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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Não há intervalo para chichi no apocalipse

Este filme é assim: ai que bem que se está neste bunker, estamos seguros e...não, não, não, tremor de terra, derrocadas, tragédia. Ai que bem que se está nesta praia fora do bunker com botes salva-vidas para todo...não, não, não, tsunami, vagalhões, tragédia. Ai que bem que se está nesta floresta com um carro funcional que encontrámos, se calhar descansamos aqui um pouc...não, não, não, meteoritos, fogo, viatura rebentada. É isto, uma hora e meia. Jogos sem fronteira do apocalipse, sem qualquer tipo de contexto ou intimidade. O primeiro tinha esse lado humano, nos recantos mais improváveis; a família como o gerador. Este veste essa capa mas sem força ou direção, o verdadeiro desastre.

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Ana de martelos, pratos e granadas

Há uma cena em que a Ana de Armas tenta parar um pouco e beber um café. Assim que leva a chávena à boca entra um cavalheiro bar adentro e atira-lhe logo com uma panela às trombas. É assim, do início ao fim. - Deixa-me só ver que horas são....puummmmmboommmmmm, atropelada por um carro, tiros, pratos, granadas, lança-chamas. Deu-me aquela saudade na barriga dos primeiros John Wick, da ação mais contida, corpo a corpo, do desenrasque. Há um desnível assumido de forças e Eve (e este Ballerina) usam-no de forma inventiva, diferenciadora e memorável. Com aquela pinta púrpura deste universo. Falta de facto maturidade à intriga e alguma sensualidade (quiçá uma cena de sexo) mas se tudo correr bem neste jardim, a noite ainda é uma criança.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Fim de semana e fim do mundo na Gronelândia

No espaço de uma semana vi dois filmes em que o Gerard Butler está com o matrimónio todo escangalhado. Um em que lhe raptam a mulher numa bomba de gasolina - Breakdown do Intermarché- e o outro este Greenland, onde felizmente não lhe fazem nada à mulher mas o planeta está em dificuldades. Cometa Clarke, que afinal é cometão, impacto profundo, muitos impactos profundos, extinções em massa, fim. Eu até tinha deixado passar este mas entretanto descobri que vai ter uma sequela, Greenland: Migration, e ignorar um filme é uma coisa, ignorar uma saga é outra. Então lá pus mãos à obra e este desnorte de uma família perante o final do mundo deixou-me surpreso. Há nele uma intensidade partilhada, uma aflição permanente que tanto cai no desespero (e no pior) como oferece incomuns momentos de humanidade e conexão. O tio Emmerich não aprovou, mas o tio Ferreira gostou.

quinta-feira, 6 de junho de 2024

A estrada da Furiosa

Ainda não li nenhuma crítica ao Furiosa que não fale de Fury Road. Até eu, ao dizer que não li nenhuma crítica ao Furiosa que não fale de Fury Road estou a falar de Fury Road. E esta apendicite pode de alguma forma prejudicar um filme que se serve bem sozinho. Vira o disco e toca outra merda completamente diferente: outro tom, outro ritmo. Miller agarra numa figura cheia de carisma e oferece-lhe um era uma vez; o épico arriscado que ela merecia. Num cenário tão rico em personagens que parece que nunca saímos da luxuriante floresta. O Pedro (Cinemaxunga) a meio do filme disse-me que aquela trupe só podia mesmo existir ali, e de facto é verdade. Há tanta energia e tanta cor nesta malta que qualquer um deles nos podia levar pela mão aos recantos da Wasteland: desde a Mary Jabassa (a mãe de Furiosa), passando pelo  Praetorian Jack (beijaria), até ao Scrotus (o outro filho de Imortan Joe) ou a Elsa Pataky em dose dupla. Esta segurança, onde qualquer um pode assumir o volante e seguir noutra direção, torna esta saga num objeto único. Especial e imersivo, onde, sem travões, temos a certeza de que não nos iremos perder. 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

