quinta-feira, 13 de junho de 2024

Não tem é padres biólogos, como o outro

Conhecem aquela música dos Pólo Norte: Se eu voltasse atrás, Por minha vontade, Trocava alguns anos desta vida, Por um só dia na tua idade. Pois bem, eu trocava maior parte dos terrores desta carreira de espectador borradinho por um só frame deste The First Omen. Podia ser este, quando ela acorda. E que me lembra tantas outras obras das quais não me consigo lembrar. Esta primeira longa de Arkasha Stevenson - que já tinha espalhado magia nas séries Brand New Cherry Flavor, Legion e Channel Zero - tem esse dom: de nos lembrar muito cinema, desde Argento a Carpenter, mas de no final sair por cima, em belíssimos quadros de horror e angustia. Um dos filmes do ano.

domingo, 9 de junho de 2024

A vossa máscara não me é estranha

Renny Harlins no caminho? Vejo-os todos. E um dia ia dar nisto. Juro que pensei que este The Strangers: Chapter One era prequela de origem, descrevendo como é que esta grupeta de psicopatas se tinha juntado. Até apostava num daqueles twists em que depois uma das vítimas se tornava também uma "estranha" no final e o filme fechava com ela a comprar uma daquelas máscaras no Centroxogo. Afinal não, é só mais um reboot frame a frame do original. Desinspiradíssimo, nas interpretações, nos tempos, nos sustos. Seria de esperar pelo menos a experiência e a visão de alguém como Harlin. Mas foi tudo terraplanado. Tinha sido muito mais interessando manterem o conceito base mas darem-lhe uma nova volta, como fizeram recentemente as sagas Wrong TurnParanormal Activity. Ainda para mais é uma trilogia ou seja estamos entalados com mais dois filmes. Pode ser que o pior já tenha passado, copo meio cheio, sempre o copo meio cheio.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

As reviravoltas do universo aranha

Intitulava-se "O bom, o mau e a antecipação". Focado no universo aranha. Não é nesse, é mesmo no universo de filmes de terror com aranhas; sem os linguadões de pernas para o ar. Pronto, então, o bom ia ser o Vermines, o único que tinha visto na altura que engendrei o título. O mau ia ser o Sting e a antecipação o remake do Arachnophobia. Só que a vida está cheia de surpresas e afinal o Sting é mais ou menos. Armei-me em Nostradamus fanfarrão e esta história de uma miúda que adopta uma aranha alienígena tem algumas picadas dignas de registo. Gore e asco necessários para um filme de criaturas; o crescimento da antagonista acompanha bem a expansão dos outros inquilinos no prédio e o mecanismo Alzheimer é usado de forma inteligente para duplicar o medo. Por outro lado as interpretações não são as melhores e desperdiça uma boa analogia (na banda desenhada) para fortalecer as suas teias. Conclusão, se a vossa religião só vos deixar ver um filme de aranhas fodidas este ano vejam o Vermines. Se não tiverem restrições, não ficarão mal servidos com uma sessão dupla. 

Então e o Arachnophobia? Ah pois é. Ia acabar o texto, até porque tenho um suflê de peixe para fazer, mas posso ficar mais umas linhas. Ao que tudo indica é sequela de legado, produzida por James Wan e realizada por Christopher Landon, daqueles filmes simpáticos onde ela morre todos os dias. Não tenho muito mais informação para vos dar. Possivelmente vamos ter direito ao Jeff Daniels em modo Bill Pullman no Independence Day: Resurgence, já velho e senil, "ninguém acreditou em mim!", e depois o neto, mais os amigos, que descobrem um velho barracão, e mais não sei quê. Ah e claro, muitas, mas mesmo muitas, aranhas em CGI.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

A estrada da Furiosa

Ainda não li nenhuma crítica ao Furiosa que não fale de Fury Road. Até eu, ao dizer que não li nenhuma crítica ao Furiosa que não fale de Fury Road estou a falar de Fury Road. E esta apendicite pode de alguma forma prejudicar um filme que se serve bem sozinho. Vira o disco e toca outra merda completamente diferente: outro tom, outro ritmo. Miller agarra numa figura cheia de carisma e oferece-lhe um era uma vez; o épico arriscado que ela merecia. Num cenário tão rico em personagens que parece que nunca saímos da luxuriante floresta. O Pedro (Cinemaxunga) a meio do filme disse-me que aquela trupe só podia mesmo existir ali, e de facto é verdade. Há tanta energia e tanta cor nesta malta que qualquer um deles nos podia levar pela mão aos recantos da Wasteland: desde a Mary Jabassa (a mãe de Furiosa), passando pelo  Praetorian Jack (beijaria), até ao Scrotus (o outro filho de Imortan Joe) ou a Elsa Pataky em dose dupla. Esta segurança, onde qualquer um pode assumir o volante e seguir noutra direção, torna esta saga num objeto único. Especial e imersivo, onde, sem travões, temos a certeza de que não nos iremos perder. 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

