura.

Quanto ao filme, por vezes cai em facilitismos. Muita gente o terá já esquecido. Mas várias cenas e situações perturbadoras serão recordadas e esta tão inverosímil e semi-verídica história causa enorme impacto no seu todo. No final, mesmo não sendo dita ipsis verbis “Basta um cão raivoso para contaminar os dóceis” é a mensagem que fica.

João Lameira

 O cão no cinema costuma ser uma figura simpática, o melhor amigo do herói, às vezes seu parceiro na luta contra o crime, como naqueles filmes dos anos 80 em que era detective da polícia e tudo (anunciando os futuros inspectores Rex e Max). Por vezes, o cão é o próprio herói da história, pense-se na Lassie e no Rin Tin Tin. Até da vida real, não tivesse sido uma cadela a primeira astronauta lançada para a órbita da Terra. Quando não têm outra utilidade, servem de comic relief ou cute relief, tão adoráveis são. No entanto, quando são os “maus da fita”, os cães são mesmo maus.

Se, em The Omen/Génio do Mal, Damien é o Anti-Cristo e Mrs. Baylock é pavorosa (não só como ama mas como pessoa), o que mete mais medo são os “hounds of hell”, a aparecer por todo o lado num cemitério e a guardar furiosamente a criança dos infernos. Mais do que os humanos, eles são a verdadeira manifestação do Mal absoluto, pelo qual têm uma fidelidade canina. Carnívoros, raivosos, sanguinários, imparáveis, indestrutíveis, são outra encarnação da Besta. Os cães de The Omen são os piores inimigos do Homem.

David José Martins

Tive que consultar o Google para descobrir o nome da criatura indestrutível do "Dia da Independência" de 1996: Boomer, um Labrador Retriever. Parece haver uma regra não escrita nos filmes mainstream em que o ecrã pode exibir pessoas e cidades inteiras vaporizadas ou massacradas sem pudor, mas as criaturas peludas de quatro patas são intocáveis. E nesse guilty-pleasure da minha juventude foi a primeira vez que me apercebi desse fenómeno. Provavelmente pelo cena totalmente descarada em que o animal escapa por uma fracção de segundo a uma explosão que no mundo real o teria transformado num hot-dog, literalmente. A minha escolha não é a mais intelectual ou pertinente, mas a outra alternativa era uma memória mais antiga de um canídeo acometido de flatulências num filme que não fixei...

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cinema Animal - Falcão

Cinema Animal é a mais jovem rubrica do Créditos Finais. Como se fosse o pequenino raptor a sair do novo, naquela cena. Mas que cena é esta então? Sem aborrecer, trata-se de um desafio proposto a três ilustres da blogosfera nacional, onde eu digo o animal e eles o filme. Basicamente é isto. Assim eu pergunto FALCÃO. Ao que vocês respondem...
 

Luís Mendonça

 
A primeira tentação seria dizer logo: "Kes". Mas não, esse filme tem um falcão mas não É como um. Entenda-se: falcão como ave de rapina. Ela sobrevoa, aos círculos, a presa até desferir a golpada imisericordiosa. Só podia ser um filme de… ou o próprio, inteiro, integral, despido na sua desfaçatez, na sua bicuda, afiadíssima, mais-que-cortante, presença: Erich von Stroheim. O filme é "Blind Husbands", onde um oficial austríaco vai iniciar a sua caça furtiva: a inocente mulher casada com um cirurgião, que está tão cego quanto à vulnerabilidade da mulher ante presas impiedosas que de cima a sobrevoem como pelo amor que devota a esta e à sua profissão. É um homem íntegro, mas Stroheim interpreta um homem integral, quase animal, e... militar. Militar no seu desejo pela caça, no seu apetite pela mulher alheia - a melhor das peças! -, militar também na sua determinação em ir até ao cume da desfaçatez e lançar-se em pique para abocanhar e desfazer em pedaços o mandamento: "não cobiçarás a mulher do próximo". O amor é cego, o marido especialmente, mas Stroheim, o destruidor de lares, vê e ataca como uma lança a boa moral cristã. Como uma lança não, como um falcão!
 

