terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Cloverfield


No final do filme, na fila de trás, saiu um Está certo em forma de suspiro, em jeito de desilusão. Era só isto? perguntam os que se sentem defraudados. Enquanto logo no lugar da frente eu pergunto Como é possível ser tudo isto?. Uma coisa é certa, Cloverfield não é um filme consensual, vai dividir a plateia ao meio, em amores e ódios e serão mais aqueles que pedirão o seu dinheiro de volta do que aqueles que anseiam por uma repetição. Vamos então esclarecer os adeptos da pipoca, em Cloverfield não há nenhum adolescente assustado nem nenhum cientista idiota divorciado. Não há ninguém que contrarie o exército e tenha a solução para o problema. Não há nenhuma canção dos Aerosmith ou do Puff Daddy.

Posto isto e mandando o Michael Bay às urtigas, devo dizer que já não sabia o que era ser realmente entretido numa sala de cinema. Já não me lembrava o que era estar realmente nervoso, irrequieto, sem pensar em mais nada, apenas de queixo caído e unhas ferradas na cadeira. Vemos tanta palha, comemos tanta coisa igual que quando nos chega uma iguaria à boca o sabor é ainda mais incrível. O início começa calmo, com a vista sossegada da cidade, tempo de adaptação à irrequieta câmara, à história. Quando já estamos bem sentados e bem envolvidos no pano, a primeira explosão, e depois a segunda, pânico e correria, levando o espectador sempre às costas num incrível sentido de realidade, de experiência quase palpável. Somos os peões que se vêm na televisão, somos a carne para canhão que foge desvairada nas ruas (óbvias comparações com o 11 de Setembro), somos o que nunca antes tinhamos sido num filme. Luta pela sobrevivência amarrada a uma história de amor: o protagonista percorre Manhattan e regressa à zona problemática para ir salvar a sua mais que tudo. Romance este mostrado em pequenos cortes na narrativa central, pequenos recuos, pois a cassete da tragédia grava por cima de um encontro solarengo entre os dois apaixonados. Mecanismo esse que funciona de modo sublime, mal se sente, mas carrega a vontade e a persistência daquele homem em salvá-la e reforça também a ideia da inconstância da vida, de um momento para o outro que altera os nossos conceitos de ser e estar.

Não só tem fantásticas cenas de acção, como momentos de verdadeiro terror (a cena no metro é fenomenal), sempre contados na primeira pessoa, com planos casuais pensados ao pormenor, cada ângulo que não mostra é cada ânsia que se prende às outras e aumentando a vontade de saber o que se passa, e acima de tudo aumentando a vontade de fugir. Tudo montado na perfeição, com o ritmo certo, com o tempo certo (85 minutos) e com bons actores a liderarem a aventura.

A campanha viral que antecedeu o filme e o transformou logo numa big thing foi realmente muito eficaz e inteligente, mas Cloverfield fala por si, sozinho, mostrando-se como uma óptima lufada de ar fresco que nos refresca neste ambiente cada vez mais saturado dos blockbusters. Sem dúvida um dos melhores entretenimentos que tive nos últimos anos!

(+) Tudo.
(-) É um filme de cinema. Em casa perderá metade da sua magia.

6 comentários:

zb disse...

Gostei bastante da tua crítica porque foi exactamente o que senti ao ver o filme. E também concordo que o efeito que terá uma visualização em casa será bem diferente porque a principal arma do filme é o seu poder de envolvência, a forma como atrai e transporta o espectador para as ruas de Manhattan. Mas, mesmo assim, de uma coisa tenho certeza absoluta: a edição em dvd vai certamente fazer parte da minha colecção!

M.Ferreira disse...

O som da sala de cinema é mesmo essencial, pelo menos no primeiro visionamento. Apesar de já ter visto o trailer e de já saber minimamente para o que ia fui apanhado desprevenido por todo aquele caos envolvente, então os primeiros minutos de pânico é de ficar sem fôlego, incrível mesmo.O DVD também não me escapa, mesmo porque sendo uma experiência mais pobre deve ter uns extras bem aliciantes, que talvez levantem um pouco mais do monstruoso véu;)
Abraço

Jp disse...

Grande, grande filme... Concordo com tudo, só acho que devia haver menos tempo de exposição do bicho, corta um pouco o mistério....

Mas de resto, P*TA QUE PARIU! Não mete medo, mete nervos... Dasse...

Acho que vou ter de comprar um bruto surround só por causa deste...

Ledbetter disse...

Escusado será dizer que me revi completo na análise que fizeste do filme.
A minha questão prende-se com uma suposta mensagem nos créditos finais do filme. Alguém reparou nisso? Eu não fiquei até ao fim para saber se é verdade ou não mas já li algures que a dita mensagem dava a entender que eles (o casal apaixonado) teriam sobrevivido. Alguém sabe de alguma coisa disso? Talvez seja melhor não saber...

Abraço.

Marco

João Gaspar disse...

basta pesquisares no youtube com os ending credits do cloverfield e aparecem-te vários video-teorias sobre o assunto.

basicamente (e pelo que eu percebi)é isto:

- durante os créditos finais ouve-se uma voz a dizer "help us". supostamente em reverse ouve-se "it's still alive", insinuando já a sequela.

ouve aqui: http://cloverfieldmessage.ytmnd.com/

- há depois também outra questão. supostamente, na cena final em que os dois namorados estão na praia vê-se uma coisa a cair na água, que, ainda mais supostamente, é um satélite lançado pela companhia japonesa para onde o gajo vai trabahar e esse satélite acorda o monstro das profundezas do oceano.

as teorias estão todas aqui:

http://www.cloverfieldendingcredits.com/


o miguel sabe mais coisas, acho eu.

enfim, há gente para tudo.


um abraço!

Ledbetter disse...

Ok,ok..bastante esclarecedor!
Estou para ver como vão fazer uma sequela original. Mas já ouvi dizer que poderá ser com a web cam de um tipo que por momentos passou à frente do Hud ( o amigo do Rob que filmava)quando estes tentavam atravessar a Brooklyn Bridge. Enfim...
Há teorias para tudo.

Abraço