Só por si, isolar a ira no elenco, já é de homem. Percebemos que não foi só fogo de título, que ela existe e vai andar, caminhar, atuar, que nem gente. Mas é que para além disso, Tarde para la ira - a estreia bruta de Raúl Arévalo - usa o substantivo como elemento de subtração, do resto que foi sendo anteriormente apresentado. Todos os outros nomes sucumbem e desaparecem no olhar vazio, na fúria, na raiva, na cólera. Sem ter que cair em facilitismos de novela ou hesitações.
terça-feira, 11 de abril de 2017
Que se come frio mas frio
Só por si, isolar a ira no elenco, já é de homem. Percebemos que não foi só fogo de título, que ela existe e vai andar, caminhar, atuar, que nem gente. Mas é que para além disso, Tarde para la ira - a estreia bruta de Raúl Arévalo - usa o substantivo como elemento de subtração, do resto que foi sendo anteriormente apresentado. Todos os outros nomes sucumbem e desaparecem no olhar vazio, na fúria, na raiva, na cólera. Sem ter que cair em facilitismos de novela ou hesitações.
segunda-feira, 10 de abril de 2017
E o José Raposo meus amigos?
Há uma cena - para mim uma das mais incríveis e violentas cenas deste ano - em que vemos pai e filho, à distância, num parque de estacionamento. O mesmo plano, os mesmos metros, como se fossemos obrigados a assistir sem vidro mas com cinto. A estar longe mas dentro, impotentes. E nisso São Jorge não tem dó: os grandes e desolados espaços, intercalados com a confusão apertada do movimento, o balanço a acompanhar o corpo, a arrastar-nos. Ouvem-se as correntes, sentimos um sabor pesado na boca. Não é apenas obrigatório como pedaço de história. Como sirene. Como exemplo de um ator que se apropria e deixa apropriar, no seu todo. É vital como filme, como uma magnífica estocada de cinema.
sábado, 8 de abril de 2017
Nova vida, nova carne
Vi-o hoje, no primeiro dia do festival "Fim-de-semana fantástico em minha casa". Não estava muita gente. Aliás estava só eu, o que não tirou magia ao ambiente. The Void vem aquela imagética fatal dos anos 80, do terror material, da carne pela carne, Carpenter e Cronenberg. Belíssimo no modo como se promove e se vende, não há como dizer que não. A história é simples, um polícia e mais uma malta bem estereotipada, ficam presos no interior de um hospital a braços com uma criatura que não lhes quer bem nenhum. E se este arranque é o certeiro, falta um embrulho mais coeso e fechado para se conseguir desenhar uma mitologia. Porque se os atores não ajudam, a dispersão e confusão do terceiro ato tornam tudo ainda pior, pouco sólido. Não há uma aura, um local, como por exemplo Siren criou tão bem. O final claramente tenta ser a ponte para um compromisso que infelizmente não chegou.
sexta-feira, 7 de abril de 2017
Antes de ir embora
Eu sei que é sexta e que vocês querem descansar. Mas há coisas que temos de resolver, questões que não podem andar ao pendurão, simplesmente não podem. Assim, antes de irem comer os hambúrgueres com rúcula, respondam lá a uma das grandes problemáticas da causa cinematográfica: qual é afinal o melhor filme da Elle Macpherson?
As despedidas do José Augusto
O José Augusto é que sabia, ou como dizem nos botecos, é que a sabia. Toda. Percorrendo o imersivo vídeo oficial de Aguenta Coração - onde ele anda todo de ganga, no Gerês - percebemos que também não resta mais. Agora aguenta coração, já que inventou essa paixão. Não dá para fugir à fonchonada e ao beicinho de quando as nossas séries terminam. Black Sails, um adeus fora das previsões, da lengalenga de não acabar bem ali, arrumado, conciso, espectacular. Vai fazer tanta falta, a aventura. Man Seeking Woman, é oficial, não há mais. Terminou limpinho, a dar o nó com a ponta inicial, fechando uma incrível antologia de costumes, ritos e tantos outros tiques ridículos, a que chamamos quotidiano. Muita falta, a irreverência. Por último The Leftovers, ainda não acabou e já dói, promete tanto que já dá. No último trailer ouvimos ABBA, SOS. Não vale a pena pedir ajuda, resta-nos passear em frente a cachoeiras e sofrer. Como o José Augusto.