Edgar Ascensão

Brain-Mixer
Calhou-me na rifa um animal majestoso, hipnotizante e complicado. É complicado, não em feitio (que como é certo, nunca socializei com nenhum até hoje) mas em termos triviais: Quantos filmes com falcões consegue um cinéfilo enumerar? Eu lembrei-me do Manimal, mas queria afastar-me de séries televisivas, e principalmente desta série...

Enquanto retirava da memória close-up's de panteras e cavalos dos anos oitenta, a mente divagava para Spielberg. E o seu Tintin de 2011 abriu-se-me.

O falcão é co-protagonista da melhor cena de acção do filme (e quiçá desse ano), onde um plano sequência leva os heróis de uma barragem no alto do monte até à beira mar de um país oriental. Espalhando especiarias pelos ares arábicos, detritos imobiliários por água abaixo e arrastando militares destravados por ali abaixo, e as garras desse falcão que não deixam Tintin sorrir nem um pouco no fim desta perseguição completamente insana. Agarra daqui, escapa dali, lá vai o precioso papel...

É certo que depois o falcão sai de cena e não tornando a aparecer no filme, mas deixa a sua pegada como um bicho francamente temperamental e persistente. Que diabo, se eu sempre vi "The Adventures of Tintin - The Secret of the Licorn" como um digno sucessor de Indiana Jones, quanto mais o viria como o verdadeiro quarto capítulo que Spielberg deveria ter realizado. E daí virão as óbvias comparações com os bichos da trilogia do Homem do chapéu, onde se junta às cobras, insectos e ratos para nos deixar com comichão, desprezo e olhar inflamado.

Pedro Andrade


 
Assim que o desafio me foi lançado, e o animal atribuído, que não tive qualquer dúvida sobre que filme iria escrever. Falcão fora a escolha, Millennium Falcon a associação imediata.

A primeira trilogia de “Star Wars” a ser produzida está, e sempre estará, no topo das minhas preferências no que toca a cinema. Não porque considere os filmes obras-primas (longe disso). Não por lhe reconhecer um papel de grande importância para a História do cinema norte-americano (e tem-lo e reconheço-lo). Não por ser uma das principais referências da cultura pop (que é e sempre será). Não por serem dos filmes mais populares de sempre e seguramente não pelo simples facto de serem populares. Não, a minha paixão para “Star Wars” reverte-me para a infância, altura em que mais do que um filme era uma oportunidade para viver uma aventura nos dias mais cinzentos e numa altura em mais do que personagens, o Luke, o Han, a Leia e companhia, eram companheiros, amigos, irmãos.

Não é fácil crescer num sítio onde as possibilidades de amizades se contam pelos dedos das mãos. Nem é fácil crescer na solidão. Muito menos é fácil crescer sem perceber bem que alguém que nos deixou não volta mais. E aquelas VHS, aqueles três filmes gravados da RTP, eram o meu outro lado do espelho. Estava sentado no jardim e não vi qualquer coelho a passar. Vi um falcão. Segui-o, não por um buraco mas por entre as estrelas e lá fui até uma galáxia muito, muito distante.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Cinema Animal - Crocodilo

Cinema Animal é a nova rubrica do Créditos Finais. Sem maçar, trata-se de um desafio proposto a três ilustres da blogosfera nacional, onde eu digo o animal e eles o filme. Basicamente é isto. Assim eu pergunto CROCODILO. Ao que vocês respondem...

Sofia Santos
Caríssimo Miguel, obrigado por me fazeres pensar. É sempre bom receber um convite para participar num desafio que ultrapassa a barreia do “filme favorito”, “filme da tua vida” ou qual o “filme que gostas mais de ver quando estás no primeiro dia da ovulação”, ou ainda, qual é o melhor filme para ver no sábado de madrugada depois de teres bebido 5 orgasmos (entenda-se por orgasmo – bebida/shot).

O animal que me calhou foi o CROCODILO. Estudei um ‘cadinho sobre crocodilos quando em Pré-História falámos de fósseis vivos. E lembro-me perfeitamente que foi nessa aula que descobri a verdadeira ordem animal a que a minha vizinha da frente pertence – não faz parte da classe dos répteis, mas sim dos fósseis vivos.