Acho importante o novo Governo ter mantido estes pontos de saída da Matrix. 
Sempre dá para ir jantar a Zion de vez em quando.

sexta-feira, 31 de maio de 2024

La La Garland

[SPOILERS] Aos vinte minutos de filme, já depois da viagem ter começado, pensei - Ah de certeza que no final a jornalista veterana falece e a novata regista o momento. Depois esbofeteei-me. Não sejas parvo Miguel, é o Garland caralho. Não é um tarefeiro qualquer. É claro que ele vai procurar outro caminho. É claro. É claro que não. E saltando essa barreira da expectativa autoral, encharcadinhos de previsibilidade, podíamos ter esse mesmo final se existisse uma construção/ligação entre essas duas personagens. Era necessário sentir a transformação, a energia de uma que se esgota em prol da metamorfose da outra. Falta tempo, falta química. Os diálogos pouco trabalhados e as decisões artísticas guiadas pelo manual - como as fotografias a preto e branco - também não ajudam a que se possa encontrar um espaço distinto. Gosto muito do lado da reportagem, de irmos de momento em momento, de relato em relato, com uma cinematografia incrível (o tal verde garlandiano a espaços, o que eu procurava a espaços). Mas sinto que o filme nunca se encontra, entre os horrores da guerra, a adrenalina da profissão, o conflito de gerações, a crítica política, o valor da imagem. Tudo tem lugar mas nada realmente assina e se deixa assinar. 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

O bocadinho que falta


Estávamos à espera das salsichas do Carlos. Ali sentados, banco de entrada do Passos Manuel*, num dos momentos de pausa do Nalgas Film Festival 2023. Enquanto os cachorros que o nosso mais que tudo assegurou não chegavam, discutia com o António (Segundo Take) as potencialidades socioeconómicas do glamping em zonas despovoadas do país. Não discutia nada, falávamos de cinema, claro. Do último Indiana Jones e de como a pressa se apoderou do blockbuster. Filmes a correr que nunca mais chegam ao fim. Há um momento em particular neste Marcador do Destino, logo ao início quando o Indy em CGI cai de um penhasco com o Capote, em que na cena a seguir vemos a superfície da água. Para que o momento resultasse era preciso aquele impasse. É claro que todos sabemos: ninguém morreu. Mas esses segundos fazem parte do engenho e do espaço; é vital ficarmos naquele tique-taque da espera. Mas não, esse interlúdio de ar fresco é cortado, e assim que vemos o local da queda eles voltam à tona. 

Nisto chegámos ao Speed, não por faltar um bocadinho, neste caso de autoestrada, mas porque o tinha revisto recentemente. Apanhei-o na televisão, nessa mesma cena em que todos percebem que falta um pedação de asfalto. E é maravilhosa, uma métrica cinematográfica frenética mas que nos engole com calma em todos os seus passos. Eles aproximam-se naquele carrito, falam com o Keanu, transmitem-lhe as más notícias e depois afastam-se. Nesse afastar, percebemos que estamos sozinhos. Percebemos que estamos mesmo naquele autocarro e que vamos mesmo ter de dar o salto com aquela malta. 30 anos depois continuo a vibrar como se fosse a primeira viagem. Não sou o único. O Stuckman grava uma bonita carta de amor à obra, onde estabelece uma interessante teoria sobre a força dos filmes de ação dos anos 90. 

Sim, mais uma lamúria que escapou à polícia da saudade. Mas é também forma de celebrarmos os nossos filmes e de encontrarmos caminhos para uma nova velocidade.

*uma sala de cinema com um pequeno bar e não um bar com uma pequena sala de cinema.





segunda-feira, 20 de maio de 2024

Popular entre os amigos

Gosto sempre de um filme onde as personagens para parecerem mais velhas cortam o cabelo. Nova: cabelo longo. Dez anos mais velha: cabelo curto. Obviamente. E já que comecei com a rapariga, enterro aqui a minha espada da embirração; tens toda a minha atenção Zendaya. Papel seguríssimo, a ligar esta grupeta à corrente, com gozo, estilo e sexo. Figura ainda mais curiosa, e complexa, porque opera numa relação que não é (nem nunca foi) dela. A morder e a pressionar para que o ténis se reencontre neles. E os confrontos - ou os momentos da grande partida - vão ficando cada vez mais arrojados até ao final onde na câmara já vale tudo. 