La La Garland

[SPOILERS] Aos vinte minutos de filme, já depois da viagem ter começado, pensei - Ah de certeza que no final a jornalista veterana falece e a novata regista o momento. Depois esbofeteei-me. Não sejas parvo Miguel, é o Garland caralho. Não é um tarefeiro qualquer. É claro que ele vai procurar outro caminho. É claro. É claro que não. E saltando essa barreira da expectativa autoral, encharcadinhos de previsibilidade, podíamos ter esse mesmo final se existisse uma construção/ligação entre essas duas personagens. Era necessário sentir a transformação, a energia de uma que se esgota em prol da metamorfose da outra. Falta tempo, falta química. Os diálogos pouco trabalhados e as decisões artísticas guiadas pelo manual - como as fotografias a preto e branco - também não ajudam a que se possa encontrar um espaço distinto. Gosto muito do lado da reportagem, de irmos de momento em momento, de relato em relato, com uma cinematografia incrível (o tal verde garlandiano a espaços, o que eu procurava a espaços). Mas sinto que o filme nunca se encontra, entre os horrores da guerra, a adrenalina da profissão, o conflito de gerações, a crítica política, o valor da imagem. Tudo tem lugar mas nada realmente assina e se deixa assinar. 

quarta-feira, 29 de maio de 2024

O bocadinho que falta


Estávamos à espera das salsichas do Carlos. Ali sentados, banco de entrada do Passos Manuel*, num dos momentos de pausa do Nalgas Film Festival 2023. Enquanto os cachorros que o nosso mais que tudo assegurou não chegavam, discutia com o António (Segundo Take) as potencialidades socioeconómicas do glamping em zonas despovoadas do país. Não discutia nada, falávamos de cinema, claro. Do último Indiana Jones e de como a pressa se apoderou do blockbuster. Filmes a correr que nunca mais chegam ao fim. Há um momento em particular neste Marcador do Destino, logo ao início quando o Indy em CGI cai de um penhasco com o Capote, em que na cena a seguir vemos a superfície da água. Para que o momento resultasse era preciso aquele impasse. É claro que todos sabemos: ninguém morreu. Mas esses segundos fazem parte do engenho e do espaço; é vital ficarmos naquele tique-taque da espera. Mas não, esse interlúdio de ar fresco é cortado, e assim que vemos o local da queda eles voltam à tona. 

Nisto chegámos ao Speed, não por faltar um bocadinho, neste caso de autoestrada, mas porque o tinha revisto recentemente. Apanhei-o na televisão, nessa mesma cena em que todos percebem que falta um pedação de asfalto. E é maravilhosa, uma métrica cinematográfica frenética mas que nos engole com calma em todos os seus passos. Eles aproximam-se naquele carrito, falam com o Keanu, transmitem-lhe as más notícias e depois afastam-se. Nesse afastar, percebemos que estamos sozinhos. Percebemos que estamos mesmo naquele autocarro e que vamos mesmo ter de dar o salto com aquela malta. 30 anos depois continuo a vibrar como se fosse a primeira viagem. Não sou o único. O Stuckman grava uma bonita carta de amor à obra, onde estabelece uma interessante teoria sobre a força dos filmes de ação dos anos 90. 

Sim, mais uma lamúria que escapou à polícia da saudade. Mas é também forma de celebrarmos os nossos filmes e de encontrarmos caminhos para uma nova velocidade.

*uma sala de cinema com um pequeno bar e não um bar com uma pequena sala de cinema.





terça-feira, 27 de setembro de 2022

O bom, o mau e o twistzão


Este Samaritan é bem-intencionado. Mitologia no lugar, com raízes coloridas a oferecer uma árvore um pouco diferente do resto da floresta. Porém, se há coisa que me irrita, é ainda não ter ligado a televisão e já ter percebido tudo. Foda-se, não há o mínimo de esforço ou desafio naquele que é o volte face mais importante da narrativa. É estar ali, a bater minutos à espera que nos façam a grande revelação. Até a prestação do ator criança passa, agora tomarem-nos por pepinos do mar é que não.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Asgard Pelos Ares

O Russel Crowe bem pergunta, no finalzinho, cena escondida: quando é que os deuses passaram a ser uma anedota? De facto. Qual foi a curva onde o nosso Thor virou paródia de si mesmo? Chegamos aquele ponto de marinbanço total pela personagem, onde a tragédia e a impossibilidade dos dois primeiros filmes (meu querido The Dark World foda-se) são desperdiçadas num caldeirão exausto de sketches, cabras e rock'n roll. Novos mínimos na casa do tio Feige.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

A melhor cena do ano

Se ainda não viram o Under Siege: Pataky edition, então é melhor sair, vai pintar spoiler. Estamos perto do final, a nossa heroína, já só com um braço funcional, luta contra o boss - tudo marinado durante semanas em anos 90 - quando do nada aparece um submarino. Dele sai o Capitão Iglo, olhar sério, sem qualquer douradinho. Um gajo a pensar, foda-se e agora? Fim da linha para a nossa menina? Claro que não, por detrás do Capitão Iglo está um sniper genérico com barbas que atira certeiro ao peito do bandido mor. Que delícia amigos, que delícia.