Crocodile Dundee teria sido a escolha mais fácil e ficava logo despachada com 5 linhas, mas não me apetece. Gosto de vos expor à tortura. Assim, o Miguel Ferreira disse crocodilo e eu digo The Paperboy.

Vi The Paperboy num visionamento de imprensa às 10h da manhã. Aposto que quando Lee Daniels fez o filme, certamente não teve em mente que alguns comuns mortais iam estar a ver este filme numa manhã durante a semana. Por vários motivos: porque de manhã ninguém consegue dar a atenção necessária aos abdominais de Matthew McConaughey, porque ficamos desconcertados para o resto do dia ao ver Nicole Kidman a masturbar-se, porque temos que admitir que Zac Efron é um miúdo bonito. Mas foi sobretudo difícil ver o filme de manhã, porque saímos do cinema com vontade de tomar banho.

É que nos cerca de 100 minutos de filme, o calor húmido e irrespirável de Luisiana é uma personagem principal. Corpos suados, roupas molhadas e pântanos impregnados de Alligator mississippiensis – que segundo informa a wikipédia são uma espécie de caimões que existe apenas nesta região sudeste dos Estados Unidos.

Neste filme, John Cusack é Hillary Van Wetter, um rude caçador de crocodilos que foi condenado à prisão por homicídio. A personagem de Cusack é perturbadora, mas a sua família não lhe fica atrás. Toda a família vive da caça aos crocodilos e a cena em que o primo, irmão ou tio (já não sei) estripa o crocodilo e a seguir massaja-lhe os intestinos é simplesmente repugnante. Das várias cenas perturbadoras que este filme tem, esta foi a que mais me marcou.

E pronto… gostava de ter escrito mais sobre crocodilos vivos, mas é dos mortos que mais me recordo. Infelizmente.


Carlos M. Reis 
Cinema Notebook
Quando recebi o desafio do Miguel, o click instantâneo no meu cérebro apontou-me para a saga do meu velho amigo "Crocodile Dundee". Mas faltava quelque chose a esta escolha que acabaria por não honrar a criatividade desta iniciativa. Era simplesmente demasiado óbvio. Um número dois e um banho depois - nunca tal brejeirice num blogue rimou de forma tão perfeita - e eis que me lembrei de uma possível alternativa com alguma categoria. Faltava confirmar que a cena em questão metia mesmo crocodilos ao barulho e tal festim não era apenas fruto da minha imaginação, agora que deve fazer mais de uma década desde que vi o filme pela última vez. Google comigo e... bingo; sim, "Indiana Jones andthe Temple of Doom" tem mesmo uma cena fenomenal com crocodylidaes à mistura, confirma a Indianapedia (sim, Indiana Jones tem a sua própria enciclopédia).

Vamos a ela então: se não me engano, é mesmo perto do fim da fantástica aventura de Indy e Short Round (o meia-leca) contra o malévolo Mola Ram - quem consegue esquecer aquela careca vermelha, qual Iron Man do século passado -, numa ponte suspensa de madeira velha, uma que, contam alguns, Spielberg nunca ousou atravessar (ao contrário de Harrison Ford, que até corria e saltava na mesma), tendo assim que percorrer cerca de três quilómetros de jipe no Sri Lanka sempre que queria filmar na extremidade oposta. Encurralado no meio da ponte pelos homens de Mola Ram, todos armados até aos dentes com catanas maiores que eles próprios, Indiana Jones vê-se literalmente entre a espada e a espada. Também ele de catana em punho, decide fazer o impensável: enrolar bem os pés nas cordas da ponte e, zzzaaamm, cortar a ponte a meio, fazendo com que todos os maus da fita - na verdade, catorze bonecos cujos braços e pernas funcionavam a pilhas, para parecerem verdadeiros durante a queda - acabassem no meio do rio, despachados pela queda se tivessem sorte. Sim, porque os restantes acabaram a sofrer nas mandíbulas de crocodilos esfomeados - curiosamente, num lago qualquer na Flórida e não no Sri Lanka. Pormenor de gén... Spielberg? Encheu as cordas da ponte com areia para causar um arrastamento genial na imagem aquando da queda da ponte. E é isto. Chega, que agora fiquei com uma vontade louca de rever a trilogia - sim, o quarto filme dispenso revisionamento.



