Este Carpenteriou um bocado a coisa: pegou num grupo de pessoas, neste caso uma família, e isolou-as em nenhures, neste caso numa base militar. A larga escala do filme anterior, da citadina azáfama, dá lugar assim a uma conspiração militar - alerta subtexto - mais contida nos seus recursos e possibilidades. Porém esta delimitação não lhe tira o horror da transformação e um certo sentido prático. Se calhar apressado, especialmente nas ligações núcleo familiar e casal jovem enamorado. A narração, a espaços, parece também problema de uma edição abrutalhada, de um outro filme (uma outra ideia). Mas feitas as contas temos uma cena espetacular na banheira, temos a Gabrielle Anwar (crush clássico dos anos 90) e temos um belo par de gritos. Para mim está feito.
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sexta-feira, 11 de março de 2022
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022
Tu já não és tu - Invasion of the Body Snatchers (1978)
Tem início hoje o Ciclo Tu já não és tu, uma tripla investida que tenta homenagear a canção do Toy, perceber o que aconteceu ao Spielberg nos últimos 20 anos e falar de filmes onde bandidagem alienígena nos troca uma versão mais sinistra de nós próprios. Para que a coisa faça sentido começamos pelo segundo, o remake do filme de 1956, que mete o Donald Sutherland e uma rapariga que ia jurar que era a do Suspiria mas afinal não é - confundi a Brooke Adams com a Jessica Harper - a fugirem que nem doidinhos de uma invasão extraterrestre. Há um plano picado incrível, onde só vemos as pernas de ambos a ir para um lado, depois para o outro, em crescente ritmo e desespero. O modo como a paranóia vai sendo apresentada, com recurso a esses elementos citadinos, passeios, luzes, montras, é de mestre. Em paralelo, o processo de gestação/replicação vai sendo desvendado com paciência, dentro dos tempos necessários: o filme a mutar-se da ficção científica para o terror, com aqueles casulos, aquela gosma, e depois, aquele grito. O truque que nos salva a ser afinal a nossa perdição. Foda-se que final.
sexta-feira, 23 de julho de 2021
Mas afinal o que é que não viste do Gus Van Sant? - Last Days (2005)
Há sempre um vidro ou uma parede neste purgatório Van Santiano. Enquanto que em Elephant (o meu favorito) erámos mochila nas costas das personagens, saltitando nos corredores, entre umas e outras, aqui somos espectros, mirones, a assistir silenciosos ao fim do mundo. Frios, como a mansão degradada de altos tectos que acolhe este organismo cambaleante. Não é que eu não fique encantado com as longas sequências, em especial com aquele delicado zoom out enquanto ele toca, a questão é queria francamente fazer parte destes últimos dias. E nunca consegui.
segunda-feira, 21 de junho de 2021
Mas afinal o que é que não viste do Gus Van Sant? - To Die For (1995)
Começa hoje o Ciclo " Mas afinal o que é que não viste do Gus Van Sant?", que pretende, desconstruindo um pouco o seu complexo título, levar-nos aquelas obras do mestre que eu ainda não vi. Começando por um daqueles empurrar com a barriga dos anos 90, quando os cartazes apareciam nos jornais, a preto e branco, para serem recortados e guardados em dossiers. Fui deixando passar e depois desapareceu, com o vento. Até hoje. E é engraçado contrastar a ideia que temos do filme - com tudo o que fomos lendo, vendo - e depois a obra propriamente dita. Como a voz de uma pessoa que nunca vimos. Neste caso alguém totalmente distinto. O que fazia como um thriller erótico de ascensão mediática acaba por ser uma inventiva sátira local baseada num caso verídico (agora já sei quem inspirou o I Tonya). Uma comédia negra salpicada de entrevistas, a cair para o falso documentário, a aproveitar-se duplamente das suas personagens e a apontar a câmara inúmeras vezes para nós. Para além de uma Nicole Kidman de corpo inteiro - aqueles monólogos com a câmara são arrepiantes - uma das coisas que mais gostei, e que levo, é a clara fotografia de uma comunidade, de uma galáxia fechada, que impede saída até à mais inteligente/cruel/tresloucada das estrelas.
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