Mega draft de Cinema de Ação, parte 2 - As Filas da Frente

Conclusão apoteótica deste Mega Draft de Cinema de Ação, onde eu, o Bruno e o Jay levamos tudo à frente que nem comboio do Unstoppable, tentando rebentar com apeadeiros não tão evidentes. Claro que o Predador é o Predador. Como não?

terça-feira, 19 de julho de 2022

Fila de Braquiossauros na A2 desde o 2º viaduto do Feijó

[SPOILERS] Há uma cena em que o Chris Pratt faz uma gargalada com uma só mão a um Dilophosaurus. Acho que foi aí que desisti. Sei lá. É que mesmo que se passe a inexplicável escolha dos temas perdeu-se aquela distância necessária. Fallen Kingdom em vez de abordar as questões morais de salvar ou não salvar, debruçou-se sobre os avanços da clonagem, leilões à chuva numa mansão antiga e um dinossauro ainda mais malino do que o outro mais malino que por sua vez já era mais malino que o seu predecessor. Pronto, tudo bem. Jurassic World Dominion em vez de atacar os desafios de equilibrar um ecossistema completamente novo (e explorar os vários cenários) vira uma espécie de live action do A Bug's Life, abordando os novos perigos da manipulação genética. Pronto, vá, que se foda. Siga. O problema é que mesmo dando isto de barato, extinguiram aquele respeito e encanto pelo dinossauro: a sua mística. O perigo, a expetativa. É verdade que a introdução da domesticação palerma, inserida logo no primeiro filme desta trilogia, não ajudou, mas vá lá, isso não justifica. Podíamos ter um Jurassic Galaxy, passado numa casa de férias numa lua de Saturno sobre os perigos dos ventos solares em pulgões da areia, mas ser à mesma uma boa aventura, bem escrita, com as peças no sítio certo. Este filme nem isso consegue, saltitando entre uma edição amadora e diálogos constrangedores. - Tens um dinossauro às costas? - Tenho, tenho. Fim de conversa. O que é que é isto? E depois anda lá o elenco do original, de um lado para o outro, à procura do cheque, sem grande função ou coração. É tudo um bocadito desolador. Sei lá.  É mandar solidificar este filme em âmbar e esperar que nunca ninguém o encontre, porque esta "nova" saga, ao contrário da vida, não está mesmo a encontrar um caminho.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Mega draft de Cinema de Ação, parte 1 - As Filas da Frente

Esqueci-me do Olympus Has Fallen. Da saga Fallen no geral. Que tristeza. Mas a vida continua. E o bofetão também. Prática essa muito presente nesta ode ao cinema de ação que nos leva por corredores saudosistas, sequências inesquecíveis e terrenos aliciantes (mas perigosos), como a filmografia de Marco Brambila. Parte I, a Parte II sai no natal, para encostar o Avatar a um canto.

terça-feira, 7 de junho de 2022

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Aborrecimento fantástico e onde encontrá-lo

Não seria mais interessante, atribuir cada uma destas novas aventuras do universo Potter a um realizador diferente? Como fizeram, assim assim, até ao Cálice de Fogo. É que feitas as contas já vamos em sete filmes do David Yates. Sete. E se há coisas que eu gosto (como o primeiro Fantastic Beast) há outras que considero puras obras de encomenda (como os dois Deathly Hallows). Este capítulo com os segredos de Dumbledore, é o derradeiro apeadeiro dessa máquina sem condutor. É surreal como um universo tão rico e colorido possa ser convertido numa "aventura" tão inerte. Não há movimento. Não há movimento nem argumento. O plano dispersa-se por inúmeros personagens sem espaço para mais do que as suas linhas de diálogo. No final quase que conseguimos descolar numa ideia, naquela sequência das malas. Mas são suspiros de uma empreitada muito pouco digna da Fantasia.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Anda comigo ver os aviões


Não é só o bilhete para os anos 80. Não é só o cinema de ação em extinção. Não é só o filme perfeito com baladão. É o despertar de todo esse gozo com um propósito, com uma ideia. Top Gun: Maverick existe nesse passo, nesse feito técnico de algo único, à procura. Vivemos nesta jaula de sequelas aquecidas no micro-ondas, desenhadas num fundo verde, menos credíveis e menos palpáveis. Tom Cruise faz exatamente o oposto, dá-nos a experiência que a aventura sempre mereceu. Com bom gosto e respeito pelas suas personagens. E o que mais me impressionou, é que tratando-se dum cristalino filme de género (do molde) mantém-nos sempre na expetativa. Essa emoção é fabricada apenas por quem vive o cinema e por quem, acima de tudo, sabe que o cinema também passa por nós, espectadores. Uma inacreditável e imperdível experiência de sala.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