Samuel Andrade
Keyzer Soze's Place
Naquele que será o filme mais existencialista de todos os tempos dedicado à Segunda Guerra Mundial, A BARREIRA INVISÍVEL tem, na sua primeira imagem, o vulto de um crocodilo, espadaúdo e com ameaçador esgar, a deslizar para um lago de água esverdeada e opaca.

Fora de contexto e dos pressupostos do espectador, tal visão parece deslocada no seio de um título sobre a Batalha de Guadalcanal. É, então, que escutamos uma personagem, em voz-off, a murmurar a questão “Que guerra é esta no coração da Natureza?”

Mais do que um mero filme de guerra dramático em torno das suas personagens e respectiva sobrevivência no campo de batalha, a escolha de Terrence Malick em abrir o filme com esta imagem estabelece uma temática metafísica sobre o papel do ser humano no mundo natural: um lugar de caos, predação e sofrimento, que em A BARREIRA INVISÍVEL assume estatuto de genuíno adjectivo para espiritualidade.

O facto de o argumento afastar-se do registo histórico – os motivos da acção militar representada nunca são explanados, tampouco se ouve o termo “Guadalcanal”, durante todo o filme – está em linha com os propósitos existenciais de Malick. A própria insignificância da guerra é ampliada pela forma como a Natureza é aqui fotografada: desde a imensa paisagem verde que serve de palco a uma carnificina gerada por pura e simples disputa territorial até à dualidade presa/predador avocada pela vida animal, a Humanidade demonstra-se reduzida a um conjunto de indivíduos que monologa, incessantemente, sobre amor e infidelidade, passado e presente, inocência e dolo, vida e morte.

O crocodilo surgirá novamente, apenas por uma vez, no filme. Desta feita, como troféu de guerra, amarrado e receoso, para soldados norte-americanos prestes a reclamar vitória em Guadalcanal, numa composição de inegável carga simbólica. Mas este apoderamento da Humanidade empalidece pela aparente iminência do réptil dilacerar as cordas que o prendem a qualquer momento e, rapidamente, expulsar do seu habitat aquele invasor homo sapiens sapiens. Ou a perfeita metáfora (no cômputo geral, trata-se da mensagem do próprio filme) de que o Homem, face à Natureza, estará sempre envolvido numa guerra de onde nunca possuirá domínio.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Cinema Animal - Porco

Cinema Animal é a nova rubrica do Créditos Finais. Sem maçar, trata-se de um desafio proposto a três ilustres da blogosfera nacional, onde eu digo o animal e eles o filme. Basicamente é isto. E para dar o pontapé de saída eu grunhi PORCO. Vamos ver o que eles responderam