segunda-feira, 3 de abril de 2017
É uma espécie de Rocky Balboa
Até os trailers, trabalham a contenção e a surpresa. Feitas as contas, mostrando pouco, muito pouco, ou como ensinam na escola "o essencial". E é que nem professor a corrigir um quase 20 que assistimos a Logan, de questão em questão, sempre a acenar com a cabeça, sim, sim, sim. Mangold faz o que poucos podem/querem: lê a personagem, constrói o filme dela, a partir dela, como raízes do tronco e só depois pensa nas folhas, ramos, raiva, sangue e tripas. São essas rugas, cruzadas com uma secura violenta e saborosa, que nos levam depois ao universo de origem. A tudo o que temos direito, e os maluquinhos, até esses foda-se, podem festejar a vida. Os mutantes, sempre eles, a marcar passo e a relançar os dados. Trocando as voltas, cravando num adeus a mais bonita das esperanças.
domingo, 2 de abril de 2017
E mais não escrevo para não estragar a descoberta
Muito estimulante, o modo como The Discovery joga com as referências, fazendo delas pistas de um hábil labirinto. Logo nos primeiros minutos, aquele tom meio chuvoso, que nem é cinzento nem é azul, com névoa e claridade em doses precisas, para que tudo "pareça". Eternal Sunshine of the Spotless Mind, é certo. E depois, quase sem nada, oferecer uma adição interessantíssima a um género que não pára de surpreender: a ficção científica low cost, cada vez com mais relevo, poder e importância. A ditar novos debates, a trazer à vida aquilo que em nós nunca morre: ideias.
quinta-feira, 2 de março de 2017
Não, não, não
Bem. Nem é o facto de ser o trailer mais mal editado da coleção primavera-blockbusterzão, com música fora de tempo, história repetida e planos quase iguais. Efeitos de merda, especialmente na parte final. O que é estranho porque eram aprumadinhos, sempre a enganar bem o palerma. Agora estão-se nas tintas, só falta arrotar. Mas nem é isso, é o Johnny Depp a CGI, novinho, tão novinho que até parece estrábico. Parem com esse flagelo, não deu, não dá, nem nunca dará.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Corre, John, Corre!
Reduzir John Wick: Chapter 2 ao número de balas é como circunscrever Mad Max a uma perseguição. A viagem, existe viagem, existe experiência, sumo e lucro. Não é isso que vem no bilhete? Ai é: uma edição tão cuidada e delicada, aparentemente descontraída que até uma gargalhada serve de raccord. O mais irónico é que o próprio filme se tenta reformar, como a personagem, descartar do seu papel, tentar aborrecer naquela centena, mais, de crânios a rebentar. Não consegue. Não consegue porque - e aqui amigos é que John Wick assume o estatuto de lenda - existe enquanto personagem do seu próprio filme. Num plano paralelo, suspenso no real, entre as gotas dos dias, sem ninguém se meter, sem ninguém tocar: como no final que todos param, todos são espectadores à espera que o último herói de ação desapareça. Ele foge, como espécie em extinção. Nós, ainda embevecidos, gritamos: corre, John, corre!
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Tempo Perdido
Até eu, gosto de ser Mendel cinematográfico, desenhando inteligentes cruzamentos e percebendo de onde vem o tom mais arruivado daquela tal cena. Mas, em O Homem do Futuro, praticar esse desenho é inglório. Primeiro, porque nunca mais íamos largar a caneta. E segundo porque são viagens no tempo malta, quem é que quer saber? Rezingão frustrado, volta atrás para mudar o percurso da sua vida para depois perceber que as coisas ficaram ainda pior do que já estavam. Para mim bastava o volta atrás, mas já que tem boa música, bons actores e acerta no mecanismo essencial - com o inteligente final - leva um par de beijocas extra.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Não custa nada
Duas coisas muito boas nos dois últimos Underworld, que tive com carinho e dedicação a pôr em dia: são mais pequenos que um episódio grande, sempre abaixo da bitola fofinha dos 90 minutos, e têm fraturas expostas. Quem consegue dizer que não a pouco mais duma horita, a partir e a rasgar lobisomens ao meio?
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