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domingo, 30 de maio de 2021

Dentro desse lugar

Lembro-me de ver primeiro teaser de A Quiet Place Part II, com o grupo a caminhar e a Emily Blunt a dar aquele passo em frente, e pensar: epá tenho saudades desta malta. Acontece-me pouco, acordar para este tipo de afeto. Compromisso que Krasinski corajosamente mantém: uma sequela de e para aquela família; prática, segura e eficaz. A mãe e os seus dois filhos continuam a ser os olhos e os ouvidos da jornada, o que nos aproxima e afunda num cosmos que merece e que tem de ser visto no silêncio da sala de cinema. [SPOILERS] Este grau de dedicação faz-me gostar ainda mais desta continuação. Quando pensamos em segundas partes, somos sempre levados para o maior. Ampliar, devorar, carregar. Aqui não, todas as armadilhas do apocalipse - entrada em jogo do exército, grupos de outros sobreviventes ainda piores que as criaturas, micro sociedades que se conseguem erguer - ou são evitadas ou então apenas assinaladas como meras passagens. Porque a história é o íntimo, o reerguer e continuar a lutar, soberbamente ilustrado naquele final de irmãos, separados mas sintonizados, a assumir o papel que o pai tinha na crença de uma resistência. A adicionar ao núcleo, um Cillian Murphy em topo de forma, a levar-nos para as dinâmicas de The Last of Us - era tão bom que a futura série percebesse os espaços e o terror desta forma - e a integrar-se de uma forma tão bonita nestes nós. Por último, e porque  os últimos são sempre os primeiros, a cena inicial, o dia 1, uma aula de suspense, tempo, entretenimento e emoção. Obrigado caraças.

domingo, 27 de maio de 2018

Ele só quer ser um filme de terror


Estes filmes acabam por perder com a quantidade desmesurada de chapéus que lhes querem enfiar cabeça abaixo. O ano passado foi Get Out, e a raça, este ano é A Quiet Place, e a política. Mais, querem ainda espetá-lo na categoria de façanha técnica, de "ai que o filme não tem quase diálogos". O filme tem diálogos e não, não se trata de um exercício, exercício é A Arca Russa, o Memento ou O Artista, que optam por uma forma. Aqui não é opção, é contexto. Mesmo querendo, não há outra forma de contar sem ser o silêncio. Porque sem ele não se vive. Tirando todas estas sacas de cimento do costado damos por nós num pequenino e belíssimo filme de terror. Uma obra que não só nos coloca em sentido, e se eu, e se eu, mas que se concentra na família, na perda, na culpa, na esperança. O tal pretexto monstro para questionar o que de mais humano existe e persiste. Um quarteto de actores em grande forma, bicharada com fartura e um ritmo vertiginoso fazem deste shhhhhh um dos grandes filmes do género deste ano.