Aníbal Santiago

Aproveito desde já para agradecer ao Miguel Ferreira por me ter convidado para participar nesta iniciativa, não só por ter considerado a mesma bastante original, mas também por me ter proporcionado a oportunidade de rever "The Simpsons Movie", uma obra que já não via há algum tempo e voltou a divertir-me imenso. O filme não é centrado num porco, o animal do mês desta iniciativa, mas sim na família Simpsons, composta por Homer, Bart, Marge, Lisa e Maggie, embora o primeiro adopte um simpático espécime suíno. Refiro-me claro está ao "Spider-Pig", também conhecido por "Harry Plopper" e "Plopper". Este é um porco que Homer adopta quando o encontra prestes a ser morto num restaurante, protagonizando com este alguns momentos memoráveis, entre os quais quando o coloca com as patas pelo tecto a cantar "Spider-Pig" como se este fosse o "Spider-Man". Diga-se que durante parte da narrativa ainda encontramos Homer a mimar o "Spider-Pig", penteá-lo e até a dar mais atenção do que aos filhos, até resolver despejar um silo com esterco do seu animal de estimação no lago, algo que conduz a que o espaço fique com uma poluição brutal, conduzindo o presidente Schwarzenegger a ordenar a colocação de uma cúpula em Springfield para separar a cidade do resto do país. Homer logo é descoberto, tendo de fugir com a família, em momentos bastante aparatosos, embora com algum humor, até os Simpsons se verem na obrigação de salvarem o dia. Adaptar uma série televisiva ao grande ecrã não é tarefa fácil, algo que explica a demora dos famosos "The Simpsons" chegarem ao cinema, com o argumento a sobressair acima de tudo por conseguir apresentar uma história que se aguenta relativamente bem ao longo da duração, ao mesmo tempo que consegue captar "o espírito" da série. Não falta muito humor negro e elementos provocadores (não faltam piadas em relação a homossexuais, negros, Religião, Governo dos EUA), várias referências a elementos da cultura popular, alguns convidados especiais, ao mesmo tempo que a extensão da narrativa a cerca de uma hora e vinte permite abordar temáticas relacionadas com os valores familiares e a preservação do meio ambiente que não poderiam ser exploradas da mesma forma num episódio. Marcado por um humor corrosivo, a espaços politicamente incorrecto, um trabalho a nível de animação mais aprumado do que na série, uma história agradável e algumas mensagens relevantes, "The Simpsons Movie" é a prova que estes personagens têm muito para nos dar no grande ecrã.

Pedro Cinemaxunga


Os anos 90 foram carregados de estranhos animais geneticamente modificados para atingir os mais mirabolantes objectivos. O golfinho telepata psicocoiso do Johhny Mnemonic deu cabo do juízo ao Keanu Reeves, os hibridos canguru-humanos fornicaram a colega de Tank Girl em glorioso gangbang, dinossauros de Jurassic Park e outros devaneios alucinogénicos de uma Hollywood à procura de filões, quando as fórmulas dos anos 80 pareciam definhar. Foi, no entanto, um pormenor de cenário de um pequeno e fracassado filme que me ficou a martelar o cérebro anos a fio: os porcos cúbicos de Space Truckers. Neste glorioso épico esquecido, um grupo de camionistas tenta salvar a galáxia de um vilão espacial com capacidade de obliterar o que bem lhe apeteça. Esquema de filme de camionistas dos 70s, com a subcultura bem representada por Dennis Hopper onde só faltaria Sam Peckinpah na cadeira da realização, agarrado a uma garrafinha de JB, para atingir a perfeição. Ora este excelso camionista representado por Dennis Hopper transporta porcos geneticamente modificados em formato cúbico (ou quadrado como erroneamente costuma ser referenciado por cinéfilos com fracas bases de geometria) para aumentar a eficiência do transporte, reduzindo espaço encaixando-os perfeitamente. Não tem grande importância do ponto de vista narrativo, mas é algo que nunca mais ninguém se esquece. Porcos cúbicos…

A popularidade do porco no cinema deve-se a dois factores: a capacidade que têm de fazer desaparecer completamente um corpo (como tão bem se exemplificou em Snatch) e a sua carga simbólica de animal impuro e sujo que serve frequentemente de metáfora fácil ao realizador preguiçoso. Resta-me ainda deixar grandes exemplos de performance de porcos na sétima arte, sempre liderados pela fabulosa rainha miss Piggie. Razorback, terror australiano movido a mega-javali assassino, a divina cabeça de porco de Lord of the Flies, os porcos geradores de energia (metano) de Mad Max 3, Babe esse saudoso subproduto do mesmo realizador de Mad Max, o porco comilão de Gato Preto Gato Branco que serve para marcar a passagem do tempo e definir a bizarra cronologia do filme e Sarah Jessica Parker em Sex and The City 2.