O bom, o mau e o vilãozinho

[SPOILERS] Episódio 1, Obi-Wan Kenobi. Ai os Inquisidores, esses vilões sem um pingo de humanidade, vis criaturas capazes das maiores crueldades e atrocidades da galáxia, piorzinho que isto não há. Tão ruins, tão ruins que são capazes de pendurar em praça pública um Jedi pelo pesc...pelos suspensórios? Foda-se Disney vá lá. Facilita um bocadinho.

terça-feira, 31 de maio de 2022

A libertação das máquinas


Uns furos acima da temporada anterior, este tomo do Love, Death & Robots vai desde pequenos snacks de humor até jornadas Fincherianas no mar do alto. Arrojado, experimental, libertador. Aqui fica o meu topzinho dos nove episódios, do menos para o mais. Se entretanto quiserem relembrar toda a série podem explorar esta fabulosa lista, com tudo e mais alguma coisa. 

9 - The Very Pulse of the Machine
8 - In Vaulted Halls Entombed
7 - Kill Team Kill
6 - Swarm
5 - Three Robots: Exit Strategies
4 - Mason's Rats
3 - Night of the Mini Dead
2 - Jibaro
1 - Bad Travelling

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Continuamos à espera do Life 2

Pensava que era bem pior. Não pensava nada. Não tinha era ainda usado o "pensava que era bem pior" este ano e Morbius pareceu-me o momento certo. É claro que alguma coisa correu mal aqui: o filme caiu ao chão e alguém perdeu as instruções de montagem, se calhar. Nada realmente encaixa, não temos transições ou construções (ainda mais prementes numa história de origem). Toda a dualidade (interessante), quer do Morbius quer do vilão, e da relação de ambos por arrasto, é descartada, em prol de um argumento piloto automático e de diálogos francamente desinspirados. Achei piada aqueles efeitos arrastados e ao colorido das lutas, mas pouco mais há a retirar de um pupilo que podia ter tido em Blade uma óptima inspiração. Na verdade é irónico que num filme de vampiros corra tão pouco sangue naquelas veias. 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Jean-Luc Picard: crónicas da juventude


Mas que grande salsada, esta segunda temporada de Star Trek: Picard. Jesus. Não vou dizer mais nada, para não começar a chorar. E também porque já recomendei a série aos amigos da Sala Azul, agora já não dá para desrecomendar. Vou, porém, falar à mesma do Jean-Luc e do Star Trek: Nemesis que vi recentemente. Então não é que, para representar uma versão jovem da personagem, o filme não utiliza aqueles rejuvenescimentos do photoshop versão trial que nos fazem sangrar dos olhos e uivar do estômago. Verdade, em vez de encerar as trombas do senhor vai buscar uma tecnologia inovadora muito mais interessante: contratam outro ator. Wow! É fazer figas para ver se isto pega.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Ó Raimi, ó que lindo Raimi


[SPOILERS] É estranho mas não começa bem. Exige logo bagagem pesada dos filmes e séries anteriores, sem tentar o mínimo de construção ou preparação. A própria edição é abrutalhada (veja-se a cena do casamento), levando-nos aos tropeções até uma personagem nova. E aqui, outro problema: America Chavez, sem a experiência nem o carisma para conduzir este primeiro arco buddy avenger. Possivelmente o primeiro grande erro de casting do MCU. Assim que a câmara vira, assim que o Sam Raimi se ambienta, tudo muda: passamos a ter o terror da perseguição, apertada e sanguinária, uma Wanda em modo Carrie, a levar tudo a frente e um Doctor Strange a percorrer-se. A questionar-se. É o coração do filme a aparecer aos poucos, como o sol por cima das nuvens. Na recta final então, já estamos todos lá: nas notas musicais de um duelo ou nos demónios à volta de um zombie. Eficiente, inteligente e delicioso. As páginas soltas do arranque vão-se encontrando e agregando na ideia de uma escolha, de um caminho, de um autor. Não é o desvario que ia à espera mas pode muito bem ser a loucura necessária para abanar um pouco o jogo.