Para além disso, a juntar à ingenuidade e destrambelho, temos o início do Blade, da discoteca, só que em todas as cenas. Olá boa tarde, era um café e um copo de ág....MÚSICA DA KADOC...Então que tal correu o teu d....MÚSICA DA KADOC. Quase que apetece ir ao bar e pedir um vodca laranja. Mas na verdade, e o cinema tem destas coisas, tudo resulta. Uma tempestade - como aquele momento dos papéis a voar - um ziguezague narrativo - como a bola cá e lá - que se juntam num conjunto charmoso, vibrante e magnético.

sábado, 18 de maio de 2024

Os segundos dois minutos

Depois do filme andei ali, no turismo dos tristes, de seta em seta no Google Maps à procura dos sítios. E enquanto o amigo Daniel Louro - do The World is a Set - não vai a Quioto temos de nos contentar com este link farsola. River, antes de ser fantasia é um espaço, uma estalagem real que recobre o filme de autenticidade. É ela que impõe o sentido de repetição: quão monótono pode ser aquele trabalho? Quão fechado é aquele microcosmos? É ela também que reformula o género ao apresentar o time loop de dois minutos - o segundo na filmografia de Junta Yamaguchi - como um problema local, estilo corte de luz ou falta de água, que tem de ser resolvido para bem estar dos hóspedes. Se a obra anterior funcionava em plano sequência entre dois andares e dois monitores, esta eleva a fasquia ao fazer um reiniciar geral à beira rio a cada dois minutos; mecanismo muito difícil de manter mas que se segura com uma criatividade, fotografia e um painel de personagens invejáveis. Cada volta é única. E eu a contar os minutos para a próxima.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

O frio chegou e veio para ficar

Três coisas que me congelaram o ânimo neste Ghostbusters: Frozen Empire. Primeiro, voltar à cidade voltando as costas à mesma. É surreal regressarmos a Nova Iorque e estarmos enfiados em salas e salecas. Com exceção da cena de abertura - melhor sequência do filme - mais nenhum momento usa a metrópole como personagem, como energia primordial dos Caça-Fantasmas; as pessoas, as multidões, a festa. Desapareceu tudo. Em segundo, a praga de humanizar todo e qualquer antagonista. Neste caso os fantasmas, com um arco à la Casper (1995), que tem tanto de desnecessário como de profundamente infantil. Os fantasmas são os fantasmas foda-se, monstros que podem ser familiares, mas que são bizarros, descontrolados e assustadores. Por isso é que são caçados. Era carregar no potencial do vilão e explorar toda a (interessante) mitologia dos cavalheiros do fogo. Em terceiro e último lugar, a velha guarda de papelão. É desolador ver Venkman, Stantz e Zeddemore transformados em bibelôs de uma nova geração sem tempo cómico, sem vida e sem diálogos de jeito. O primeiro quarteto vivia das diferenças, das peripécias e da amizade. Não lhes dar a devida digestão e dimensão dos 40 anos depois, torna tudo num enorme quartel, gelado e vazio.

terça-feira, 14 de maio de 2024

Vampiros e bandidos tenrinhos

 
Descobri agora que o Ballerina, spin-off do John Wick, é do Len Wiseman. O artista daquele Total Recall de 2012, sobre o qual combinámos todos, juramento de mindinho, nunca mais dizer uma palavra. Já fomos. Mas não são os bailados da Ana de Armas que nos juntam aqui hoje, hoje mordemos o mais recente filme da dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett. Depois de ressuscitarem o Ghostface, que nem relâmpago (mais ou menos certeiro) no cemitério do slasher, agarram na sua protagonista acabadinha de ser despedida e fazem lhe uma avença simpática neste Abigail. É um filme de vampiros, mas é também um filme em que um grupo de desconhecidos é reunido numa casa por motivos que normalmente só aparecem no terceiro acto. É uma obra redondinha, onde se nota a presença de um argumentista, em prol, quiçá, de um catering sem folhadinhos de salsicha. Saímos a ganhar, com vários inícios - abertos até de madrugada - e várias reviravoltas. O sangue, as tripas, as regras e as desregras compensam alguns tiros ao lado no humor e nos diálogos.  

Gosto destes comboios sem muito alarido; onde uma tropa curiosa, mais ou menos batida no género, vai criando um universo logo ali abaixo da crosta.