João Gaspar
Desaparecido em combate nos Créditos Finais


aquilo de que mais gosto no porco é a maneira como o seu simbolismo foi mudando ao longo da história. disso e do bacon. mas centremo-nos no simbolismo, por enquanto.

se para os antigos egípcios e gregos o porco era um dos maiores símbolos de fertilidade, para os cristãos passou a ser sinónimo de preguiça e ganância. na china antiga era sinal de força e virilidade; hoje judeus e muçulmanos consideram-no um animal tão sujo que nem lhe comem as carnes.

e depois há esta agravante curiosa na língua portuguesa, onde o porco animal teve o azar de ser homónimo do pouco limpo, do reles, do impuro, do obsceno e indecente. na mesma entrada do dicionário, o porco é mamífero e badalhoco.

isto tudo faz-me lembrar no cinema o goodfellas. filme com tanto de virilidade como de ganância. argumento sujo e corajoso, interpretações brilhantes de porcos gananciosos, obscenos, impuros e ao mesmo tempo pondo à prova os limites das noções de lealdade. um um filme que tem um don’t touch my girl moment, tem violência, tem sexo, tem coragem, tem (in)justiça, tem o joe pesci com o seu how the fuck am i funny, tem uma banda sonora fabulosa e que acaba ao som do my way interpretado pelo sid vicious. enfim, uma deliciosa matança do porco elevada a obra de arte.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Cinema Animal - Leão

Cinema Animal é a nova rubrica mensal do Créditos Finais. Sem maçar, trata-se de um desafio proposto a três ilustres da blogosfera nacional, onde eu digo o animal e eles o filme. Basicamente é isto. E para dar o pontapé de saída eu rugi o LEÃO. Vamos ver o que eles responderam

Jorge Rodrigues 

Começo por desculpar-me antecipadamente se a conexão entre o tema e este filme soar ténue, mas para mim faz todo o sentido, daí que vos peça a vossa indulgência. Quando sugerido o tema deste desafio, admito que o meu primeiro pensamento foi “The Lion King”. Óbvio, eu sei. Depois procurei pensar mais longe, noutros leões impressionantes da Sétima Arte, como o Cowardly Lion de “The Wizard of Oz” e Aslan de “The Chronicles of Narnia”. Ótimas escolhas, todos. Mas foi subitamente que me lembrei: e que tal falar do enorme clássico de Harvey e Goldman, “The Lion in Winter”, e da magnífica e incandescente parceria dos gigantes Peter O’Toole como King Henry II e Katharine Hepburn como Eleanor of Aquitaine? Um constante duelo de titãs, viperino e letal, entre um casal imerso numa brutal luta pelo poder superior na relação que, por acaso, são soberanos da coroa inglesa. Dois verdadeiros leões, magníficos e majestosos, que nunca dão parte fraca de si.

João Bizarro

Foi pedido para esta iniciativa que falasse de um filme associado a uma espécie animal. Por azar calhou-me logo o leão, não porque não goste do bicho, que até é giro e tem bom aspecto mas falarem-me de leão ou lagarto para mim vai dar ao mesmo. Por isso o filme que escolhesse teria de ser do género humor. 

Alguns filmes me vieram à mente, mas apenas um reflectia aquilo que eu pretendia, e esse filme é "Four Lions". O filme apresenta-nos os 4 jihadistas mais estúpidos à face da terra. Christopher Morris viu bem a coisa e mostra como devem ser os leões, com momentos hilariantes de preparação e execução de ataques terroristas. As virgens devem ter ficado contentes com estes leões.

Gabriel Martins

Atire a primeira pedra quem não se lembrou instantaneamente de “The Lion King” quando juntaram as palavras Cinema + Leão na cabeça. Sem contar com a pequena percentagem que se lembrou do “Leão da Estrela” ou de outro filme qualquer, a verdade é que “The Lion King” é um daqueles nomes que salta logo na memória e por isso mesmo um nome ao qual tentei escapar a toda a velocidade.

Talvez tenha corrido demais porque quase fui parar ao mesmo sítio quando escolhi “Hamlet”, afinal de contas, “The Lion King” bebe clara inspiração da peça de William Shakespeare. Quem sabe se a Disney não fez as mesmas associações que eu ao terem escolhido o leão para representar esta história? Ou então é mesmo uma simples coincidência. De qualquer das formas o filme que para mim melhor espelha este felino é “Hamlet” realizado por Laurence Olivier (na realidade não vi outra versão).

O leão é o felino mais sociável, vivendo em grupo e sendo liderado sempre por um membro do sexo masculino. A maioria dos felinos prefere viver isoladamente, mas o leão por alguma razão optou por manter esta estrutura de sociedade. A taxa de sucesso que obtêm ao caçar em grupo e o sentimento de afinidade para com a mesma espécie poderão ser dois dos factores que contribuíram para este comportamento. Nesse sentido, também o Homem percebeu cedo as vantagens de viver em comunidade e também o Homem desenvolveu uma ligação muito forte aos seus. Isto aliado ao facto deste animal se ter tornado um símbolo para “O Rei dos Animais” evocou-me os tempos medievais, onde existiam sociedades patriarcais lideradas por um Rei.

Num grupo de leões, são as leoas as grandes responsáveis pela caça, uma vez que fisicamente são mais aptas para esta tarefa (mais pequenas e ágeis). No entanto, os machos aparentam ter tanto sucesso como as fêmeas quando caçam, a grande diferença é que raramente partilham a carne que caçaram. Os leões são a prova viva de como o sexo feminino é forte, mas mantendo-o mesmo assim num nível de desigualdade entre os dois géneros (a leoa também nunca é a líder). Ora ao longo da História a mulher tem vindo a lutar pela sua igualdade, provando vezes sem conta o seu valor. Focando a atenção nos tempos medievais, mesmo que a mulher não assumisse o papel de caçadora como no caso dos leões, parece ser claro que estamos perante um período da História em que a mulher era tratada, injustamente, como o sexo menor.

Voltando agora aos leões machos, uma das suas grandes funções no grupo, consiste na sua protecção de outros predadores. O leão é mais adequado para esta tarefa por ser maior e mais forte que a leoa. O mesmo se dizia dos homens e por isso a missão de defender a família e a pátria recaiu ao longo dos tempos sobre ele. De facto o homem tem assumido o papel de guerreiro na História e se hoje em dia essa distinção já não é tão clara, nos tempos medievais essa questão nem se coloca.

Por tudo isto o facto de “Hamlet” decorrer no reinado da Dinamarca, durante um período medieval (a data precisa não é conhecida), assentava perfeitamente no contexto que procurava. Além do mais um grupo de leões é apelidado em inglês de Pride, que pode significar também orgulho, um sentimento muito associado à classe da nobreza.

Outro aspecto curioso, mas extremamente cruel no leão é que quando o líder morre e outro toma o seu lugar, ao fazê-lo pode matar toda a sua descendência para que nenhum filho reclame o “trono”. O sentimento de auto-preservação é algo que muitas vezes faz o Homem tomar decisões que condenaria a nível moral e tal é o caso em “Hamlet”. Convém referir primeiro que esta se trata da história do jovem Hamlet filho do falecido Rei da Dinamarca, que foi assassinado pelo seu irmão Claudius a fim de este usurpar o trono e a rainha também. Para Hamlet se a morte do seu pai só por si já tinha sido suficiente para abalar profundamente o seu espírito, no momento em que descobriu a verdade, nunca mais conseguiu expulsar a sede de vingança do seu coração.

É verdade que a início Claudius não tem intenções de matar Hamlet, mas com o tempo compreende a segurança desta opção.Enquanto Hamlet viver, o seu reinado e a sua vida estarão sempre em perigo e por isso, Claudius, o novo Rei da Dinamarca, acaba por conspirar para matar o seu sobrinho (agora também enteado), tal como havia feito originalmente com o seu pai. Por vezes quando escolhemos seguir um caminho negro para chegar a um fim, muitas vezes nunca mais conseguimos abandoná-lo.

“Hamlet” é uma obra majestosa, feroz, cruel e trágica. Tem as características que associo ao leão, esse animal que a partir da sua natureza (é o maior felino das savanas africanas), mas também das lendas (aquela juba fê-lo Rei), se tornou uma das figuras mais imponentes entre os animais, tal como “Hamlet” é hoje em dia uma das peças mais imponentes no teatro e a qual Olivier adaptou muito bem ao Cinema.